Um grande conflito que uma pessoa enfrenta na vida é escolher entre fazer algo que gosta ou se dedicar a atividades que garantam a ela o sustento, mas que são percebidas como não prazerosas.
Muitos esperam pela aposentadoria para se livrarem dos compromissos e poderem realizar seus desejos, para se envolverem em projetos que normalmente têm um aspecto lúdico, aventureiro, criativo, artístico ou de importância social: um curso de pintura ou violão, uma viagem pelo mundo, uma casa ou uma pousada na praia, escrever um livro, trabalhar numa ONG. Podem descobrir que, mesmo depois de aposentados, ainda precisam lutar pela sobrevivência ou que seus corpos não têm mais as condições para encarar uma aventura.
Outros dizem a si mesmos que precisam fazer um pé-de-meia, ter uma segurança econômica, antes de se entregarem ao que acreditam realmente querer na vida. Vão adiando os projetos, fazendo as contas para ver quando teriam uma reserva monetária que permitisse a eles largar o emprego chato e buscar a realização dos sonhos. Porém, essa é uma matemática que nunca fecha. Sempre se pode guardar um pouquinho mais, sempre se pode ter um patrimônio mais robusto. Jamais se encontra uma quantia que garanta uma segurança plena, um cenário livre de riscos.
É comum se passar a existência esperando o momento de poder ser feliz e depois chegar à conclusão que esse tempo não veio ou que ele chegou, mas não pôde ser aproveitado. Por esse caminho, diante da demanda social cada vez maior de que devemos encontrar a felicidade ainda nesta vida, é possível que estejamos criando uma legião de pessoas frustradas, ansiosas e impotentes.
Talvez pudéssemos diminuir o desânimo se retomássemos um ponto primordial quando pensamos em realizar nossos desejos: o que é que realmente eu quero?
Normalmente acreditamos que existe algo no mundo (um objeto, uma atividade ou uma pessoa) que nos faria felizes. Devemos ir atrás do encontro com isso que nos satisfaria. A dificuldade é definir que algo é esse que nos deixaria realizados.
As pessoas, de uma forma geral, endereçam a pergunta sobre o que querem para terceiros que elas supõem ter alguma autoridade, algum saber sobre elas. Procuramos nossos pais, professores, amantes, amigos, médicos, astrólogos, pastores, psicólogos, pais-de-santo ou psicanalistas para que respondam sobre aquilo que nos levaria em direção à felicidade: que comportamento ter, que regras seguir, que decisões tomar, que profissão escolher, a qual amor se entregar. O final dessa história é geralmente a pessoa se queixar que foi ludibriada ou que não foi feliz porque fez o que o outro queria e não o que era o seu desejo próprio (como é comum pais e mães serem responsabilizados pelos insucessos dos filhos. Pais dominadores e mães superprotetoras são grandes vilões nos consultórios psicanalíticos).
Já os que definem por si mesmos aquilo que buscam na vida tendem a arrumar um jeito de nunca ter a coisa desejada. E se, por acaso, conseguem ter à mão o objeto querido, logo descobrem que não é bem aquilo que sonham e elegem outro ideal de felicidade. Acabam também apontando um responsável por ficarem sempre aquém da satisfação perseguida: foi o fato de ter nascido pobre em um país que não oferece oportunidades justas, foi algum mau-caráter que o enganou, foi uma doença debilitante ou um outro azar que apareceu na hora errada.
Parece que toda vez que escolhemos determinada coisa como a resposta para aquilo que queremos, ficamos condenados à insatisfação. O objeto só nos faz felizes nos nossos pensamentos e devaneios: como ficaria satisfeito se tal pessoa me amasse, se pudesse viver uma vida cheia de aventuras com ela; como seria mais realizado se tivesse um emprego que me permitisse viajar pelo mundo ou ter um apartamento cheio de confortos e um carrão; como seria mais contente se não tivesse casado nem tido filhos; como seria o máximo ser ator, escritor, cantor ou cineasta.
Se dou sorte e me torno rico, famoso ou sou amado pela pessoa sonhada, em pouco tempo descubro obstáculos que me impedem de curtir a felicidade prometida.
O problema é que não percebemos alternativa para o fato de termos de dar uma resposta sobre aquilo que queremos. Acreditamos que não podemos viver sem escolher algo para buscar, algo que nos satisfaça. Se não for uma coisa, deve ser outra. Mas o fim desse enredo parece ser a eterna infelicidade, uma não-realização permanente.
Quem sabe, de forma diferente, pudéssemos responder a pergunta sobre o que desejamos simplesmente dizendo que desejamos desejar, que o nosso grande desejo é desejar e não encontrar algo que nos complete.
No fundo, o desejo de desejar sempre prevalece. Ocorre que na via de se descobrir aquilo que nos satisfaz, isto se manifesta pela insatisfação e pela sensação de distância daquilo que sonhamos. Esse é o caminho do engano, de não saber que o objeto de nossa felicidade é uma ilusão, uma miragem. Deste modo, vivemos desviando o olhar, afastando do nosso horizonte tudo aquilo que denuncie a impossibilidade de se ter a completude. A realidade é sustentada em cima de um não-quero-saber-disso ou um me-engana-que-eu-gosto.
Como resultado dessa estratégia ilusória, temos que todos aqueles que nos prometem a resposta certa e definida sobre o que queremos são, em um primeiro momento, enaltecidos e amados, para, depois, invariavelmente, serem desmascarados e odiados (triste destino dos mestres). E, aí, trocamos um engodo por outro.
Uma opção diferente seria encarar a miragem, reconhecê-la. Assim, em vez de descobridores, talvez pudéssemos nos perceber como inventores da felicidade. Que não se trata de um encontro, mas de uma invenção. E o que caracteriza uma invenção é que ela nunca tem um fim, é uma história que eternamente precisa ser contada. Uma ficção nunca é definitiva como se pretende uma descoberta.
Quando vivemos nos iludindo sobre um objeto que nos satisfaria, permanecemos na queixa e na raiva de não sermos atendidos em nosso clamor. Quando topamos o desejo de desejar, quando sabemos que não temos um outro para esperar, fazemos uso daquilo que a nossa história nos traz e nos oferta. A vida deixa de ser vista como uma promessa ou uma dívida a ser resgatada, mas como um presente que precisa ser usado. E esse bom uso pode ser criarmos respostas novas.
Se nos reconhecemos desamparados, podemos pensar em uma nova saída para a questão sobre estarmos ou não fazendo aquilo que deveríamos em nossas vidas: estamos no caminho se podemos dizer que fazemos uma determinada atividade pelo compromisso com nosso desejo de desejar e não para manter as respostas prévias que o mundo nos oferece. Se, de alguma forma, nos percebemos como construtores da nossa realidade.
Entretanto, na hora ousarmos uma diferença no mundo, somos tomados por um medo, por uma ameaça de não sermos amados, de ficarmos sozinhos. Bom, esse receio só serve para recuarmos, para reforçarmos nosso engano de que existe um outro para nos responder, para nos amar. Mas, se for possível encarar que se trata de uma ilusão, que não há um outro para perdermos, que ele nunca existiu, o medo perece. A recompensa dessa solidão, paradoxalmente, pode ser a realização do amor, a possiblidade de se ter aquilo que se diz querer.
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
quarta-feira, 13 de julho de 2011
MEU CORPO, MEU INIMIGO
Qual é o grande vilão de nossas vidas? Qual o pior estraga-prazer, o maior obstáculo para sermos felizes em nossas existências? A resposta, cada vez mais, parece ser: o nosso corpo.
Na nossa sociedade, acredita-se que a maior parte das infelicidades que encontramos pelo caminho advêm do nosso organismo. Ele é o grande culpado pelas coisas não darem certo: não consigo meu amor porque tenho um corpo feio, porque meu metabolismo é lento e estou condenado à obesidade. Não consigo um bom resultado escolar ou não me dou bem nos empregos porque nasci com um cérebro menos inteligente, menos esperto. Se, por acaso, conquisto coisas que sempre sonhei em minha vida, um diabetes, uma dor constante nas costas, um joelho deslocado, o intestino não funcionando bem ou uma insônia sem trégua me impede de curtir. Se tenho sucesso nos negócios, se minha família é harmoniosa e carinhosa, o medo de um infarto, de um câncer ou de uma doença degenerativa não me deixa usufruir a vida em paz. Se finalmente vou transar com a garota que há tempos desejo, o receio de pegar uma doença me faz brochar. E, como se ainda fosse pouco, posso acabar sendo alvo de uma depressão causada pelo meu sistema nervoso que não produz serotonina como deveria.
Nosso corpo não nos dá sossego, está sempre cortando o nosso barato! Queremos saborear tranquilamente nosso churrasco, nosso chocolate, nossa pizza, mas ele está lá nos ameaçando: vamos engordar, vamos ficar feios, vamos adoecer, vamos sofrer. Gostaríamos de viver grandes experiências na vida (sexuais, esportivas ou outras aventuras), mas nossas condições físicas limitadas nos impedem. Por fim, com os anos, estamos condenados a uma decadência corporal que nos trará, de forma progressiva, privações e sofrimentos até que nosso organismo, totalmente contra a nossa vontade, vai parar de funcionar.
Dores, doenças, envelhecimento e morte: nosso corpo é insensivelmente cruel com nossos sonhos, com nossa busca pela felicidade.
Mas, para a nossa esperança, a ciência e a medicina estão trabalhando para que mudemos esse estado de coisas, para que nosso corpo encontre condições de se aprimorar, de se aperfeiçoar até que, um dia, possamos superar todas as nossas limitações físicas e finalmente sermos completamente felizes.
Adoecer e mesmo morrer não são mais condições que devemos aceitar como inevitáveis. Novas abordagens biológicas consideram que até mesmo o envelhecimento deve ser encarado como uma doença a ser tratada e no futuro eliminada. Como consequência dessa visão, podemos afirmar que, no mundo atual, o conceito do que é normal e do que é patológico mudou. Não se pode mais dizer que o normal é o mais comum, o que se espera para a maioria. Sabemos que todos os humanos adoecem, envelhecem e morrem, mas parece que consideramos que o normal seria nos livrarmos destas condições. O normal seria um estado novo, uma condição corporal que não só não é comum, como não existe. A doença não é uma exceção à regra, mas a própria regra. O normal é o que fugiria à norma, ao que é comum. O normal é que seria a exceção.
Nesse caminho, o corpo humano, para a medicina de hoje, é doente por natureza. Podemos até mesmo dizer que a natureza é patológica. Temos de nos livrar de nossa condição natural, temos de ir em busca de um mundo construído pela razão humana, um mundo ideal, de acordo com nossa vontade de sermos totalmente felizes. Enfim, um mundo sem dor, doença, envelhecimento ou morte. Um mundo sem o nosso corpo imperfeito. Em vez do corpo real, um novo corpo virtual, tão poderoso, forte e imortal como os das telas dos filmes ou dos games.
Tudo seria muito bom e bonito se não soubéssemos que, para se manter um ideal, devemos nunca alcançá-lo, temos de ficar só na promessa, temos de fracassar sempre. E o nosso fracasso em ter um corpo ideal é justamente continuarmos com dores e doentes. Dizemos que queremos a cura, mas damos um jeito dos tratamentos sempre falharem. Sofrendo, mantemos a esperança e, mantendo a esperança, sustentamos um norte para nossas vidas, um sentido final para nossas existências. Ficamos no lugar de vítimas de um corpo limitado que nos foi imposto, mas mantemos a expectativa de que um dia essa falta será reparada e poderemos finalmente retornar ao paraíso.
Não é de se estranhar que, apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos, as pessoas têm de passar, cada vez mais, por procedimentos médicos. Hoje em dia, ocupamos boa parte do nosso tempo cuidando da saúde. A vida moderna se caracteriza por idas constantes aos médicos, exames e check-ups regulares, medidas preventivas de saúde. Consultórios, clínicas, hospitais e laboratórios tornaram-se quase a nossa segunda casa (todos com caras muitos amigáveis, alguns lembram bons hotéis). Devemos, em nossa vida diária, seguir uma série de limitações alimentares e comportamentais para não ficarmos doentes. Desde crianças temos de nos prevenir- já nascemos tomando comprimidos, vacinas, complementos alimentares. Crescemos e o número de pílulas se multiplica. É normal encontrar pessoas com 40 anos tomando cinco ou mais medicamentos, boa parte preventivos.
A cada novo dia, uma nova ameaça é descoberta (uma nova bactéria, um novo vírus, um novo agente cancerígeno) e a lista de restrições e cuidados só aumenta. Mesmo com todo o progresso científico, mesmo com todas as novíssimas máquinas de diagnóstico e tratamento, mesmo com todas as técnicas modernas de vigilância sanitária, mesmo com todas as ações governamentais para garantir a nossa boa saúde, nosso corpo parece sofrer perigos cada vez maiores. Quanto mais descobertas, mais novos problemas. Quanto mais expandimos nosso olhar sobre o mundo, maior o número de defeitos que encontramos.
E devemos não só seguir medidas que previnam doenças, mas também toda uma gama de procedimentos para não envelhecermos, para mantermos nosso corpo bonito. As especialidades de cuidados estéticos têm ganhado um enorme espaço dentro da medicina. Dermatologia estética e cirurgia plástica são as melhores escolhas para o jovem profissional interessado em ter uma grande clientela. Devemos lembrar: ser feio é patológico!
Nossa vida é, cada dia mais, organizada e pautada pela medicina. Ela é a base de uma nova moral, ela nos diz o que é certo ou errado fazer e quais punições receberemos caso não sigamos suas orientações. Os governos orientam suas políticas tendo em vista leis que garantam cidadãos mais saudáveis. Vivemos para ter saúde, para evitar que nosso corpo atrapalhe nossa busca pela felicidade.
Especula-se que, em pouco tempo, os gastos com saúde estarão entre os maiores de uma família. O setor de saúde será um dos grandes motores da economia nos próximos anos. E, para manter esse mercado aquecido, precisamos de muitos, muitos e muitos doentes. Definitivamente, não é a saúde que faz essa maquina girar.
Este é o paradoxo ou a contradição do ideal do corpo perfeito: para acreditamos em algo que é impossível, para não sabermos que se trata de uma ilusão, devemos seguir com nossas dores, com nossos sofrimentos, com nossas queixas e clamores de um mundo de perfeição. Temos de seguir doentes.
Mas, quem sabe, as coisas pudessem ser diferentes se, pelo menos, nos questionássemos sobre essa promessa a que, com tanto afinco, nos entregamos. Que corpo ideal é esse que dizemos buscar? Um corpo que nos permita realizar todos os nossos desejos e sonhos? E se pudéssemos realizar todos os nossos desejos e sonhos? A resposta: tédio, muito tédio. Só Deus tem o segredo de tudo poder fazer e não se entediar. Nós, mortais que somos, fazemos tudo para afastar a completude. Sabemos que o tédio é nosso alerta contra a falta de sentido na vida.
Estaríamos, então, condenados ao engano do ideal? Devemos seguir dizendo que queremos uma coisa e, na prática, fazermos tudo para que essa coisa não venha?
Talvez, exista uma outra forma de escaparmos do tédio, de nos mantermos animados . Podemos começar percebendo que nosso corpo não é perfeito nem imperfeito. Só podemos falar que nosso corpo é defeituoso ao compará-lo com um corpo que é impossível de existir (para termos um organismo invencível, teríamos de controlar todo o universo nos seus mínimos detalhes. Por exemplo, se a genética é a causa das doenças, devemos controlar o que causa as alterações genéticas e depois o que causa modificações nessa causa das alterações genéticas e, assim, sucessivamente, de causa em causa, em um movimento sem fim ou, para os que acreditam, até chegarmos à causa primeira: Deus. Por esse caminho, nosso ideal de cura é sermos Deus).
Sem um ideal de corpo para alcançar, deixamos de vê-lo como errado, defeituoso, patológico. E, se nunca conseguimos conhecer nosso corpo, podemos encará-lo como um mistério sem fim. Um mistério sempre presente e que nunca nos entedia. Um mistério que não convida à revelação, mas à invenção.
Em ciência, dizemos que estamos descobrindo coisas, que estamos progredindo em nosso conhecimento, porque acreditamos que isso teria um fim, um momento de tudo saber. De forma diferente, a psicanálise, ao não poder se orientar pelo ideal, aposta que fazemos ficções. As ficções nos servem em um determinado momento, elas nos permitem uma realidade, um mundo, mas elas nunca são o mundo.
Esclerose múltipla, ressonância magnética, fibromialgia, lipoaspiração, HPV, reposição de cálcio, psoríase, clonazepam, colesterol alto, linfoma, hérnia de disco, PSA e aneurisma de aorta são boas descobertas de nosso mundo. A psicanálise, por outra via, nos convida a invenção de uma nova realidade, de um corpo que não seja visto como um inimigo, mas como a nossa própria condição de existência.
Na nossa sociedade, acredita-se que a maior parte das infelicidades que encontramos pelo caminho advêm do nosso organismo. Ele é o grande culpado pelas coisas não darem certo: não consigo meu amor porque tenho um corpo feio, porque meu metabolismo é lento e estou condenado à obesidade. Não consigo um bom resultado escolar ou não me dou bem nos empregos porque nasci com um cérebro menos inteligente, menos esperto. Se, por acaso, conquisto coisas que sempre sonhei em minha vida, um diabetes, uma dor constante nas costas, um joelho deslocado, o intestino não funcionando bem ou uma insônia sem trégua me impede de curtir. Se tenho sucesso nos negócios, se minha família é harmoniosa e carinhosa, o medo de um infarto, de um câncer ou de uma doença degenerativa não me deixa usufruir a vida em paz. Se finalmente vou transar com a garota que há tempos desejo, o receio de pegar uma doença me faz brochar. E, como se ainda fosse pouco, posso acabar sendo alvo de uma depressão causada pelo meu sistema nervoso que não produz serotonina como deveria.
Nosso corpo não nos dá sossego, está sempre cortando o nosso barato! Queremos saborear tranquilamente nosso churrasco, nosso chocolate, nossa pizza, mas ele está lá nos ameaçando: vamos engordar, vamos ficar feios, vamos adoecer, vamos sofrer. Gostaríamos de viver grandes experiências na vida (sexuais, esportivas ou outras aventuras), mas nossas condições físicas limitadas nos impedem. Por fim, com os anos, estamos condenados a uma decadência corporal que nos trará, de forma progressiva, privações e sofrimentos até que nosso organismo, totalmente contra a nossa vontade, vai parar de funcionar.
Dores, doenças, envelhecimento e morte: nosso corpo é insensivelmente cruel com nossos sonhos, com nossa busca pela felicidade.
Mas, para a nossa esperança, a ciência e a medicina estão trabalhando para que mudemos esse estado de coisas, para que nosso corpo encontre condições de se aprimorar, de se aperfeiçoar até que, um dia, possamos superar todas as nossas limitações físicas e finalmente sermos completamente felizes.
Adoecer e mesmo morrer não são mais condições que devemos aceitar como inevitáveis. Novas abordagens biológicas consideram que até mesmo o envelhecimento deve ser encarado como uma doença a ser tratada e no futuro eliminada. Como consequência dessa visão, podemos afirmar que, no mundo atual, o conceito do que é normal e do que é patológico mudou. Não se pode mais dizer que o normal é o mais comum, o que se espera para a maioria. Sabemos que todos os humanos adoecem, envelhecem e morrem, mas parece que consideramos que o normal seria nos livrarmos destas condições. O normal seria um estado novo, uma condição corporal que não só não é comum, como não existe. A doença não é uma exceção à regra, mas a própria regra. O normal é o que fugiria à norma, ao que é comum. O normal é que seria a exceção.
Nesse caminho, o corpo humano, para a medicina de hoje, é doente por natureza. Podemos até mesmo dizer que a natureza é patológica. Temos de nos livrar de nossa condição natural, temos de ir em busca de um mundo construído pela razão humana, um mundo ideal, de acordo com nossa vontade de sermos totalmente felizes. Enfim, um mundo sem dor, doença, envelhecimento ou morte. Um mundo sem o nosso corpo imperfeito. Em vez do corpo real, um novo corpo virtual, tão poderoso, forte e imortal como os das telas dos filmes ou dos games.
Tudo seria muito bom e bonito se não soubéssemos que, para se manter um ideal, devemos nunca alcançá-lo, temos de ficar só na promessa, temos de fracassar sempre. E o nosso fracasso em ter um corpo ideal é justamente continuarmos com dores e doentes. Dizemos que queremos a cura, mas damos um jeito dos tratamentos sempre falharem. Sofrendo, mantemos a esperança e, mantendo a esperança, sustentamos um norte para nossas vidas, um sentido final para nossas existências. Ficamos no lugar de vítimas de um corpo limitado que nos foi imposto, mas mantemos a expectativa de que um dia essa falta será reparada e poderemos finalmente retornar ao paraíso.
Não é de se estranhar que, apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos, as pessoas têm de passar, cada vez mais, por procedimentos médicos. Hoje em dia, ocupamos boa parte do nosso tempo cuidando da saúde. A vida moderna se caracteriza por idas constantes aos médicos, exames e check-ups regulares, medidas preventivas de saúde. Consultórios, clínicas, hospitais e laboratórios tornaram-se quase a nossa segunda casa (todos com caras muitos amigáveis, alguns lembram bons hotéis). Devemos, em nossa vida diária, seguir uma série de limitações alimentares e comportamentais para não ficarmos doentes. Desde crianças temos de nos prevenir- já nascemos tomando comprimidos, vacinas, complementos alimentares. Crescemos e o número de pílulas se multiplica. É normal encontrar pessoas com 40 anos tomando cinco ou mais medicamentos, boa parte preventivos.
A cada novo dia, uma nova ameaça é descoberta (uma nova bactéria, um novo vírus, um novo agente cancerígeno) e a lista de restrições e cuidados só aumenta. Mesmo com todo o progresso científico, mesmo com todas as novíssimas máquinas de diagnóstico e tratamento, mesmo com todas as técnicas modernas de vigilância sanitária, mesmo com todas as ações governamentais para garantir a nossa boa saúde, nosso corpo parece sofrer perigos cada vez maiores. Quanto mais descobertas, mais novos problemas. Quanto mais expandimos nosso olhar sobre o mundo, maior o número de defeitos que encontramos.
E devemos não só seguir medidas que previnam doenças, mas também toda uma gama de procedimentos para não envelhecermos, para mantermos nosso corpo bonito. As especialidades de cuidados estéticos têm ganhado um enorme espaço dentro da medicina. Dermatologia estética e cirurgia plástica são as melhores escolhas para o jovem profissional interessado em ter uma grande clientela. Devemos lembrar: ser feio é patológico!
Nossa vida é, cada dia mais, organizada e pautada pela medicina. Ela é a base de uma nova moral, ela nos diz o que é certo ou errado fazer e quais punições receberemos caso não sigamos suas orientações. Os governos orientam suas políticas tendo em vista leis que garantam cidadãos mais saudáveis. Vivemos para ter saúde, para evitar que nosso corpo atrapalhe nossa busca pela felicidade.
Especula-se que, em pouco tempo, os gastos com saúde estarão entre os maiores de uma família. O setor de saúde será um dos grandes motores da economia nos próximos anos. E, para manter esse mercado aquecido, precisamos de muitos, muitos e muitos doentes. Definitivamente, não é a saúde que faz essa maquina girar.
Este é o paradoxo ou a contradição do ideal do corpo perfeito: para acreditamos em algo que é impossível, para não sabermos que se trata de uma ilusão, devemos seguir com nossas dores, com nossos sofrimentos, com nossas queixas e clamores de um mundo de perfeição. Temos de seguir doentes.
Mas, quem sabe, as coisas pudessem ser diferentes se, pelo menos, nos questionássemos sobre essa promessa a que, com tanto afinco, nos entregamos. Que corpo ideal é esse que dizemos buscar? Um corpo que nos permita realizar todos os nossos desejos e sonhos? E se pudéssemos realizar todos os nossos desejos e sonhos? A resposta: tédio, muito tédio. Só Deus tem o segredo de tudo poder fazer e não se entediar. Nós, mortais que somos, fazemos tudo para afastar a completude. Sabemos que o tédio é nosso alerta contra a falta de sentido na vida.
Estaríamos, então, condenados ao engano do ideal? Devemos seguir dizendo que queremos uma coisa e, na prática, fazermos tudo para que essa coisa não venha?
Talvez, exista uma outra forma de escaparmos do tédio, de nos mantermos animados . Podemos começar percebendo que nosso corpo não é perfeito nem imperfeito. Só podemos falar que nosso corpo é defeituoso ao compará-lo com um corpo que é impossível de existir (para termos um organismo invencível, teríamos de controlar todo o universo nos seus mínimos detalhes. Por exemplo, se a genética é a causa das doenças, devemos controlar o que causa as alterações genéticas e depois o que causa modificações nessa causa das alterações genéticas e, assim, sucessivamente, de causa em causa, em um movimento sem fim ou, para os que acreditam, até chegarmos à causa primeira: Deus. Por esse caminho, nosso ideal de cura é sermos Deus).
Sem um ideal de corpo para alcançar, deixamos de vê-lo como errado, defeituoso, patológico. E, se nunca conseguimos conhecer nosso corpo, podemos encará-lo como um mistério sem fim. Um mistério sempre presente e que nunca nos entedia. Um mistério que não convida à revelação, mas à invenção.
Em ciência, dizemos que estamos descobrindo coisas, que estamos progredindo em nosso conhecimento, porque acreditamos que isso teria um fim, um momento de tudo saber. De forma diferente, a psicanálise, ao não poder se orientar pelo ideal, aposta que fazemos ficções. As ficções nos servem em um determinado momento, elas nos permitem uma realidade, um mundo, mas elas nunca são o mundo.
Esclerose múltipla, ressonância magnética, fibromialgia, lipoaspiração, HPV, reposição de cálcio, psoríase, clonazepam, colesterol alto, linfoma, hérnia de disco, PSA e aneurisma de aorta são boas descobertas de nosso mundo. A psicanálise, por outra via, nos convida a invenção de uma nova realidade, de um corpo que não seja visto como um inimigo, mas como a nossa própria condição de existência.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
MEDO
Um receio nos acompanha toda vez que temos a possibilidade de fazer algo diferente, algo novo em relação às normas e verdades estabelecidas em uma determinado meio social. Uma ameaça que sentimos de forma mais ou menos intensa e que se traduz em pensamentos variados: “estou abusando; estou sendo teimoso e radical; estou sendo arrogante; estou indo contra o mundo; estou sendo irresponsável ou inconsequente; estou ficando louco; não vai dar certo; serei punido; vou sofrer muito; vou perder as coisas que tenho; as pessoas vão se afastar de mim; vou ficar isolado; vou perder a oportunidade de ser feliz”.
Se saio de casa sem levar o agasalho, conforme tantas vezes advertido pela mãe, pronto, no outro dia acordo com um baita resfriado. Se deixar de fazer o seguro do carro, um bom senso recomendado por todos, posso contar com uma batidinha logo nas primeiras voltas. Se não comprar minha casa própria nem fizer uma previdência privada, como os precavidos colegas de trabalho fizeram, posso esperar um futuro na sarjeta. Se não acabar com o sal na minha salada e com as gorduras no meu bife, como sempre alerta meu médico, vou ter um infarto. Se não colocar um sistema de vigilância em minha casa, como toda empresa de segurança ensina, minha família em breve será vítima de uma violência. Se eu não tiver um corpo sarado e um carrão, como dizem os amigos, nunca vou conseguir conquistar uma garota, vou acabar solitário e infeliz.
Parece que toda verdade que circula em um meio social só funciona se vier acompanhada da ameaça de que vamos ter algum tipo de sofrimento ou perda caso não acreditemos nela. Como se todas as crenças fossem leis que estabelecessem uma proibição e uma punição para aqueles que as desrespeitarem. Como se o fator que as sustenta não fosse outro que não o medo: uma coisa só é verdadeira se tivermos receio de afirmar algo que seja diferente.
E, talvez, um grande medo seja não termos medo. Acreditamos que sem medo perderíamos a noção do perigo, nos exporíamos a situações de risco, perderíamos o controle sobre nós mesmos e sobre os outros, viveríamos em um caos pessoal e social. Uma vida bem regrada precisaria reconhecer e temer os seus limites. Uma sociedade, para bem funcionar, deveria fazer cada indivíduo ser temeroso de não cumprir as suas regulamentações e leis.
A autoridade de uma pessoa ou de uma instituição - mãe, pai, professor, médico, chefe, governo, igreja etc - só se mantém se a verdade que anunciam for seguida de uma ameaça que se cumpre na realidade. Caso alguém rompa a norma ditada e não receba a punição estabelecida, a crença em questão perde a sua consistência: se sair de casa sem agasalho e não me gripar, minha mãe fica sem a sua autoridade.
O medo, entretanto, é uma expectativa de que aquilo que estamos fazendo é errado e que podemos esperar pelo castigo. Quando temos medo, carregamos em nós a crença que dizemos combater. Quebramos a regra para dar errado, para recebermos o sofrimento prometido e assim reforçarmos a verdade que trazemos dentro de nós: “está vendo, eles tinham razão, quem mandou fazer isso, agora aguente as consequências”.
A dor que sentimos seria uma prova real da veracidade de determinada crença. Sentindo dor, sofrendo, mantemos firmes nossas verdades, sustentamos a realidade do mundo que nos rodeia. Quantas pessoas que, diante de algo que desestabiliza seu mundo, como uma perda, uma frustração ou um fracasso, não infligem a si mesmas sofrimentos dos mais variados? Por exemplo, é comum ouvir relatos de jovens que, cheios de angústia, recuperam a tranquilidade se cortando, vendo seu sangue escorrer, sentindo a dor na própria carne.
Quando perdermos aquilo que norteia as nossas vidas, quando nossos arranjos de realidade perdem a sua consistência, nada como o medo e a dor para podermos recuperar um sentido qualquer. Temer e sofrer organizam uma realidade, sustentam uma promessa de sentido para as nossas existências. Sem medo, temos o receio de ficarmos sem um norte. Melhor sofrer que não ter um sentido. E esse, talvez, seja o maior dos medos: perder o sentido da vida.
Muitos podem dizer que o maior medo é o da morte. Mas a morte só é temida por poder simbolizar, justamente, uma falta de sentido para a vida. Outras pessoas podem declarar que o seu grande medo não é perder o sentido nem morrer, mas sofrer uma dor física insuportável. Uma expectativa ilusória, uma vez que qualquer sofrimento físico tem um limite que é o quanto o corpo suporta. Nenhuma dor é ilimitada. É possível que esse engano só sirva mesmo para manter o medo e uma crença de verdade.
Mas seria possível uma outra forma de organizarmos nossa realidade, de encontrarmos ânimo em nossas existências?
O sentido que vem da esperança é a crença de que um dia seremos livres de toda dor, sofrimento e angústia, que encontraremos paz e equilíbrio em nossas vidas, enfim, a promessa de que um dia seremos completos e acabados. Mas, para mantermos essa expectativa, temos de permanecer sempre sofrendo, angustiados e imperfeitos. Um ideal só pode ser mantido se jamais for alcançado. Como se disséssemos uma coisa e fizéssemos outra. Dizemos que queremos nos completar, mas fazemos tudo para que isso não aconteça. Morremos de medo de ser completados, de perder o nosso lugar de queixosos da felicidade que nunca vem, de não nos vermos como seres sempre em falta de alguma coisa.
Para os devotos de religiões tradicionais, a satisfação plena virá em uma existência após a morte. Mas, cada vez mais, buscamos ser felizes ainda nessa vida. No modelo da promessa, quando jovens, acreditamos que a felicidade virá no futuro; quando mais velhos, pensamos que ela passou e não soubemos aproveitá-la.
Na esperança de felicidade plena, esperamos por algo ou alguém (ou Deus) que nos complete, que nos faça acabados. Dependemos de um outro para sermos felizes, buscamos ser reconhecidos e amados. Esse outro sabe de nós, ele tem o conhecimento daquilo que nos completaria, ele possui a verdade, ele tem a autoridade última, ele nos garante o sentido final para as nossas vidas.
Ao longo da história, entretanto, temos passado por um processo de perda da esperança em um sentido final e último. Percebemos que Deus e a Natureza têm várias vozes, várias interpretações, e elas sempre são feitas por humanos e todo humano é mortal, falível, incompleto. Nenhum homem ou mulher sabe tudo, ninguém pode nos dar uma garantia final, ninguém controla ou é dono da verdade. Perdemos o medo de saber disto. Podem nos queimar vivos que continuaremos a acreditar que ninguém é perfeito.
Por mais que certas pessoas, mesmo que investidas da maior autoridade, mesmo que possuidoras dos piores meios de nos fazer sofrer, tentem dizer que falam pela verdade, por Deus ou pelo Universo, sabemos que a verdade, Deus e o Universo continuarão sendo um eterno mistério. E por que não fazermos deste mistério impossível de ser revelado o sentido de nossas vidas? Em vez de uma promessa de um sentido final, um sentido que nunca se deixa apreender, que está sempre demandando uma resposta nova, um recomeço. Um sentido que não está no fim, mas em um eterno começo.
Um novo sentido que não está em um tempo idealizado, em uma promessa que nunca vem, mas se encontra permanentemente no presente, um presente que sempre nos escapa.
Para mantermos uma ilusão de completude, precisamos nunca sermos completos, precisamos do defeito, do medo e do sofrimento. Talvez, de forma diferente, se nosso sentido vier de um mistério que não pode ser esclarecido, possamos nos permitir viver sem os temores de sermos errados e de recebermos a punição. Possamos saber que as nossas respostas são sempre invenções e não a realidade em si; que, à sua maneira, cada pessoa inventa um mundo e que essa invenção nunca termina.
Na organização pela esperança que nunca chega, na demanda de fracasso para mantermos o ideal, acreditamos que todos os amores que encontramos em nossas vidas são ilusões e que só as nossas dores são reais. Em um sentido que venha de reconhecermos que não se pode tudo saber, tanto os amores quanto os sofrimentos são ficcionais. Assim como não há amor final e total, também não há dor última e incomensurável.
Sem um sentido final, podemos perder o medo de perder, de ficarmos de fora, de não sermos premiados com a felicidade completa. Não há mais razão para invejarmos um outro que supomos mais bem favorecido que nós. Sem medo de perder e sofrer, podemos, quem sabe, até mesmo nos arriscar mais no amor.
E será que, se perdermos o medo, vamos enlouquecer, cada um vai fazer o que quiser, vamos nos matar, vamos nos destruir? O resultado, talvez, seja bem diferente. Como nunca, poderíamos dar valor a humanidade e a nossa existência. Pois, sem medo, poderíamos descobrir que Deus e o Universo estão no mais completo silêncio, que eles precisam de nós para falar, para afirmar as suas existências.
Se saio de casa sem levar o agasalho, conforme tantas vezes advertido pela mãe, pronto, no outro dia acordo com um baita resfriado. Se deixar de fazer o seguro do carro, um bom senso recomendado por todos, posso contar com uma batidinha logo nas primeiras voltas. Se não comprar minha casa própria nem fizer uma previdência privada, como os precavidos colegas de trabalho fizeram, posso esperar um futuro na sarjeta. Se não acabar com o sal na minha salada e com as gorduras no meu bife, como sempre alerta meu médico, vou ter um infarto. Se não colocar um sistema de vigilância em minha casa, como toda empresa de segurança ensina, minha família em breve será vítima de uma violência. Se eu não tiver um corpo sarado e um carrão, como dizem os amigos, nunca vou conseguir conquistar uma garota, vou acabar solitário e infeliz.
Parece que toda verdade que circula em um meio social só funciona se vier acompanhada da ameaça de que vamos ter algum tipo de sofrimento ou perda caso não acreditemos nela. Como se todas as crenças fossem leis que estabelecessem uma proibição e uma punição para aqueles que as desrespeitarem. Como se o fator que as sustenta não fosse outro que não o medo: uma coisa só é verdadeira se tivermos receio de afirmar algo que seja diferente.
E, talvez, um grande medo seja não termos medo. Acreditamos que sem medo perderíamos a noção do perigo, nos exporíamos a situações de risco, perderíamos o controle sobre nós mesmos e sobre os outros, viveríamos em um caos pessoal e social. Uma vida bem regrada precisaria reconhecer e temer os seus limites. Uma sociedade, para bem funcionar, deveria fazer cada indivíduo ser temeroso de não cumprir as suas regulamentações e leis.
A autoridade de uma pessoa ou de uma instituição - mãe, pai, professor, médico, chefe, governo, igreja etc - só se mantém se a verdade que anunciam for seguida de uma ameaça que se cumpre na realidade. Caso alguém rompa a norma ditada e não receba a punição estabelecida, a crença em questão perde a sua consistência: se sair de casa sem agasalho e não me gripar, minha mãe fica sem a sua autoridade.
O medo, entretanto, é uma expectativa de que aquilo que estamos fazendo é errado e que podemos esperar pelo castigo. Quando temos medo, carregamos em nós a crença que dizemos combater. Quebramos a regra para dar errado, para recebermos o sofrimento prometido e assim reforçarmos a verdade que trazemos dentro de nós: “está vendo, eles tinham razão, quem mandou fazer isso, agora aguente as consequências”.
A dor que sentimos seria uma prova real da veracidade de determinada crença. Sentindo dor, sofrendo, mantemos firmes nossas verdades, sustentamos a realidade do mundo que nos rodeia. Quantas pessoas que, diante de algo que desestabiliza seu mundo, como uma perda, uma frustração ou um fracasso, não infligem a si mesmas sofrimentos dos mais variados? Por exemplo, é comum ouvir relatos de jovens que, cheios de angústia, recuperam a tranquilidade se cortando, vendo seu sangue escorrer, sentindo a dor na própria carne.
Quando perdermos aquilo que norteia as nossas vidas, quando nossos arranjos de realidade perdem a sua consistência, nada como o medo e a dor para podermos recuperar um sentido qualquer. Temer e sofrer organizam uma realidade, sustentam uma promessa de sentido para as nossas existências. Sem medo, temos o receio de ficarmos sem um norte. Melhor sofrer que não ter um sentido. E esse, talvez, seja o maior dos medos: perder o sentido da vida.
Muitos podem dizer que o maior medo é o da morte. Mas a morte só é temida por poder simbolizar, justamente, uma falta de sentido para a vida. Outras pessoas podem declarar que o seu grande medo não é perder o sentido nem morrer, mas sofrer uma dor física insuportável. Uma expectativa ilusória, uma vez que qualquer sofrimento físico tem um limite que é o quanto o corpo suporta. Nenhuma dor é ilimitada. É possível que esse engano só sirva mesmo para manter o medo e uma crença de verdade.
Mas seria possível uma outra forma de organizarmos nossa realidade, de encontrarmos ânimo em nossas existências?
O sentido que vem da esperança é a crença de que um dia seremos livres de toda dor, sofrimento e angústia, que encontraremos paz e equilíbrio em nossas vidas, enfim, a promessa de que um dia seremos completos e acabados. Mas, para mantermos essa expectativa, temos de permanecer sempre sofrendo, angustiados e imperfeitos. Um ideal só pode ser mantido se jamais for alcançado. Como se disséssemos uma coisa e fizéssemos outra. Dizemos que queremos nos completar, mas fazemos tudo para que isso não aconteça. Morremos de medo de ser completados, de perder o nosso lugar de queixosos da felicidade que nunca vem, de não nos vermos como seres sempre em falta de alguma coisa.
Para os devotos de religiões tradicionais, a satisfação plena virá em uma existência após a morte. Mas, cada vez mais, buscamos ser felizes ainda nessa vida. No modelo da promessa, quando jovens, acreditamos que a felicidade virá no futuro; quando mais velhos, pensamos que ela passou e não soubemos aproveitá-la.
Na esperança de felicidade plena, esperamos por algo ou alguém (ou Deus) que nos complete, que nos faça acabados. Dependemos de um outro para sermos felizes, buscamos ser reconhecidos e amados. Esse outro sabe de nós, ele tem o conhecimento daquilo que nos completaria, ele possui a verdade, ele tem a autoridade última, ele nos garante o sentido final para as nossas vidas.
Ao longo da história, entretanto, temos passado por um processo de perda da esperança em um sentido final e último. Percebemos que Deus e a Natureza têm várias vozes, várias interpretações, e elas sempre são feitas por humanos e todo humano é mortal, falível, incompleto. Nenhum homem ou mulher sabe tudo, ninguém pode nos dar uma garantia final, ninguém controla ou é dono da verdade. Perdemos o medo de saber disto. Podem nos queimar vivos que continuaremos a acreditar que ninguém é perfeito.
Por mais que certas pessoas, mesmo que investidas da maior autoridade, mesmo que possuidoras dos piores meios de nos fazer sofrer, tentem dizer que falam pela verdade, por Deus ou pelo Universo, sabemos que a verdade, Deus e o Universo continuarão sendo um eterno mistério. E por que não fazermos deste mistério impossível de ser revelado o sentido de nossas vidas? Em vez de uma promessa de um sentido final, um sentido que nunca se deixa apreender, que está sempre demandando uma resposta nova, um recomeço. Um sentido que não está no fim, mas em um eterno começo.
Um novo sentido que não está em um tempo idealizado, em uma promessa que nunca vem, mas se encontra permanentemente no presente, um presente que sempre nos escapa.
Para mantermos uma ilusão de completude, precisamos nunca sermos completos, precisamos do defeito, do medo e do sofrimento. Talvez, de forma diferente, se nosso sentido vier de um mistério que não pode ser esclarecido, possamos nos permitir viver sem os temores de sermos errados e de recebermos a punição. Possamos saber que as nossas respostas são sempre invenções e não a realidade em si; que, à sua maneira, cada pessoa inventa um mundo e que essa invenção nunca termina.
Na organização pela esperança que nunca chega, na demanda de fracasso para mantermos o ideal, acreditamos que todos os amores que encontramos em nossas vidas são ilusões e que só as nossas dores são reais. Em um sentido que venha de reconhecermos que não se pode tudo saber, tanto os amores quanto os sofrimentos são ficcionais. Assim como não há amor final e total, também não há dor última e incomensurável.
Sem um sentido final, podemos perder o medo de perder, de ficarmos de fora, de não sermos premiados com a felicidade completa. Não há mais razão para invejarmos um outro que supomos mais bem favorecido que nós. Sem medo de perder e sofrer, podemos, quem sabe, até mesmo nos arriscar mais no amor.
E será que, se perdermos o medo, vamos enlouquecer, cada um vai fazer o que quiser, vamos nos matar, vamos nos destruir? O resultado, talvez, seja bem diferente. Como nunca, poderíamos dar valor a humanidade e a nossa existência. Pois, sem medo, poderíamos descobrir que Deus e o Universo estão no mais completo silêncio, que eles precisam de nós para falar, para afirmar as suas existências.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
COBRANDO PARA DAR ERRADO
Uma mãe, indignada, me perguntou como é que ela, sendo uma mulher tão direita e tão batalhadora, podia ter criado um filho tão irresponsável e tão molenga, como era o seu. Ela e o marido (que, apesar de uns goles a mais e uma certa truculência, também é uma pessoa respeitável) sempre deram um bom exemplo em casa, ofereceram ao filho a melhor educação que se pode dar. Não mimavam o garoto, sabiam colocar limites e estabelecer castigos, caso fosse necessário. Ela se indagava se as punições não foram brandas demais. Se tivesse sido mais rigorosa, se marido se mostrasse mais presente e severo, quem sabe o filho tivesse entrado nos eixos.
Desde cedo, viu que o filho tinha algo de errado. Mal engatinhava e já destruía o que colocava na mão. Depois, problemas na escola, suspensões e expulsões. Na adolescência, brigas e uso de drogas. Agora, já homem feito, preguiçoso e vagabundo, não para em emprego algum, ainda morando com os pais e com total dependência deles. Ela me disse que não tinha vergonha nem medo de bancar a chata, que fazia questão de não deixar o filho ficar acomodado, que estava sempre cobrando que ele mudasse, que tomasse um jeito na vida, que virasse homem. Mas, às vezes, se sentia cansada, pois, mesmo se esforçando, o meninão que tinha em casa nunca mudava. Ela queixava-se por Deus ter lhe dado tamanho sofrimento na vida.
Em um outro momento, tive a oportunidade de conversar como esse filho que tanta amargura causa em sua mãe zelosa. Ele me contou que, por mais que sentisse um pouco de raiva pelas cobranças, achava que a mãe estava correta nas queixas que fazia dele. Ele, também, se via como uma pessoa errada e fracassada na vida. Mas, por mais que tentasse, as coisas nunca davam certo para ele, como se estivesse condenado a ser alguém menos feliz que os outros. Fez tratamento com um psiquiatra, chegou a usar ritalina para ver se conseguia se concentrar mais nas coisas. Relata que se animou por um tempo, mas logo perdeu o pique e tudo voltou à estaca zero. Concluiu me dizendo que o seu problema devia ser genético, “um defeito de fábrica”.
Tanto na fala da mãe quanto na do filho, encontramos uma mesma crença em relação ao destino do rapaz: ele nunca iria mudar, não tinha jeito, ele era um errado incorrigível. Os esforços de ambos, no fundo, parecem ter apenas o objetivo de comprovar essa expectativa, como se dissessem: está vendo, não foi por falta de tentar, não dá certo mesmo. Entendemos melhor esse comportamento se pensarmos que a mulher e a sua cria atribuem a causa dos problemas a algo que não depende deles. Ela explicando a má índole do filho como castigo de Deus; ele se sentindo prejudicado por uma falha na sua biologia. Na realidade, os dois se percebem como vítimas.
Os erros do moço também fazem a mãe se sentir errada. Ela sempre se pergunta em que momento errou na educação do filho, por que foi punida com uma descendência tão vergonhosa. Ela e ele se culpam por não poderem ser corretos e felizes como deveriam. Uma culpa que é, paradoxalmente, irresponsável. Como dissemos, ambos não acreditam na possibilidade de mudar as coisas, já que a origem dos distúrbios está em um campo que foge das suas responsabilidades. Uma culpa trágica, uma vez que não pode ser retirada. Como se tivessem contraído uma dívida que não pode ser paga, como se tivessem sido condenados à infelicidade. Os dois acabam por se perceberem como pessoas menos afortunadas, menos queridas por Deus ou pelo destino.
Mas, ao mesmo tempo, mãe e filho tocam as suas existências na esperança de que, um dia, a sorte bata em suas portas. Porém, para que a esperança nunca cesse, é necessário que as coisas nunca mudem de fato, que o “não tem jeito” prevaleça. A felicidade precisa ser uma promessa jamais cumprida.
Temos, no caso acima, o exemplo de um fracasso que tem como resultado oferecer um sentido para a vida de duas pessoas.
É possível que essa seja a forma mais comum de sentido para as existências humanas. Um impulso ao fracasso, ao erro, ao déficit, à culpa, à carência daquilo que nos faria felizes. Um sistema de oferta de significação que necessita, para o seu bom funcionamento, que permaneça desconhecido, que não saibamos da sua presença imperativa.
Certas pessoas, diante das expectativas frustradas, podem, aos 30, 40 ou mais ou menos anos, passar por uma crise de questionamentos sobre as suas vidas. Algumas delas podem ficar desanimadas, deprimidas, se considerando mais azaradas que as outras. É possível que outras se tornem cínicas, concluindo que a vida não é grande coisa, que os seres humanos são invariavelmente maus e o mundo uma porcaria sem solução. Os dois grupos ainda se encontram no campo do sentido da promessa de felicidade plena. Os deprimidos por acreditarem que outros têm a felicidade que não lhes foi dada. Os cínicos por manterem a fé que poderia haver um mundo cheio de seres bons e realizados.
Algumas pessoas, entretanto, ao se depararem com os seus fracassos, podem questionar o próprio sentido de sucesso. A psicanálise tem, em seus fundamentos, um caro exemplo dessa atitude. Em um determinado momento de seu trabalho, Freud se deu conta de que muitos pacientes, por mais que fossem analisados e esclarecidos de seus conflitos psíquicos, continuavam mantendo comportamentos que inevitavelmente lhes traziam sofrimentos. Ele, ao mesmo tempo, percebia que a sua Europa, culta e civilizada, se despedaçava em irracionalidades que resultariam em duas destrutivas guerras. Diante do insucesso clínico e social, Freud não ficou desanimado nem determinou a maldade intrínseca humana. Ele seguiu adiante inventado um novo conceito que ia além da ideia comum de que o homem busca a satisfação e a felicidade: a pulsão de morte. Pela primeira vez, um médico pôde dizer que seus pacientes, além das aparências, apresentavam um impulso irresistível para o fracasso, para o sofrimento, para a destruição.
Com outros questionamentos vindos da filosofia e das artes e após as experiências bélicas e totalitárias do último século (um século que, embalado pela razão, prometia o progresso, a paz e a felicidade), chegamos ao início do século XXI com a nossa inocência seriamente danificada.
Mas uma inocência não pode ter máculas. Uma vez que um rasgo nela se faz, ela está perdida. E uma inocência perdida não pode ser mais recuperada, fica datada. Talvez seja o momento de tentarmos criar uma nova forma de animarmos as nossas vidas, uma maneira de sustentarmos um novo sentido para as nossas existências.
Uma nova orientação que passe por reconhecermos a máquina de sentido que opera em nós, por encararmos que nossos sentidos são apenas promessas (e não seres concretos e acabados), por percebermos o caráter ilusório das existências, do nosso mundo e de nós mesmos. Em vez de um sentido final, um sentido ficcional.
Quem sabe possamos apostar que o mundo tem a mesma consistência de verdade que o Papai Noel. Para a maioria, o bom-velhinho não existe, é apenas uma invenção. Mas algumas crianças de sorte acreditam sinceramente na sua realidade. Se questionadas, dão provas da veracidade de Noel: os presentes deixados na noite de Natal ou mesmo a própria visão do velhinho e sua barba branca. Os mais vividos acham graça dessa crença pois sabem que o Papai Noel avistado não passa de um adulto disfarçado para corresponder à expectativa das crianças de encontrá-lo.
Talvez, no universo, algo também se disfarce diante dos nossos olhos para atender às nossas crenças, às nossas expectativas, à nossa vontade de ver.
Podemos lembrar que uma época sempre acha que as verdades das épocas que a precederam eram infantis. Adoramos perguntar: como os homens do passado puderam acreditar em tamanhas bobagens? Seria bom termos em conta que, enquanto a humanidade existir, a história não tem fim, que as nossas iluminadas, racionais, matemáticas e científicas verdades de hoje também serão motivo de espanto e riso em tempos por vir.
Se dizemos que nossa realidade é ficcional, que ela é inventada, na mesma hora argumentamos que, se fosse assim, bastaria querermos uma coisa para aquilo se realizar, o que parece não ter muito cabimento. Entretanto, é provável que a nossa capacidade de invenção esteja condicionada por uma possibilidade. Só algumas coisas podem ser inventadas em cada época, é impossível criar tudo (e o que seria essa possibilidade?). E toda criação, para poder existir, deve ter seu momento de começar e terminar.
Pode ser que experiência humana esteja em um momento de crise em razão das esperanças frustradas. Como dissemos, um tempo de perda da inocência. Se assim consideramos, podemos pensar em uma falência de tentarmos manter uma orientação de nossas vidas pela crença em um sentido pleno e final. Nos é possível, hoje em dia, saber que isso exige um fracasso contínuo, a condição de nos colocarmos sempre aquém da felicidade prometida.
Se não temos a expectativa de um sentido último, se encaramos que não há um ideal a ser atingido, se nos orientamos por um sentido que demanda uma criação sem fim da realidade, talvez tenhamos a possibilidade atual de inventarmos seres que não sejam culpados, errados, defeituosos, sofredores...
Desde cedo, viu que o filho tinha algo de errado. Mal engatinhava e já destruía o que colocava na mão. Depois, problemas na escola, suspensões e expulsões. Na adolescência, brigas e uso de drogas. Agora, já homem feito, preguiçoso e vagabundo, não para em emprego algum, ainda morando com os pais e com total dependência deles. Ela me disse que não tinha vergonha nem medo de bancar a chata, que fazia questão de não deixar o filho ficar acomodado, que estava sempre cobrando que ele mudasse, que tomasse um jeito na vida, que virasse homem. Mas, às vezes, se sentia cansada, pois, mesmo se esforçando, o meninão que tinha em casa nunca mudava. Ela queixava-se por Deus ter lhe dado tamanho sofrimento na vida.
Em um outro momento, tive a oportunidade de conversar como esse filho que tanta amargura causa em sua mãe zelosa. Ele me contou que, por mais que sentisse um pouco de raiva pelas cobranças, achava que a mãe estava correta nas queixas que fazia dele. Ele, também, se via como uma pessoa errada e fracassada na vida. Mas, por mais que tentasse, as coisas nunca davam certo para ele, como se estivesse condenado a ser alguém menos feliz que os outros. Fez tratamento com um psiquiatra, chegou a usar ritalina para ver se conseguia se concentrar mais nas coisas. Relata que se animou por um tempo, mas logo perdeu o pique e tudo voltou à estaca zero. Concluiu me dizendo que o seu problema devia ser genético, “um defeito de fábrica”.
Tanto na fala da mãe quanto na do filho, encontramos uma mesma crença em relação ao destino do rapaz: ele nunca iria mudar, não tinha jeito, ele era um errado incorrigível. Os esforços de ambos, no fundo, parecem ter apenas o objetivo de comprovar essa expectativa, como se dissessem: está vendo, não foi por falta de tentar, não dá certo mesmo. Entendemos melhor esse comportamento se pensarmos que a mulher e a sua cria atribuem a causa dos problemas a algo que não depende deles. Ela explicando a má índole do filho como castigo de Deus; ele se sentindo prejudicado por uma falha na sua biologia. Na realidade, os dois se percebem como vítimas.
Os erros do moço também fazem a mãe se sentir errada. Ela sempre se pergunta em que momento errou na educação do filho, por que foi punida com uma descendência tão vergonhosa. Ela e ele se culpam por não poderem ser corretos e felizes como deveriam. Uma culpa que é, paradoxalmente, irresponsável. Como dissemos, ambos não acreditam na possibilidade de mudar as coisas, já que a origem dos distúrbios está em um campo que foge das suas responsabilidades. Uma culpa trágica, uma vez que não pode ser retirada. Como se tivessem contraído uma dívida que não pode ser paga, como se tivessem sido condenados à infelicidade. Os dois acabam por se perceberem como pessoas menos afortunadas, menos queridas por Deus ou pelo destino.
Mas, ao mesmo tempo, mãe e filho tocam as suas existências na esperança de que, um dia, a sorte bata em suas portas. Porém, para que a esperança nunca cesse, é necessário que as coisas nunca mudem de fato, que o “não tem jeito” prevaleça. A felicidade precisa ser uma promessa jamais cumprida.
Temos, no caso acima, o exemplo de um fracasso que tem como resultado oferecer um sentido para a vida de duas pessoas.
É possível que essa seja a forma mais comum de sentido para as existências humanas. Um impulso ao fracasso, ao erro, ao déficit, à culpa, à carência daquilo que nos faria felizes. Um sistema de oferta de significação que necessita, para o seu bom funcionamento, que permaneça desconhecido, que não saibamos da sua presença imperativa.
Certas pessoas, diante das expectativas frustradas, podem, aos 30, 40 ou mais ou menos anos, passar por uma crise de questionamentos sobre as suas vidas. Algumas delas podem ficar desanimadas, deprimidas, se considerando mais azaradas que as outras. É possível que outras se tornem cínicas, concluindo que a vida não é grande coisa, que os seres humanos são invariavelmente maus e o mundo uma porcaria sem solução. Os dois grupos ainda se encontram no campo do sentido da promessa de felicidade plena. Os deprimidos por acreditarem que outros têm a felicidade que não lhes foi dada. Os cínicos por manterem a fé que poderia haver um mundo cheio de seres bons e realizados.
Algumas pessoas, entretanto, ao se depararem com os seus fracassos, podem questionar o próprio sentido de sucesso. A psicanálise tem, em seus fundamentos, um caro exemplo dessa atitude. Em um determinado momento de seu trabalho, Freud se deu conta de que muitos pacientes, por mais que fossem analisados e esclarecidos de seus conflitos psíquicos, continuavam mantendo comportamentos que inevitavelmente lhes traziam sofrimentos. Ele, ao mesmo tempo, percebia que a sua Europa, culta e civilizada, se despedaçava em irracionalidades que resultariam em duas destrutivas guerras. Diante do insucesso clínico e social, Freud não ficou desanimado nem determinou a maldade intrínseca humana. Ele seguiu adiante inventado um novo conceito que ia além da ideia comum de que o homem busca a satisfação e a felicidade: a pulsão de morte. Pela primeira vez, um médico pôde dizer que seus pacientes, além das aparências, apresentavam um impulso irresistível para o fracasso, para o sofrimento, para a destruição.
Com outros questionamentos vindos da filosofia e das artes e após as experiências bélicas e totalitárias do último século (um século que, embalado pela razão, prometia o progresso, a paz e a felicidade), chegamos ao início do século XXI com a nossa inocência seriamente danificada.
Mas uma inocência não pode ter máculas. Uma vez que um rasgo nela se faz, ela está perdida. E uma inocência perdida não pode ser mais recuperada, fica datada. Talvez seja o momento de tentarmos criar uma nova forma de animarmos as nossas vidas, uma maneira de sustentarmos um novo sentido para as nossas existências.
Uma nova orientação que passe por reconhecermos a máquina de sentido que opera em nós, por encararmos que nossos sentidos são apenas promessas (e não seres concretos e acabados), por percebermos o caráter ilusório das existências, do nosso mundo e de nós mesmos. Em vez de um sentido final, um sentido ficcional.
Quem sabe possamos apostar que o mundo tem a mesma consistência de verdade que o Papai Noel. Para a maioria, o bom-velhinho não existe, é apenas uma invenção. Mas algumas crianças de sorte acreditam sinceramente na sua realidade. Se questionadas, dão provas da veracidade de Noel: os presentes deixados na noite de Natal ou mesmo a própria visão do velhinho e sua barba branca. Os mais vividos acham graça dessa crença pois sabem que o Papai Noel avistado não passa de um adulto disfarçado para corresponder à expectativa das crianças de encontrá-lo.
Talvez, no universo, algo também se disfarce diante dos nossos olhos para atender às nossas crenças, às nossas expectativas, à nossa vontade de ver.
Podemos lembrar que uma época sempre acha que as verdades das épocas que a precederam eram infantis. Adoramos perguntar: como os homens do passado puderam acreditar em tamanhas bobagens? Seria bom termos em conta que, enquanto a humanidade existir, a história não tem fim, que as nossas iluminadas, racionais, matemáticas e científicas verdades de hoje também serão motivo de espanto e riso em tempos por vir.
Se dizemos que nossa realidade é ficcional, que ela é inventada, na mesma hora argumentamos que, se fosse assim, bastaria querermos uma coisa para aquilo se realizar, o que parece não ter muito cabimento. Entretanto, é provável que a nossa capacidade de invenção esteja condicionada por uma possibilidade. Só algumas coisas podem ser inventadas em cada época, é impossível criar tudo (e o que seria essa possibilidade?). E toda criação, para poder existir, deve ter seu momento de começar e terminar.
Pode ser que experiência humana esteja em um momento de crise em razão das esperanças frustradas. Como dissemos, um tempo de perda da inocência. Se assim consideramos, podemos pensar em uma falência de tentarmos manter uma orientação de nossas vidas pela crença em um sentido pleno e final. Nos é possível, hoje em dia, saber que isso exige um fracasso contínuo, a condição de nos colocarmos sempre aquém da felicidade prometida.
Se não temos a expectativa de um sentido último, se encaramos que não há um ideal a ser atingido, se nos orientamos por um sentido que demanda uma criação sem fim da realidade, talvez tenhamos a possibilidade atual de inventarmos seres que não sejam culpados, errados, defeituosos, sofredores...
domingo, 13 de fevereiro de 2011
CARÊNCIA E CULPA: FANTASMAS E DEMÔNIOS
Na última semana, uma jovem me contou sua história de desânimo. Ela me falou que, depois de muito tempo triste e com dores pelo corpo, finalmente, tinha passado um final de semana agradável e alegre. Foi ao clube, passeou no shopping e, por fim, na noite de domingo, encontrou-se com um grupo de amigas que não via há meses. Na despedida, uma colega lhe disse que estava feliz por ela ter se recuperado, que agora ela era a velha amiga divertida de sempre, que ela tinha voltado a ser ela.
Na segunda, a moça acordou angustiada, chorosa, sem vontade de sair da cama e com dores fortes nas articulações. Sua depressão havia voltado. Tentando me explicar a razão da sua recaída súbita, ela me disse ter ficado muito incomodada com a frase que ouviu da amiga na noite de domingo. Ao contrário do que poderia parecer, considerou que a intenção da colega foi criticá-la e esnobá-la. Sentiu-se julgada pelo fato de ter ficado deprimida, como se isso fosse um erro. A amiga, com a sua fala, se considerava melhor que ela.
Quanto mais ela se recriminava por estar desanimada, mais desanimada ficava. Considerava que a depressão era um fantasma que jamais iria abandoná-la, estava condenada a ficar mal até o fim da sua vida. Nenhum tratamento daria conta de mudar o seu triste destino, estava cansada das várias tentativas frustradas. Havia tomado vários remédios psiquiátricos com pouca resposta e muitos efeitos colaterais e nenhuma terapia foi capaz de modificá-la.
Mesmo com raiva da amiga, acreditava que ela estava certa: era uma pessoa pior que as outras, seu desânimo era um comportamento errado e condenável. Apesar do apoio de familiares e do namorado, sentia-se solitária, como se fosse um peso para os outros. No fundo, se achava uma pessoa menos querida.
Tanto no início da sua depressão quanto nas suas várias recaídas, o mesmo conjunto de fatores se repetia: ela interpretava algo que lhe diziam como um sinal de que estava sendo repreendida por fazer alguma coisa errada. Em seguida, sentia-se menos amada e ficava desanimada e angustiada.
Em uma outra ocasião, um rapaz me contou sobre o seu problema com as bebidas. Ele fez uma descrição desesperançada de como o álcool estava, pouco a pouco, lhe tirando as forças e o ânimo. Há vários anos bebia, mas, nos últimos meses, a coisa estava mais intensa. Passava por um momento de crescimento profissional, tinha sido promovido com um importante aumento salarial. Mas, chegando o fim de semana, sentia-se sozinho, ficava com vontade de encontrar uma namorada. Ia para as baladas e, para se soltar, começava a beber. Considerava que, enquanto não estivesse um pouco embriagado, não seria uma pessoa interessante aos olhos dos outros. E, por mais doses que tivesse feito uso, achava que não tinha chegado lá, que podia ficar melhor. No final da noite, já pra lá de Bagdá, ficava com qualquer garota que se mostrasse disposta a beijá-lo.
No outro dia, ele acordava mal, pior ainda se percebesse que tinha uma companhia desconhecida na sua cama. Neste caso, dava um jeito de despachar logo a moça. Depois, sentia-se arrependido por ter bebido muito, por ter ficado com qualquer uma. Não se lembrava bem do que tinha feito à noite, mas com certeza havia aprontado coisas terríveis. Era assombrado pelo medo de ter pegado alguma doença ou de ter engravidado a companheira de aventura. Ficava o dia inteiro em casa, castigado pela ressaca, repetindo para si mesmo que deveria parar com isso, que deveria mudar de comportamento.
Na próxima sexta-feira, novamente, era tomado pela carência de achar uma companhia, se permitia ir para a balada jurando que, dessa vez, iria fazer diferente, iria beber menos e escolher uma garota de nível melhor. No outro dia, porém, acordava moído pelos abusos da noite anterior. Mas, quanto maior era a sua culpa, maior era o seu desespero de ter alguém. No mesmo dia, ele encontrava uma desculpa para voltar a beber e bebendo não resistia aos impulsos de mais uma noitada.
Na segunda, ia trabalhar cansado e desanimado, demorava meia semana para se recuperar. Nos dias que se seguiam à bebedeira, seu sono era bastante ruim, tinha muitos pesadelos e, em algumas noites, apresentava a experiência de acordar subitamente e sentir o corpo paralisado. Nestes momentos, era tomado por uma sensação de terror, chegava a sentir uma mão o estrangulando e, confuso, acreditava ser o demônio querendo destruí-lo.
Por mais que tentasse, conseguia, no máximo, ficar um ou dois finais de semana sem beber. Quando menos percebia, novamente, estava entregue à degradação, à repetição. Havia concluído que esse era o seu vício, não tinha jeito de mudar.
Nos dois casos descritos, encontramos um padrão que se repete: um momento de realização, de encontro com algo satisfatório, com algo que se desejava - a jovem que estava feliz por ter passado alguns dias alegres; o rapaz que ficou contente com o reconhecimento profissional. Um outro momento no qual a pessoa se depara com alguma coisa que fura o bom caminhar e a imagem de alguém realizado- ela interpretando alguma fala como um indício de que não está agradando o outro, de que não está agindo corretamente; ele se sentindo solitário, se percebendo como alguém que não é sedutor. Em uma etapa seguinte, encontramos um comportamento que reitera e confirma a percepção de ser alguém errado, carente de algo que deveria ter- a moça se sentindo desanimada e angustiada, o moço bebendo muito e ficando com pessoas que não o agradam. Segue-se, em ambos, um sentimento de fracasso e culpa que é reforçado por uma crença de que estão condenados ao sofrimento, que jamais conseguiram se livrar do seu lugar de seres errados e pecadores, carentes e infelizes. Os dois são assombrados por um medo permanente, pela sombra de um risco velado de destruição e aniquilamento.
A jovem deprimida, recordando com mais detalhes os seus sentimentos em relação à fala da amiga, me disse que, antes de se sentir rebaixada, teve uma ligeira sensação de angústia e medo. Como se sentisse um receio, como se não pudesse ficar bem da maneira que a frase da colega sugeria. Mais que um deboche, na verdade, sentiu uma ameaça.
Tanto a moça quanto o rapaz baladeiro parecem trazer, de forma camuflada, uma mesma crença: eu não posso ficar bem, eu não posso ser diferente, se eu for assim, posso alterar a ordem das coisas, vou ser arrogante e prepotente, vou querer ficar no lugar de Deus. Se eu agir assim, Ele vai me destruir ou minha arrogância vai destruir o mundo à minha volta. Essa fórmula culposa pode ser, assim, resumida: se eu for feliz serei castigado. Para não ser pego, preciso estar sempre pagando a minha cota de sofrimento e infelicidade. Estou condenado a ser alguém carente, menos realizado, menos amado.
É interessante observar que esse sistema velado de crenças é encontrado até em pessoas que não são religiosas e mesmo naquelas que se dizem ateias. As mesmas pessoas que, em um momento de grande angústia ou desespero, apelam para uma fé divina que pareciam desconhecer.
Talvez pudéssemos pensar que esse conjunto de convicções profundas faça parte de um processo geral de esperança em um sentido final. Esse sentido viria do encontro com um outro que nos completaria. A crença em um ser real, exterior, que nos definiria, que nos faria seres concretos e acabados. A nossa imagem seria definida por esse outro que sabe tudo de mim: sou construído, sou feito por um outro. Nesse sistema, Deus é entendido como um ser completo e a nossa felicidade seria, um dia, sermos como Ele. As pessoas portadoras dessa crença estão sempre esperando que Deus, o mundo ou as outras pessoas dêem a elas aquilo que lhes falta, aquilo que faria delas seres realizados e felizes.
A questão é que esse outro nunca nos dá aquilo que buscamos. Quando achamos que chegamos lá, algo vem e nos tira o tapete. Devemos ficar só na expectativa, na eterna promessa, na eterna carência. Aqueles que quiserem ser completos antes da hora serão punidos. Só Ele pode ser perfeito, não podemos querer tomar O seu lugar. Se nos percebemos melhor que deveríamos, tratamos logo de convocar todos os nossos fantasmas e demônios para nos atazanar, para nos infernizar.
Uma matemática que diz que, para mantermos a esperança, devemos estar sempre insatisfeitos e infelizes. Então, para sairmos dessa encruzilhada, talvez, pudéssemos abandonar a disputa por uma perfeição divina.
Se encaramos que a nossa ideia de um ser completo e que tudo sabe é uma ilusão mantida à custa de sofrimento e insatisfação, podemos trilhar um outro caminho que possibilite um sentido diverso para as nossas vidas que não seja o encontro com a perfeição. Em vez de ficarmos fixados no lugar de seres carentes, faltantes, podemos ser indivíduos que usam o que têm, que são inventores.
A pessoa que se percebe faltante acredita que algo que não possui poderia lhe satisfazer. Quando jovem, espera que o futuro lhe traga aquilo que busca. Depois, quando mais velha, passa a um saudosismo da felicidade que teria tido e não soube aproveitar. Nunca é feliz no presente, só em um cenário idealizado em um tempo distante. Está sempre aquém do que deveria ser.
A pessoa carente queixa-se, o tempo todo, de que a vida não lhe deu aquilo que deveria ter dado. Não abre mão de uma desculpa e um culpado para a sua infelicidade. É sempre uma vítima. Teria sido feliz se não fosse o fato de ter nascido pobre, feia ou burra, de ter tido pais pouco amorosos, de ter tido uma doença limitante, de ter sido roubada, de ter sido enganada, de ter um vício, de ter vivido em um país com governo corrupto, de não ter tido oportunidades, carinho ou compreensão das outras pessoas.
De modo diverso, alguém que tem a oportunidade de se ver como inventor sabe que todos os cenários são ilusões. Tem consciência de que toda ideia de uma felicidade suprema e acabada é fantasiosa, mas que também todo sofrimento, todo padecimento, também o é. Sai do eixo ter mais/ter menos para uma realização a partir do uso daquilo que a vida lhe traz. Usas a ferramentas que tem para ser feliz. A felicidade não está no fim, mas na ação continua de inventar. O sentido não está no outro e sim no fazer o outro, na criação sem fim da realidade, no deslocamento contínuo.
O faltante acredita que o mundo o faz. O inventor, ao contrário, aposta que ele é que faz o mundo. Mas, seria isso um ato de arrogância, uma maneira de tomarmos para nós o lugar de Deus?
O inventor não é um Deus que faz tudo o que quer. Querer faz parte das fantasias dos faltantes. Eles é que acreditam que podem ter tudo, em serem completos como Deus. Mas, se isso fosse possível, o máximo que encontrariam seria um tédio mortal. Querer algo, estalar os dedos e ter aquilo na sua frente: em pouco tempo perderíamos o sentido em tudo. Um sentido, para se manter, nunca pode ser alcançado, tem de estar sempre distante, como uma ilusão. A diferença do inventor para o faltante é que o primeiro dá conta de saber, de encarar e fazer uso disto, de assumir o seu lugar de ficcionista, de criador de ilusões.
Inventar não é fazer um objeto que nos satisfaça, que atenda às nossas vontades de sermos melhores e mais completos (normalmente, quando acreditamos em objetos de satisfação, não falamos que isso seja inventar, mas descobrir, como nas ciências, que apostam na possibilidade de se encontrar algo exterior que nos curaria, que nos salvaria. Um crença de quem se vê faltante).
Inventar é se satisfazer criando. Mas qual seria a utilidade daquilo que inventamos? É possível que seja apenas permitir que a criação continue, que ela não tenha um fim, que o deslocamento permaneca e que, assim, possamos nos manter animados e vivos. Uma invenção é aquilo que possibilita que outras invenções possam vir. Se algo interrompe o fluxo criativo, uma necessidade de renovação se apresenta urgente. Como no caso de uma velha represa que, em um determinado momento, tem os seus muros ruídos diante da força de águas que precisam seguir o seu rumo. Essa necessidade visceral de fluidez, de deslocamento de sentido, podemos chamar de poder de verdade, por ela nos mostrar que nossas construções, nossas muralhas, são sempre de areia. Aquilo que vem com força de verdade tem, também, um poder de convencimento, de criar uma nova realidade.
Durante séculos, a nossa forma de manter a fluidez de sentido foi sob o modelo da esperança, da eterna promessa de que um dia encontraríamos aquilo que nos completaria. Um modelo de como alcançar um ideal de perfeição. Um esquema normativo, vertical, hierárquico e piramidal (a maioria em baixo, pouquíssimos em cima) que estabelece posições mais ou menos próximas da perfeição pretendida. Quanto mais alto o posicionamento da pessoa, mais próxima de Deus ela estaria. Algumas tão próximas que tomam para si a função de falar por Ele, de se dizerem intérpretes autorizadas Dele, uma vez que o próprio Deus nunca se mostra diretamente. Essas pessoas se colocam ou são colocadas no papel de mestre, de líder, de autoridade.
O modelo de sentindo que se apóia na promessa de completude só se sustenta a partir da presença de uma autoridade. Aquela que diz e garante o que é certo ou errado, bom ou ruim. Um sistema moral que cria uma meta idealizada que deveríamos atingir. Como já dissemos, a impossibilidade de perfeição é que mantém o deslocamento de sentido, mas desde que não saibamos disto. Para a coisa funcionar, devemos permanecer enganados, iludidos, alienados, imaginando que um dia chegaremos lá. A consequência disso é continuarmos no lugar de carentes, de errados, de sofredores.
Acontece que, aos poucos, foi ruindo a nossa crença nas autoridades. Com o tempo, percebemos que os nossos líderes eram charlatões, falsos profetas. Todos os reis foram perdendo a majestade. Depois do último século, das experiências de destruição do nazismo e comunismo, de Hitler e Stálin, ficou complicado manter qualquer fé em um projeto salvador, em um líder iluminado. Mas o tiro de misericórdia talvez tenha vindo com a internet. Com a chamada democratização do saber trazida pela rede, estamos nos despedindo das pequenas autoridades que ainda sobrevivem, como acadêmicos, críticos, médicos, economistas, políticos etc.
Hoje, está difícil continuarmos aceitando o engano.
Estamos passando de um mundo vertical para um horizontal. Uma vez que sabemos que a perfeição é impossível, não podemos falar em alguém mais ou menos perfeito. Somos todos, irremediavelmente, incompletos. Não existem, em essência, seres melhores ou piores, mais ou menos próximos de Deus, mas seres diferentes, seres inventores de uma realidade própria e possuidores de um valor singular que não pode ser comparado ou medido.
Como a promessa de completude não permite mais o fluxo de sentido, podemos inventar uma nova maneira dessa corrente seguir. Atualmente, os muros da antiga represa ainda não caíram completamente. Vivemos em uma época na qual coexistem o velho modelo faltante e novos seres inventores. Estamos convidados a criar um leito por onde a água possa escorrer. Esse vale, provavelmente, passa pela criação de uma forma de viver que não encontre mais utilidade em carências, culpas e sofrimentos, que dispense assombrações e demônios. Um nova felicidade sem esperança, mas também sem medo.
Talvez não seja isso um ato de arrogância, mas, simplesmente, a possibilidade de atendermos a algo que se apresenta.
Na segunda, a moça acordou angustiada, chorosa, sem vontade de sair da cama e com dores fortes nas articulações. Sua depressão havia voltado. Tentando me explicar a razão da sua recaída súbita, ela me disse ter ficado muito incomodada com a frase que ouviu da amiga na noite de domingo. Ao contrário do que poderia parecer, considerou que a intenção da colega foi criticá-la e esnobá-la. Sentiu-se julgada pelo fato de ter ficado deprimida, como se isso fosse um erro. A amiga, com a sua fala, se considerava melhor que ela.
Quanto mais ela se recriminava por estar desanimada, mais desanimada ficava. Considerava que a depressão era um fantasma que jamais iria abandoná-la, estava condenada a ficar mal até o fim da sua vida. Nenhum tratamento daria conta de mudar o seu triste destino, estava cansada das várias tentativas frustradas. Havia tomado vários remédios psiquiátricos com pouca resposta e muitos efeitos colaterais e nenhuma terapia foi capaz de modificá-la.
Mesmo com raiva da amiga, acreditava que ela estava certa: era uma pessoa pior que as outras, seu desânimo era um comportamento errado e condenável. Apesar do apoio de familiares e do namorado, sentia-se solitária, como se fosse um peso para os outros. No fundo, se achava uma pessoa menos querida.
Tanto no início da sua depressão quanto nas suas várias recaídas, o mesmo conjunto de fatores se repetia: ela interpretava algo que lhe diziam como um sinal de que estava sendo repreendida por fazer alguma coisa errada. Em seguida, sentia-se menos amada e ficava desanimada e angustiada.
Em uma outra ocasião, um rapaz me contou sobre o seu problema com as bebidas. Ele fez uma descrição desesperançada de como o álcool estava, pouco a pouco, lhe tirando as forças e o ânimo. Há vários anos bebia, mas, nos últimos meses, a coisa estava mais intensa. Passava por um momento de crescimento profissional, tinha sido promovido com um importante aumento salarial. Mas, chegando o fim de semana, sentia-se sozinho, ficava com vontade de encontrar uma namorada. Ia para as baladas e, para se soltar, começava a beber. Considerava que, enquanto não estivesse um pouco embriagado, não seria uma pessoa interessante aos olhos dos outros. E, por mais doses que tivesse feito uso, achava que não tinha chegado lá, que podia ficar melhor. No final da noite, já pra lá de Bagdá, ficava com qualquer garota que se mostrasse disposta a beijá-lo.
No outro dia, ele acordava mal, pior ainda se percebesse que tinha uma companhia desconhecida na sua cama. Neste caso, dava um jeito de despachar logo a moça. Depois, sentia-se arrependido por ter bebido muito, por ter ficado com qualquer uma. Não se lembrava bem do que tinha feito à noite, mas com certeza havia aprontado coisas terríveis. Era assombrado pelo medo de ter pegado alguma doença ou de ter engravidado a companheira de aventura. Ficava o dia inteiro em casa, castigado pela ressaca, repetindo para si mesmo que deveria parar com isso, que deveria mudar de comportamento.
Na próxima sexta-feira, novamente, era tomado pela carência de achar uma companhia, se permitia ir para a balada jurando que, dessa vez, iria fazer diferente, iria beber menos e escolher uma garota de nível melhor. No outro dia, porém, acordava moído pelos abusos da noite anterior. Mas, quanto maior era a sua culpa, maior era o seu desespero de ter alguém. No mesmo dia, ele encontrava uma desculpa para voltar a beber e bebendo não resistia aos impulsos de mais uma noitada.
Na segunda, ia trabalhar cansado e desanimado, demorava meia semana para se recuperar. Nos dias que se seguiam à bebedeira, seu sono era bastante ruim, tinha muitos pesadelos e, em algumas noites, apresentava a experiência de acordar subitamente e sentir o corpo paralisado. Nestes momentos, era tomado por uma sensação de terror, chegava a sentir uma mão o estrangulando e, confuso, acreditava ser o demônio querendo destruí-lo.
Por mais que tentasse, conseguia, no máximo, ficar um ou dois finais de semana sem beber. Quando menos percebia, novamente, estava entregue à degradação, à repetição. Havia concluído que esse era o seu vício, não tinha jeito de mudar.
Nos dois casos descritos, encontramos um padrão que se repete: um momento de realização, de encontro com algo satisfatório, com algo que se desejava - a jovem que estava feliz por ter passado alguns dias alegres; o rapaz que ficou contente com o reconhecimento profissional. Um outro momento no qual a pessoa se depara com alguma coisa que fura o bom caminhar e a imagem de alguém realizado- ela interpretando alguma fala como um indício de que não está agradando o outro, de que não está agindo corretamente; ele se sentindo solitário, se percebendo como alguém que não é sedutor. Em uma etapa seguinte, encontramos um comportamento que reitera e confirma a percepção de ser alguém errado, carente de algo que deveria ter- a moça se sentindo desanimada e angustiada, o moço bebendo muito e ficando com pessoas que não o agradam. Segue-se, em ambos, um sentimento de fracasso e culpa que é reforçado por uma crença de que estão condenados ao sofrimento, que jamais conseguiram se livrar do seu lugar de seres errados e pecadores, carentes e infelizes. Os dois são assombrados por um medo permanente, pela sombra de um risco velado de destruição e aniquilamento.
A jovem deprimida, recordando com mais detalhes os seus sentimentos em relação à fala da amiga, me disse que, antes de se sentir rebaixada, teve uma ligeira sensação de angústia e medo. Como se sentisse um receio, como se não pudesse ficar bem da maneira que a frase da colega sugeria. Mais que um deboche, na verdade, sentiu uma ameaça.
Tanto a moça quanto o rapaz baladeiro parecem trazer, de forma camuflada, uma mesma crença: eu não posso ficar bem, eu não posso ser diferente, se eu for assim, posso alterar a ordem das coisas, vou ser arrogante e prepotente, vou querer ficar no lugar de Deus. Se eu agir assim, Ele vai me destruir ou minha arrogância vai destruir o mundo à minha volta. Essa fórmula culposa pode ser, assim, resumida: se eu for feliz serei castigado. Para não ser pego, preciso estar sempre pagando a minha cota de sofrimento e infelicidade. Estou condenado a ser alguém carente, menos realizado, menos amado.
É interessante observar que esse sistema velado de crenças é encontrado até em pessoas que não são religiosas e mesmo naquelas que se dizem ateias. As mesmas pessoas que, em um momento de grande angústia ou desespero, apelam para uma fé divina que pareciam desconhecer.
Talvez pudéssemos pensar que esse conjunto de convicções profundas faça parte de um processo geral de esperança em um sentido final. Esse sentido viria do encontro com um outro que nos completaria. A crença em um ser real, exterior, que nos definiria, que nos faria seres concretos e acabados. A nossa imagem seria definida por esse outro que sabe tudo de mim: sou construído, sou feito por um outro. Nesse sistema, Deus é entendido como um ser completo e a nossa felicidade seria, um dia, sermos como Ele. As pessoas portadoras dessa crença estão sempre esperando que Deus, o mundo ou as outras pessoas dêem a elas aquilo que lhes falta, aquilo que faria delas seres realizados e felizes.
A questão é que esse outro nunca nos dá aquilo que buscamos. Quando achamos que chegamos lá, algo vem e nos tira o tapete. Devemos ficar só na expectativa, na eterna promessa, na eterna carência. Aqueles que quiserem ser completos antes da hora serão punidos. Só Ele pode ser perfeito, não podemos querer tomar O seu lugar. Se nos percebemos melhor que deveríamos, tratamos logo de convocar todos os nossos fantasmas e demônios para nos atazanar, para nos infernizar.
Uma matemática que diz que, para mantermos a esperança, devemos estar sempre insatisfeitos e infelizes. Então, para sairmos dessa encruzilhada, talvez, pudéssemos abandonar a disputa por uma perfeição divina.
Se encaramos que a nossa ideia de um ser completo e que tudo sabe é uma ilusão mantida à custa de sofrimento e insatisfação, podemos trilhar um outro caminho que possibilite um sentido diverso para as nossas vidas que não seja o encontro com a perfeição. Em vez de ficarmos fixados no lugar de seres carentes, faltantes, podemos ser indivíduos que usam o que têm, que são inventores.
A pessoa que se percebe faltante acredita que algo que não possui poderia lhe satisfazer. Quando jovem, espera que o futuro lhe traga aquilo que busca. Depois, quando mais velha, passa a um saudosismo da felicidade que teria tido e não soube aproveitar. Nunca é feliz no presente, só em um cenário idealizado em um tempo distante. Está sempre aquém do que deveria ser.
A pessoa carente queixa-se, o tempo todo, de que a vida não lhe deu aquilo que deveria ter dado. Não abre mão de uma desculpa e um culpado para a sua infelicidade. É sempre uma vítima. Teria sido feliz se não fosse o fato de ter nascido pobre, feia ou burra, de ter tido pais pouco amorosos, de ter tido uma doença limitante, de ter sido roubada, de ter sido enganada, de ter um vício, de ter vivido em um país com governo corrupto, de não ter tido oportunidades, carinho ou compreensão das outras pessoas.
De modo diverso, alguém que tem a oportunidade de se ver como inventor sabe que todos os cenários são ilusões. Tem consciência de que toda ideia de uma felicidade suprema e acabada é fantasiosa, mas que também todo sofrimento, todo padecimento, também o é. Sai do eixo ter mais/ter menos para uma realização a partir do uso daquilo que a vida lhe traz. Usas a ferramentas que tem para ser feliz. A felicidade não está no fim, mas na ação continua de inventar. O sentido não está no outro e sim no fazer o outro, na criação sem fim da realidade, no deslocamento contínuo.
O faltante acredita que o mundo o faz. O inventor, ao contrário, aposta que ele é que faz o mundo. Mas, seria isso um ato de arrogância, uma maneira de tomarmos para nós o lugar de Deus?
O inventor não é um Deus que faz tudo o que quer. Querer faz parte das fantasias dos faltantes. Eles é que acreditam que podem ter tudo, em serem completos como Deus. Mas, se isso fosse possível, o máximo que encontrariam seria um tédio mortal. Querer algo, estalar os dedos e ter aquilo na sua frente: em pouco tempo perderíamos o sentido em tudo. Um sentido, para se manter, nunca pode ser alcançado, tem de estar sempre distante, como uma ilusão. A diferença do inventor para o faltante é que o primeiro dá conta de saber, de encarar e fazer uso disto, de assumir o seu lugar de ficcionista, de criador de ilusões.
Inventar não é fazer um objeto que nos satisfaça, que atenda às nossas vontades de sermos melhores e mais completos (normalmente, quando acreditamos em objetos de satisfação, não falamos que isso seja inventar, mas descobrir, como nas ciências, que apostam na possibilidade de se encontrar algo exterior que nos curaria, que nos salvaria. Um crença de quem se vê faltante).
Inventar é se satisfazer criando. Mas qual seria a utilidade daquilo que inventamos? É possível que seja apenas permitir que a criação continue, que ela não tenha um fim, que o deslocamento permaneca e que, assim, possamos nos manter animados e vivos. Uma invenção é aquilo que possibilita que outras invenções possam vir. Se algo interrompe o fluxo criativo, uma necessidade de renovação se apresenta urgente. Como no caso de uma velha represa que, em um determinado momento, tem os seus muros ruídos diante da força de águas que precisam seguir o seu rumo. Essa necessidade visceral de fluidez, de deslocamento de sentido, podemos chamar de poder de verdade, por ela nos mostrar que nossas construções, nossas muralhas, são sempre de areia. Aquilo que vem com força de verdade tem, também, um poder de convencimento, de criar uma nova realidade.
Durante séculos, a nossa forma de manter a fluidez de sentido foi sob o modelo da esperança, da eterna promessa de que um dia encontraríamos aquilo que nos completaria. Um modelo de como alcançar um ideal de perfeição. Um esquema normativo, vertical, hierárquico e piramidal (a maioria em baixo, pouquíssimos em cima) que estabelece posições mais ou menos próximas da perfeição pretendida. Quanto mais alto o posicionamento da pessoa, mais próxima de Deus ela estaria. Algumas tão próximas que tomam para si a função de falar por Ele, de se dizerem intérpretes autorizadas Dele, uma vez que o próprio Deus nunca se mostra diretamente. Essas pessoas se colocam ou são colocadas no papel de mestre, de líder, de autoridade.
O modelo de sentindo que se apóia na promessa de completude só se sustenta a partir da presença de uma autoridade. Aquela que diz e garante o que é certo ou errado, bom ou ruim. Um sistema moral que cria uma meta idealizada que deveríamos atingir. Como já dissemos, a impossibilidade de perfeição é que mantém o deslocamento de sentido, mas desde que não saibamos disto. Para a coisa funcionar, devemos permanecer enganados, iludidos, alienados, imaginando que um dia chegaremos lá. A consequência disso é continuarmos no lugar de carentes, de errados, de sofredores.
Acontece que, aos poucos, foi ruindo a nossa crença nas autoridades. Com o tempo, percebemos que os nossos líderes eram charlatões, falsos profetas. Todos os reis foram perdendo a majestade. Depois do último século, das experiências de destruição do nazismo e comunismo, de Hitler e Stálin, ficou complicado manter qualquer fé em um projeto salvador, em um líder iluminado. Mas o tiro de misericórdia talvez tenha vindo com a internet. Com a chamada democratização do saber trazida pela rede, estamos nos despedindo das pequenas autoridades que ainda sobrevivem, como acadêmicos, críticos, médicos, economistas, políticos etc.
Hoje, está difícil continuarmos aceitando o engano.
Estamos passando de um mundo vertical para um horizontal. Uma vez que sabemos que a perfeição é impossível, não podemos falar em alguém mais ou menos perfeito. Somos todos, irremediavelmente, incompletos. Não existem, em essência, seres melhores ou piores, mais ou menos próximos de Deus, mas seres diferentes, seres inventores de uma realidade própria e possuidores de um valor singular que não pode ser comparado ou medido.
Como a promessa de completude não permite mais o fluxo de sentido, podemos inventar uma nova maneira dessa corrente seguir. Atualmente, os muros da antiga represa ainda não caíram completamente. Vivemos em uma época na qual coexistem o velho modelo faltante e novos seres inventores. Estamos convidados a criar um leito por onde a água possa escorrer. Esse vale, provavelmente, passa pela criação de uma forma de viver que não encontre mais utilidade em carências, culpas e sofrimentos, que dispense assombrações e demônios. Um nova felicidade sem esperança, mas também sem medo.
Talvez não seja isso um ato de arrogância, mas, simplesmente, a possibilidade de atendermos a algo que se apresenta.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
INVEJA
Faça um teste da próxima vez que estiver dividindo uma mesa com amigos, familiares ou cônjuges. Comece a falar entusiasticamente de alguém ou alguma coisa que goste muito. É bem provável que, logo após os primeiros elogios, um dos companheiros de conversa lhe interrompa e coloque uma objeção em relação ao que está sendo enaltecido. Outro colega pode mudar de assunto demonstrando pouca atenção por aquilo que você está dizendo. Outro, ainda, pode se intrometer na sua fala, passando a relatar os seus próprios gostos e interesses. Uma das coisas mais incômodas em uma roda social é perceber que os olhos de um dos seus membros estão brilhando em demasia. Você e o seu entusiasmo devem ser imediatamente anulados. Como é difícil sustentar a paixão diante dos outros!
Mas, caso não queira se expor e virar alvo do ataque dos outros, em vez de elogiar, você pode fazer uma crítica sobre o sucesso de alguém em determinada atividade. Diga que tal atriz só conseguiu o papel na novela porque foi para a cama com o diretor ou que ela é bonita, mas é fútil. Fale que certo milionário é um babaca que só pensa em dinheiro e que ele só conseguiu ficar rico porque foi desonesto. A conversa vai se animar e você terá a concordância e o respaldo da turma. Como é fácil despertar a solidariedade sendo invejoso!
Quando uma pessoa se mostra cheia de amor por alguma coisa, ela aparenta ter algo a mais que os outros. Deste modo, ela dá a impressão de estar se destacando dos demais, de estar fugindo da rotina, das normas e dos padrões. A reação do meio é exigir o retorno dessa pessoa para a média geral, para a mediocridade normal. E, para se anular a paixão, o esquema mais comum é despertar um temor no apaixonado, geralmente sob a forma de uma ameaça: Você não está pensando direito. Você está se iludindo. Você está fazendo a escolha errada. Você vai se dar mal assim. Você vai acabar só. Se não funcionar, passa-se para a acusação direta, fazendo-se do encantamento um erro, um pecado ou um crime: Você é prepotente. Você é arrogante. Você está se achando. Você só pensa em si. Você não tem consideração pelas pessoas. Você faz qualquer coisa, não tem escrúpulos, porque se julga melhor que os outros. Você vai ser punido por isso.
Embora se considere, habitualmente, que a inveja seja um desejo de se ter uma coisa que outra pessoa possui, sua característica mais evidente é a acusação do invejado: ele (ou ela) só teve sucesso porque foi pilantra. O invejoso se considera alguém bom e seguidor das regras enquanto o invejado é um vilão sem caráter. Ele declara que só não tem o que o outro conquistou porque não é mal. No fundo, se sente uma vítima e adora dizer que o mundo é injusto e que somente os crápulas se dão bem.
Talvez a inveja seja um dos grandes motores da sociedade. Quantas revoluções não teriam sido feitas impulsionadas por esse sentimento: a inveja em relação à aristocracia levou a burguesia ao poder e inveja em relação à burguesia levou o proletariado ao governo de alguns países. E, mais recentemente, a inveja em relação à classe média americana fez proletários de todo o mundo também sonharem com carros modernos e telefones celulares de último tipo.
Como dissemos, a inveja sempre traz uma queixa sobre o invejado. Burgueses acusavam aristocratas e proletários acusavam burgueses. Mas, e a classe média ocidental, ninguém acusa? Até pouco tempo atrás, somente líderes proletários decadentes, como Fidel Castro, ou radicais religiosos, como Bin Laden. Hoje, entretanto, é cada vez mais forte o clamor ecológico de que o consumismo desenfreado está causando a destruição do nosso planeta. Temos de conter os impulsos da classe média que agora é globalizada.
Ao longo da história, podemos perceber que atitudes condenadas em determinadas épocas passaram, com o tempo, a ser incorporadas como um padrão geral e aceitável. Provavelmente, fruto da inveja que os marginais sempre provocaram e provocam nas pessoas. Percebemos isso, facilmente, hoje em dia, em relação aos gostos musicais, vestuário e linguajar de gangues da periferia que são usados, sem o menor pudor, por moças e rapazes bem criados.
Mesmo acusando, consideramos que os bandidos, os vilões de cada época, têm algo a mais, que são mais felizes que os seguidores do bom caminho. Os marginais, por terem violado as regras, por serem imorais ou antiéticos, possuem uma satisfação que eu busco com resignação, sacrifício e sofrimento. Mas, se o mundo fosse justo, eles deveriam ser punidos pelos seus crimes.
A base da inveja é acreditar que aquilo que nos é proibido, aquilo que estamos impedidos de ter, nos faria mais felizes, nos faria mais completos. Enfim, o invejoso crê que é possível sermos totalmente completados, satisfeitos. Mas, como isso é impossível, para mantermos pelo menos a nossa fé na eterna promessa, é necessário ficarmos sempre insatisfeitos: Os que são felizes são maus e serão castigados. Se somos infelizes, os outros também devem ser. Nada incomoda mais nossa depressão que o ânimo dos outros, dessas malditas pessoas apaixonadas.
Como o invejoso adora cortar o barato de alguém, está sempre incriminando a paixão e demonstrando que os amores são ilusões. Se diverte apontando o defeito nas pessoas e nas coisas. Um estratégia fácil, uma vez que nada é perfeito. Mas o efeito que ele causa no invejado é outro: Você não é perfeito, mas alguém é. Como dissemos, o invejoso é um crente da perfeição. Ele critica a ilusão alheia em nome de uma ilusão maior.
É possível que a inveja seja um instrumento da máquina de dar sentido para a vida e para o mundo, um dos mais potentes e atuantes. E é também provável que toda forma de moralismo (tudo aquilo que diz que algo é melhor que outro e que impõe um deve-ser-assim, um certo ou errado) nada mais seja que uma forma instituída de inveja. Uma maneira de se tentar apagar a diferença, a paixão nas pessoas
Existem dois modos de darmos respaldo à inveja e recuarmos na paixão: sendo humildes ou sendo arrogantes. Em ambos os casos, estamos nos enquadrando em um lugar imaginário. Agindo assim, vestimos a carapuça que nos é oferecida pelos invejosos. Se nos damos um lugar definido, se dizemos que somos bons ou ruins, éticos ou imorais, a favor ou do contra, ficamos prisioneiros de um ideal, de uma imagem fechada de nós mesmos, seja ela positiva ou negativa.
Para sustentarmos o encanto, podemos encarar que nenhuma definição dá conta de dizer quem somos, que a nossa incompletude permanente nos impele a uma criação sem fim sobre nós mesmos. Sabermos que não há pensamento, conceito, pessoa ou objeto que nos satisfaça.
Ter paixão não nos faz melhores ou piores, mas nos faz diferentes. E ser diferente é ser incompleto, indefinível. Não é ser louco nem bandido ou santo. Nem vítimas nem vilões.
Amar é que nos faz diferentes uns dos outros: somos o nosso entusiasmo, os nossos amores, as nossas invenções.
Mas, muitas vezes, confundimos amor com inveja. Quantas vezes não tentamos apagar, com os nossos ciúmes e críticas, a paixão de quem dizemos amar. Como é comum nos sentirmos ameaçados quando nossas amadas ou amados começam a ficar cheios de planos, com mais vitalidade ou mais beleza. Tratamos logo de dar um jeito de cortar as asinhas do outro. Fingimos desprezo, fazemos chantagens ou entramos em uma competição boba para mostrar que somos melhores.
Para seguirmos amando, precisamos desistir de querer possuir e dominar o outro. Permitir que aquele que nos desperta amor também ame. Não buscar completar nem ser completado pelo outro. Saber que interessa menos o que amamos, nosso objeto de amor, que o fato de amarmos.
Quando se coloca a satisfação em algo exterior, em um objeto específico e determinado, se desperta a inveja e a competição para ver quem vai ficar com o prêmio. Mas, nesse jogo, acabamos nos sentindo derrotados e excluídos invejando imaginários vencedores e incluídos. Quando o mais importante é o ato de amar, nossa capacidade inventiva sem fim, servimos apenas como um exemplo para o outro. Exemplo de que mesmo não sendo perfeitos ou completos, mesmo sem uma garantia ou um rumo certo, podemos seguir andando, animados, apaixonados.
E, no desamparo do prêmio, mostrar: Eu não tenho algo a mais que você, eu apenas uso o que tenho, eu invento, quem sabe você possa fazer o mesmo.
Mas, caso não queira se expor e virar alvo do ataque dos outros, em vez de elogiar, você pode fazer uma crítica sobre o sucesso de alguém em determinada atividade. Diga que tal atriz só conseguiu o papel na novela porque foi para a cama com o diretor ou que ela é bonita, mas é fútil. Fale que certo milionário é um babaca que só pensa em dinheiro e que ele só conseguiu ficar rico porque foi desonesto. A conversa vai se animar e você terá a concordância e o respaldo da turma. Como é fácil despertar a solidariedade sendo invejoso!
Quando uma pessoa se mostra cheia de amor por alguma coisa, ela aparenta ter algo a mais que os outros. Deste modo, ela dá a impressão de estar se destacando dos demais, de estar fugindo da rotina, das normas e dos padrões. A reação do meio é exigir o retorno dessa pessoa para a média geral, para a mediocridade normal. E, para se anular a paixão, o esquema mais comum é despertar um temor no apaixonado, geralmente sob a forma de uma ameaça: Você não está pensando direito. Você está se iludindo. Você está fazendo a escolha errada. Você vai se dar mal assim. Você vai acabar só. Se não funcionar, passa-se para a acusação direta, fazendo-se do encantamento um erro, um pecado ou um crime: Você é prepotente. Você é arrogante. Você está se achando. Você só pensa em si. Você não tem consideração pelas pessoas. Você faz qualquer coisa, não tem escrúpulos, porque se julga melhor que os outros. Você vai ser punido por isso.
Embora se considere, habitualmente, que a inveja seja um desejo de se ter uma coisa que outra pessoa possui, sua característica mais evidente é a acusação do invejado: ele (ou ela) só teve sucesso porque foi pilantra. O invejoso se considera alguém bom e seguidor das regras enquanto o invejado é um vilão sem caráter. Ele declara que só não tem o que o outro conquistou porque não é mal. No fundo, se sente uma vítima e adora dizer que o mundo é injusto e que somente os crápulas se dão bem.
Talvez a inveja seja um dos grandes motores da sociedade. Quantas revoluções não teriam sido feitas impulsionadas por esse sentimento: a inveja em relação à aristocracia levou a burguesia ao poder e inveja em relação à burguesia levou o proletariado ao governo de alguns países. E, mais recentemente, a inveja em relação à classe média americana fez proletários de todo o mundo também sonharem com carros modernos e telefones celulares de último tipo.
Como dissemos, a inveja sempre traz uma queixa sobre o invejado. Burgueses acusavam aristocratas e proletários acusavam burgueses. Mas, e a classe média ocidental, ninguém acusa? Até pouco tempo atrás, somente líderes proletários decadentes, como Fidel Castro, ou radicais religiosos, como Bin Laden. Hoje, entretanto, é cada vez mais forte o clamor ecológico de que o consumismo desenfreado está causando a destruição do nosso planeta. Temos de conter os impulsos da classe média que agora é globalizada.
Ao longo da história, podemos perceber que atitudes condenadas em determinadas épocas passaram, com o tempo, a ser incorporadas como um padrão geral e aceitável. Provavelmente, fruto da inveja que os marginais sempre provocaram e provocam nas pessoas. Percebemos isso, facilmente, hoje em dia, em relação aos gostos musicais, vestuário e linguajar de gangues da periferia que são usados, sem o menor pudor, por moças e rapazes bem criados.
Mesmo acusando, consideramos que os bandidos, os vilões de cada época, têm algo a mais, que são mais felizes que os seguidores do bom caminho. Os marginais, por terem violado as regras, por serem imorais ou antiéticos, possuem uma satisfação que eu busco com resignação, sacrifício e sofrimento. Mas, se o mundo fosse justo, eles deveriam ser punidos pelos seus crimes.
A base da inveja é acreditar que aquilo que nos é proibido, aquilo que estamos impedidos de ter, nos faria mais felizes, nos faria mais completos. Enfim, o invejoso crê que é possível sermos totalmente completados, satisfeitos. Mas, como isso é impossível, para mantermos pelo menos a nossa fé na eterna promessa, é necessário ficarmos sempre insatisfeitos: Os que são felizes são maus e serão castigados. Se somos infelizes, os outros também devem ser. Nada incomoda mais nossa depressão que o ânimo dos outros, dessas malditas pessoas apaixonadas.
Como o invejoso adora cortar o barato de alguém, está sempre incriminando a paixão e demonstrando que os amores são ilusões. Se diverte apontando o defeito nas pessoas e nas coisas. Um estratégia fácil, uma vez que nada é perfeito. Mas o efeito que ele causa no invejado é outro: Você não é perfeito, mas alguém é. Como dissemos, o invejoso é um crente da perfeição. Ele critica a ilusão alheia em nome de uma ilusão maior.
É possível que a inveja seja um instrumento da máquina de dar sentido para a vida e para o mundo, um dos mais potentes e atuantes. E é também provável que toda forma de moralismo (tudo aquilo que diz que algo é melhor que outro e que impõe um deve-ser-assim, um certo ou errado) nada mais seja que uma forma instituída de inveja. Uma maneira de se tentar apagar a diferença, a paixão nas pessoas
Existem dois modos de darmos respaldo à inveja e recuarmos na paixão: sendo humildes ou sendo arrogantes. Em ambos os casos, estamos nos enquadrando em um lugar imaginário. Agindo assim, vestimos a carapuça que nos é oferecida pelos invejosos. Se nos damos um lugar definido, se dizemos que somos bons ou ruins, éticos ou imorais, a favor ou do contra, ficamos prisioneiros de um ideal, de uma imagem fechada de nós mesmos, seja ela positiva ou negativa.
Para sustentarmos o encanto, podemos encarar que nenhuma definição dá conta de dizer quem somos, que a nossa incompletude permanente nos impele a uma criação sem fim sobre nós mesmos. Sabermos que não há pensamento, conceito, pessoa ou objeto que nos satisfaça.
Ter paixão não nos faz melhores ou piores, mas nos faz diferentes. E ser diferente é ser incompleto, indefinível. Não é ser louco nem bandido ou santo. Nem vítimas nem vilões.
Amar é que nos faz diferentes uns dos outros: somos o nosso entusiasmo, os nossos amores, as nossas invenções.
Mas, muitas vezes, confundimos amor com inveja. Quantas vezes não tentamos apagar, com os nossos ciúmes e críticas, a paixão de quem dizemos amar. Como é comum nos sentirmos ameaçados quando nossas amadas ou amados começam a ficar cheios de planos, com mais vitalidade ou mais beleza. Tratamos logo de dar um jeito de cortar as asinhas do outro. Fingimos desprezo, fazemos chantagens ou entramos em uma competição boba para mostrar que somos melhores.
Para seguirmos amando, precisamos desistir de querer possuir e dominar o outro. Permitir que aquele que nos desperta amor também ame. Não buscar completar nem ser completado pelo outro. Saber que interessa menos o que amamos, nosso objeto de amor, que o fato de amarmos.
Quando se coloca a satisfação em algo exterior, em um objeto específico e determinado, se desperta a inveja e a competição para ver quem vai ficar com o prêmio. Mas, nesse jogo, acabamos nos sentindo derrotados e excluídos invejando imaginários vencedores e incluídos. Quando o mais importante é o ato de amar, nossa capacidade inventiva sem fim, servimos apenas como um exemplo para o outro. Exemplo de que mesmo não sendo perfeitos ou completos, mesmo sem uma garantia ou um rumo certo, podemos seguir andando, animados, apaixonados.
E, no desamparo do prêmio, mostrar: Eu não tenho algo a mais que você, eu apenas uso o que tenho, eu invento, quem sabe você possa fazer o mesmo.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
VEM SEM FANTASIA
Um amigo me contou que Pablo Neruda, para manter vivo o seu amor pela mulher, escrevia continuamente poemas dedicados a ela. Não chequei se essa informação bate com as referências biográficas do poeta, mas, verdadeira ou não, achei a história preciosa.
Talvez a grande dificuldade amorosa não seja encontrar alguém que nos desperte interesse, mas sim manter o encantamento após uma relação ter começado. Além do cumprimento das obrigações sociais (cada vez menos imperativas), como fazer para seguir com um relacionamento se apoiando apenas no amor pela outra pessoa?
O exemplo do poeta chileno nos mostra que o tempo de uma paixão é o tempo em que se consegue perceber o outro como fonte de inspiração, como algo que nos convida a uma criação permanente.
Diante de alguém que nos atrai, somos tomados pela dúvida que nos convida à invenção de respostas: o que tenho de fazer para conquistar essa pessoa? Enquanto não conseguimos seduzir o outro, enquanto nossas soluções não têm sucesso, a paixão e a criatividade se mantêm acesas. Mas basta nos convencermos de que a pessoa desejada nos ama para que ela perca imediatamente o seu lugar enigmático e provocador e nosso interesse escorra pelo ralo.
Então, para se continuar inventivo e apaixonado, é necessário que nunca conquistemos a pessoa amada? É provável que a resposta seja sim. Entretanto, pelo menos dois caminhos diferentes podemos trilhar tendo em vista essa condição.
Um caminho, amplamente seguido, diz que a nossa satisfação está em descobrirmos a pessoa certa, em termos a sorte ou o bom esforço de achar a pessoa que melhor nos completaria. Para ser satisfeito, preciso de algo que não tenho, algo que está fora de mim. Nesse esquema, para se manter o desejo, é preciso que aquilo que nos promete a felicidade esteja permanentemente distante de nós. Se tenho o que quero, o encanto se quebra. O amor não é para ser realizado.
Pelo o que meu amigo me contou, a mulher de Pablo Neruda não precisou dar o fora a vida toda para ser amada. O poeta soube vê-la como um enigma nunca conquistado mesmo estando próximo a ela. Deste modo, a história de Neruda nos oferece uma outra possibilidade: estar junto de quem se ama e manter a paixão animada.
Esse outro caminho passa por encararmos a impossibilidade de que qualquer pessoa possa nos completar, por sabermos que somos seres que necessitam estar incompletos para existir. Que, ao contrário do que muitos pesam, é esse impossível que nos anima, que nos mantém vivos. Precisamos estar sempre inventando. Se acreditamos em uma resposta definitiva, nos calamos.
Por essa via, amar equivale a criar e não a encontrar alguém que me faça completo, satisfeito e feliz. Amar sem poder jamais ser amado. A satisfação não está em algo exterior, em um ser definido e acabado que está à espera de mim. A felicidade é um ato criativo que não tem um fim, é apenas o exercício.
Eu, as pessoas, a realidade e o mundo: somos todos inconsistentes, inapreensíveis, impalpáveis, inalcançáveis, indefinidos, impenetráveis, imensuráveis e, assim como as mulheres, indomáveis, inconquistáveis e incompletáveis. Nunca poderemos dar a resposta sobre o que o outro quer de mim.
Mas, se não é para me trazer algo, se não é para me fazer mais feliz, para que serve então a pessoa amada?
Pelo caminho do poeta, quando encontramos alguém que amamos, mais do que oferecer um corpo sarado, riquezas, sabedoria, confortos, prazeres, segurança ou sucesso, podemos permitir a essa pessoa a possibilidade de amar, a oportunidade de criar.
Quando estamos na lógica do completar e ser completado, pensamos sempre no que deveríamos ter para satisfazer o outro, naquilo que nos falta para agradar a quem se ama. Como nunca conseguimos chegar lá, ficamos nos sentindo aquém, errados, menores. Permanecemos sonhando com aquele que deveríamos ser para sermos bem-amados. Imaginamos e nos cobramos ser uma outra pessoa, temos um ideal de nós mesmos. No fundo, não gostamos de quem somos. Quando estamos tentando seduzir alguém, vestimos a nossa fantasia, tentamos representar um personagem na tentativa de fazer o outro acreditar que podemos completá-lo. E já que a completude é uma ilusão, a única forma de não deixar a máscara cair é se mantendo bem longe da pessoa desejada. Tornamos o amor um eterno desencontro.
Entretanto, se desistimos de satisfazer os outros, gostamos de uma pessoa não por aquilo que ela deveria ser, pela imagem que ela nos vende, mas por aquilo que ela é, ou seja, um imponderável mistério. Nessa possibilidade, não amamos o ideal que nos é apresentado, mas aquilo que alguém porta de impossível, além da imagem, algo que transcende qualquer sentido, aquilo que faz do outro um ser encantado. No amor poético, pedimos, como na música de Chico Buarque, para a pessoa amada vir sem fantasia.
Ao acolhermos o outro em sua incompletude, o autorizamos nessa condição. Em vez de ficarmos cobrando as pessoas por aquilo que elas deveriam nos dar para sermos felizes, em vez de paralisarmos os outros em culpas e dívidas, podemos ofertar a liberdade para amar. Fazer falar quem está calado, fazer inventar quem está sem saída. Diante da dura e inegociável indiferença do mundo para com os nossos planos, ideais ou ambições, se quisermos seguir adiante em nossas existências, precisamos permanentemente de novas criações, precisamos estar amando. Nada pior para um artista, dos palcos ou da vida, do que deixar de amar, do que não ter a autorização de ser incompleto.
Para permitir o amor em alguém, não devemos ter medo de perder, necessitamos não ter inveja ou ciúmes. Se for o caso, precisamos até mesmo deixar o outro ir e, como na poesia de Roberto e Erasmo, não ter receio de dizer: você pode até gostar de outro rapaz que lhe dê amor, carinho e muito mais. O poeta, coitado, só pode oferecer coisas sem valor e inúteis. Para o seu bem, só pode dar o céu, o infinito.
Talvez a grande dificuldade amorosa não seja encontrar alguém que nos desperte interesse, mas sim manter o encantamento após uma relação ter começado. Além do cumprimento das obrigações sociais (cada vez menos imperativas), como fazer para seguir com um relacionamento se apoiando apenas no amor pela outra pessoa?
O exemplo do poeta chileno nos mostra que o tempo de uma paixão é o tempo em que se consegue perceber o outro como fonte de inspiração, como algo que nos convida a uma criação permanente.
Diante de alguém que nos atrai, somos tomados pela dúvida que nos convida à invenção de respostas: o que tenho de fazer para conquistar essa pessoa? Enquanto não conseguimos seduzir o outro, enquanto nossas soluções não têm sucesso, a paixão e a criatividade se mantêm acesas. Mas basta nos convencermos de que a pessoa desejada nos ama para que ela perca imediatamente o seu lugar enigmático e provocador e nosso interesse escorra pelo ralo.
Então, para se continuar inventivo e apaixonado, é necessário que nunca conquistemos a pessoa amada? É provável que a resposta seja sim. Entretanto, pelo menos dois caminhos diferentes podemos trilhar tendo em vista essa condição.
Um caminho, amplamente seguido, diz que a nossa satisfação está em descobrirmos a pessoa certa, em termos a sorte ou o bom esforço de achar a pessoa que melhor nos completaria. Para ser satisfeito, preciso de algo que não tenho, algo que está fora de mim. Nesse esquema, para se manter o desejo, é preciso que aquilo que nos promete a felicidade esteja permanentemente distante de nós. Se tenho o que quero, o encanto se quebra. O amor não é para ser realizado.
Pelo o que meu amigo me contou, a mulher de Pablo Neruda não precisou dar o fora a vida toda para ser amada. O poeta soube vê-la como um enigma nunca conquistado mesmo estando próximo a ela. Deste modo, a história de Neruda nos oferece uma outra possibilidade: estar junto de quem se ama e manter a paixão animada.
Esse outro caminho passa por encararmos a impossibilidade de que qualquer pessoa possa nos completar, por sabermos que somos seres que necessitam estar incompletos para existir. Que, ao contrário do que muitos pesam, é esse impossível que nos anima, que nos mantém vivos. Precisamos estar sempre inventando. Se acreditamos em uma resposta definitiva, nos calamos.
Por essa via, amar equivale a criar e não a encontrar alguém que me faça completo, satisfeito e feliz. Amar sem poder jamais ser amado. A satisfação não está em algo exterior, em um ser definido e acabado que está à espera de mim. A felicidade é um ato criativo que não tem um fim, é apenas o exercício.
Eu, as pessoas, a realidade e o mundo: somos todos inconsistentes, inapreensíveis, impalpáveis, inalcançáveis, indefinidos, impenetráveis, imensuráveis e, assim como as mulheres, indomáveis, inconquistáveis e incompletáveis. Nunca poderemos dar a resposta sobre o que o outro quer de mim.
Mas, se não é para me trazer algo, se não é para me fazer mais feliz, para que serve então a pessoa amada?
Pelo caminho do poeta, quando encontramos alguém que amamos, mais do que oferecer um corpo sarado, riquezas, sabedoria, confortos, prazeres, segurança ou sucesso, podemos permitir a essa pessoa a possibilidade de amar, a oportunidade de criar.
Quando estamos na lógica do completar e ser completado, pensamos sempre no que deveríamos ter para satisfazer o outro, naquilo que nos falta para agradar a quem se ama. Como nunca conseguimos chegar lá, ficamos nos sentindo aquém, errados, menores. Permanecemos sonhando com aquele que deveríamos ser para sermos bem-amados. Imaginamos e nos cobramos ser uma outra pessoa, temos um ideal de nós mesmos. No fundo, não gostamos de quem somos. Quando estamos tentando seduzir alguém, vestimos a nossa fantasia, tentamos representar um personagem na tentativa de fazer o outro acreditar que podemos completá-lo. E já que a completude é uma ilusão, a única forma de não deixar a máscara cair é se mantendo bem longe da pessoa desejada. Tornamos o amor um eterno desencontro.
Entretanto, se desistimos de satisfazer os outros, gostamos de uma pessoa não por aquilo que ela deveria ser, pela imagem que ela nos vende, mas por aquilo que ela é, ou seja, um imponderável mistério. Nessa possibilidade, não amamos o ideal que nos é apresentado, mas aquilo que alguém porta de impossível, além da imagem, algo que transcende qualquer sentido, aquilo que faz do outro um ser encantado. No amor poético, pedimos, como na música de Chico Buarque, para a pessoa amada vir sem fantasia.
Ao acolhermos o outro em sua incompletude, o autorizamos nessa condição. Em vez de ficarmos cobrando as pessoas por aquilo que elas deveriam nos dar para sermos felizes, em vez de paralisarmos os outros em culpas e dívidas, podemos ofertar a liberdade para amar. Fazer falar quem está calado, fazer inventar quem está sem saída. Diante da dura e inegociável indiferença do mundo para com os nossos planos, ideais ou ambições, se quisermos seguir adiante em nossas existências, precisamos permanentemente de novas criações, precisamos estar amando. Nada pior para um artista, dos palcos ou da vida, do que deixar de amar, do que não ter a autorização de ser incompleto.
Para permitir o amor em alguém, não devemos ter medo de perder, necessitamos não ter inveja ou ciúmes. Se for o caso, precisamos até mesmo deixar o outro ir e, como na poesia de Roberto e Erasmo, não ter receio de dizer: você pode até gostar de outro rapaz que lhe dê amor, carinho e muito mais. O poeta, coitado, só pode oferecer coisas sem valor e inúteis. Para o seu bem, só pode dar o céu, o infinito.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
AMOR IDEAL OU AMOR REAL: SER TUDO DISTANTE OU SER NADA PRESENTE
Ver um corpo bonito na rua, na academia, em uma revista, na televisão ou na internet pode nos deixar excitados. Como seríamos felizes se pudéssemos nos aproximar, tocar, apertar, cheirar, fazer o uso que bem quiséssemos daquelas pernas, daquela boca, daquele narizinho ou narigão, daqueles dedos ou de qualquer outra parte da anatomia que cativar os nossos olhos. Que satisfação seria possuir o corpo da pessoa desejada!
A lembrança visual pode, depois, servir de estímulo para a criação de inúmeras fantasias, de enredos variados que conduzem inevitavelmente para a submissão da outra pessoa às nossas vontades. Podemos gozar dessas fabulações tanto sozinhos quanto quando estamos na companhia de alguém e precisamos de uma animação extra. Em ambos os casos, transamos com imagens que alimentam a esperança de um encontro com um corpo perfeito.
Mas o encanto com uma determinada fantasia não costuma durar muito. Logo a repetição daquelas cenas não provoca a mesma euforia do começo. Precisamos de uma nova seqüência, de novas histórias ou, quem sabe, de novos personagens.
Pode ser que mantenhamos a mesma pessoa como protagonista de nossos sonhos quando temos contato com ela com certa frequência, mas com a condição de que encontremos obstáculos permanentes para a realização do nosso desejo de possuí-la. A pessoa querida é compromissada, pode ser boa demais pra mim, quem sabe jogue em outro time ou simplesmente não goste de mim como eu dela.
E se, por um acaso qualquer, temos a oportunidade de nos relacionar com a pessoa desejada, em um primeiro momento ficamos entusiasmados, como que embriagados pela fantasia de um outro ideal. Mas depois, com o tempo, aquele par de pernas já não parece mais tão encantador; aquelas nádegas, embora tenham as mesmas proporções, parecem não possuir a perfeição de antes.
Por mais perfeitas que sejam as medidas, por mais jovial que seja a pele, por mais rígidos que sejam os músculos, por menor que seja a gordura abdominal, um corpo pode não passar de um pedaço de carne sem nenhum charme para aquele que acredita tê-lo conquistado.
Azar das mulheres ou dos homens, tão comuns hoje em dia, que colocam toda a sua esperança de ser feliz no amor em se ter um corpo dentro dos padrões de juventude e magreza cobrados pela sociedade. Depois de tantos sacrifícios, correm o risco de ficar a ver navios. A sedução não está naquilo que se pode dar ou oferecer, nos nossos dotes que completariam o outro. Ao contrário, o encantamento vem daquilo que não temos para dar, daquilo que em nós que se mostra impossível de ser conquistado ou possuído. Por isso, para se manter a nossa fantasia, o nosso ideal de perfeição, é necessário que estejamos permanentemente distantes da pessoa desejada. Os bons sedutores sabem disto: prometem, prometem, mas, na hora agá, dão sempre um jeito de pular fora. Deixam só o gostinho na boca.
Então, para se manter o encantamento, a paixão, o amor, estaríamos condenados a um eterno desencontro? Devemos ficar apenas na vontade, na promessa, na insatisfação, no sonho não realizado?
Se buscamos um encontro perfeito, se estamos à procura de um outro que nos complete, a resposta é sim. Para se manter um ideal impossível, é necessário nunca alcançá-lo. O que importa não é a realização, mas a manutenção da esperança, da crença na completude e em um sentido final para as nossas vidas.
A pessoa que devota a sua vida à expectativa de ser bem amada, acaba sempre no lugar de mal amada, de carente: a minha satisfação está naquilo que não tenho. Em um mundo em que as promessas de felicidade são tão fortes como o nosso, não é de se estranhar a epidemia de frustração, baixa estima e desânimo. O parceiro daqueles que buscam se satisfazer totalmente pode terminar sendo um nem sempre fiel antidepressivo.
Uma outra possibilidade seria se conseguíssemos olhar para alguém não como um Deus ou Deusa, mas como um simples mortal. Em vez de uma promessa duvidosa de um encontro com algo concreto que nos completaria, a certeza de estarmos diante de um ser fugaz, incerto, nebuloso, inapreensível. O difícil acontecimento de que vejamos o outro além das imagens e dos sentidos que o mundo nos oferta. Enxergamos não uma perna ideal ou um mero pedaço de carne, mas um mistério, um nada que no entanto existe e está presente.
Um amor que não esteja marcado pela falta, pela expectativa de alguém que nos complete, pela cobrança de que o outro me dê aquilo que eu quero, por uma relação de dívida.
Mas como fazer para se conseguir essa visão, para se ter esses olhos?
Talvez a resposta passe por não se querer isso. Que possa acontecer, se for o caso. Querer alguma coisa é da ordem da falta, de se buscar algo que nos faria mais felizes ou melhores. Se nos enxergamos assim, como faltantes, não encaramos a nossa impossibilidade de nos completarmos. E, se nos percebemos como carentes, do mesmo modo vemos os outros à nossa volta. Como pessoas carentes não são amadas, continuaremos amando apenas um ser perfeito e para sempre distante.
A lembrança visual pode, depois, servir de estímulo para a criação de inúmeras fantasias, de enredos variados que conduzem inevitavelmente para a submissão da outra pessoa às nossas vontades. Podemos gozar dessas fabulações tanto sozinhos quanto quando estamos na companhia de alguém e precisamos de uma animação extra. Em ambos os casos, transamos com imagens que alimentam a esperança de um encontro com um corpo perfeito.
Mas o encanto com uma determinada fantasia não costuma durar muito. Logo a repetição daquelas cenas não provoca a mesma euforia do começo. Precisamos de uma nova seqüência, de novas histórias ou, quem sabe, de novos personagens.
Pode ser que mantenhamos a mesma pessoa como protagonista de nossos sonhos quando temos contato com ela com certa frequência, mas com a condição de que encontremos obstáculos permanentes para a realização do nosso desejo de possuí-la. A pessoa querida é compromissada, pode ser boa demais pra mim, quem sabe jogue em outro time ou simplesmente não goste de mim como eu dela.
E se, por um acaso qualquer, temos a oportunidade de nos relacionar com a pessoa desejada, em um primeiro momento ficamos entusiasmados, como que embriagados pela fantasia de um outro ideal. Mas depois, com o tempo, aquele par de pernas já não parece mais tão encantador; aquelas nádegas, embora tenham as mesmas proporções, parecem não possuir a perfeição de antes.
Por mais perfeitas que sejam as medidas, por mais jovial que seja a pele, por mais rígidos que sejam os músculos, por menor que seja a gordura abdominal, um corpo pode não passar de um pedaço de carne sem nenhum charme para aquele que acredita tê-lo conquistado.
Azar das mulheres ou dos homens, tão comuns hoje em dia, que colocam toda a sua esperança de ser feliz no amor em se ter um corpo dentro dos padrões de juventude e magreza cobrados pela sociedade. Depois de tantos sacrifícios, correm o risco de ficar a ver navios. A sedução não está naquilo que se pode dar ou oferecer, nos nossos dotes que completariam o outro. Ao contrário, o encantamento vem daquilo que não temos para dar, daquilo que em nós que se mostra impossível de ser conquistado ou possuído. Por isso, para se manter a nossa fantasia, o nosso ideal de perfeição, é necessário que estejamos permanentemente distantes da pessoa desejada. Os bons sedutores sabem disto: prometem, prometem, mas, na hora agá, dão sempre um jeito de pular fora. Deixam só o gostinho na boca.
Então, para se manter o encantamento, a paixão, o amor, estaríamos condenados a um eterno desencontro? Devemos ficar apenas na vontade, na promessa, na insatisfação, no sonho não realizado?
Se buscamos um encontro perfeito, se estamos à procura de um outro que nos complete, a resposta é sim. Para se manter um ideal impossível, é necessário nunca alcançá-lo. O que importa não é a realização, mas a manutenção da esperança, da crença na completude e em um sentido final para as nossas vidas.
A pessoa que devota a sua vida à expectativa de ser bem amada, acaba sempre no lugar de mal amada, de carente: a minha satisfação está naquilo que não tenho. Em um mundo em que as promessas de felicidade são tão fortes como o nosso, não é de se estranhar a epidemia de frustração, baixa estima e desânimo. O parceiro daqueles que buscam se satisfazer totalmente pode terminar sendo um nem sempre fiel antidepressivo.
Uma outra possibilidade seria se conseguíssemos olhar para alguém não como um Deus ou Deusa, mas como um simples mortal. Em vez de uma promessa duvidosa de um encontro com algo concreto que nos completaria, a certeza de estarmos diante de um ser fugaz, incerto, nebuloso, inapreensível. O difícil acontecimento de que vejamos o outro além das imagens e dos sentidos que o mundo nos oferta. Enxergamos não uma perna ideal ou um mero pedaço de carne, mas um mistério, um nada que no entanto existe e está presente.
Um amor que não esteja marcado pela falta, pela expectativa de alguém que nos complete, pela cobrança de que o outro me dê aquilo que eu quero, por uma relação de dívida.
Mas como fazer para se conseguir essa visão, para se ter esses olhos?
Talvez a resposta passe por não se querer isso. Que possa acontecer, se for o caso. Querer alguma coisa é da ordem da falta, de se buscar algo que nos faria mais felizes ou melhores. Se nos enxergamos assim, como faltantes, não encaramos a nossa impossibilidade de nos completarmos. E, se nos percebemos como carentes, do mesmo modo vemos os outros à nossa volta. Como pessoas carentes não são amadas, continuaremos amando apenas um ser perfeito e para sempre distante.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
A PESSOA CERTA
Quando estamos diante de uma possibilidade de relacionamento sempre nos perguntamos se a pessoa em questão é a melhor para nós. Inicialmente pensamos nas afinidades, nas características em comum que nos garantiriam que a relação funcionaria bem. Consideramos também o que o outro tem para nos oferecer, no que se pode ganhar e aprender. Por fim, lembramos de nós mesmos, dos nossos gostos, da nossa maneira de ser, do que podemos dar para quem está conosco. Usamos uma lógica que se pauta no levantamentos dos pontos de similaridade e de diferença, percebendo como diferenças positivas aquilo que um poderia trocar com o outro enquanto juntos. Nesse projeto, os dois, com o tempo, encontrariam cada vez mais sintonia, estariam cada vez mais próximos.
Ela é arquiteta em início de carreira, eu sou um advogado experiente. Ele é de peixes, eu sou de capricórnio. Ele fala quatro línguas, eu mal português. Ela tem duas filhas pequenas, eu gosto de sair na balada. Ele gosta de acordar tarde, eu também. Ela é sonhadora, eu sou mais pé no chão. Ele é baiano e eu gosto de gente alegre. Nessa matemática, cruzamos as várias informações para no final darmos o veredicto sobre quem seria a pessoa correta a escolher. A idéia é encontrar aquele que melhor se encaixaria em mim, aquela que mais me faria feliz. Um ideal de complemento.
O problema é que muitas vezes, na prática, o coração não segue o nosso bom cálculo e insistimos em gostar da pessoa errada: ela não tem nada a ver comigo, mas é ela que eu amo. A escolha afetiva, ao contrário da racional, aparenta guiar-se por uma atração pela encrenca, por aquilo que se mostra difícil de conquistar.
Mais que qualquer característica ou traço pessoal, o que nos atrai parece ser a dificuldade. Mesmo as condições que gostamos de apontar como responsáveis por sermos queridos não passam de sinalizadores de alguém cuja conquista se mostra árdua: quanto mais bonita, mas rico, mas charmoso ou mais sábia, maior é a concorrência, maior a chance de não termos tal pessoa. Ser atraente é estar marcado por uma possibilidade de perda.
Se parecemos muitas vezes buscar certas características nas pessoas que gostamos, é porque elas sinalizam para nós justamente algo que nos escapa, algo que supomos ter perdido.
Se, por acaso, encontramos alguém que tem uma certa condição que nos atrai e essa pessoa, com o tempo, se mostrar apaixonada, totalmente entregue a nós, a marca que nos seduzia perde o seu valor, o seu encanto. Por exemplo, uma mulher pode se interessar por um cara e lhe dizer: nossa, você é goiano, loiro e de gêmeos! Você é a pessoa certa para mim. O rapaz pode ficar feliz com isto. Se ele for estudante de psicanálise pode ficar ainda mais contente ao descobrir que as características citadas pela moça são as mesmas do pai dela. Aí ele se convence de que ela realmente gosta de homens geminianos, loiros e goianos, e, como ele porta tais sinais, é a melhor pessoa para ela. Aí ele dança. Corre o risco de ser inexplicavelmente trocado por um pernambucano moreno e de escorpião.
Ao dizer eu sou o seu homem, a semelhança com o pai da moça desaparece. O pai indica uma perda, um amor proibido, uma promessa nunca alcançada de felicidade. Ao responder sim ao apelo amoroso, loiro, goiano ou geminiano deixaram de ser sinais do pai.
Em relação às expectativas amorosas, estamos sempre queixando: ou nos falta amor e somos desprezados ou temos amor demais e somos sufocados. Se nos amamos mutuamente, obstáculos ou rivais nos impedem de concretizar a relação. O resultado pode ser um constante desencontro: gosto de quem não gosta de mim ou de alguém que não posso ter. Mas seguimos alimentando esperanças: no fundo ela gosta de mim, mas não tem coragem de reconhecer. Deus ou o destino vai dar um jeito de trazer o meu amor para perto de mim. O problema é que quando, por acaso, recebemos um sim da pessoa desejada, logo nos decepcionamos, perdemos o interesse, a paixão se cala: não era bem ela que eu queria. Agora que conheço ele melhor, vejo que não tem nada a ver comigo.
Inventamos as mais furadas desculpas para justificar o nosso desinteresse afetivo. Qualquer defeito se transforma numa prova definitiva do mau caráter e da incompatibilidade do outro. Como conseqüência dessa insatisfação permanente, nos meios sociais mais tradicionais, naqueles em que ainda valem os compromissos de se casar e se constituir família, encontramos cônjuges que não se sentem atraídos um pelo outro e constantes pulos de cerca, tanto dos maridos quanto das esposas. Nos círculos em que os compromissos sociais são menos imperativos, encontramos uma troca freqüentes de parceiros. A atração e o encanto podem durar apenas o tempo de um baile, uma balada ou uma noitada.
Estar satisfeito com o amor que se encontra parece ser muito raro. Enquanto esperamos um amor de complemento, ficamos sempre insatisfeitos. É impossível alguém que nos satisfaça totalmente, alguém que nos complete. A única forma de acreditarmos nisto é nunca alcançando o ideal pretendido. Damos sempre um jeito da coisa dar errado. Parece que o importante não é encontrar o amor, mas manter a máquina que nos faz acreditar que um dia poderemos encontrar um amor final, um sentido último para as nossas vidas. Qualquer coisa que ameace o funcionamento desse aparelho de sentido ilusório deve ser eliminada de nosso horizonte. Defendemos com unhas e dentes a nossa ilusão, o nosso engano, as nossas mentiras: é melhor não saber disso.
Mas teríamos outra alternativa? Como manter o amor por alguém se o que sustenta a paixão é a dificuldade, a distância, a eterna marca de algo que não se tem?
Para dar essa difícil resposta talvez devêssemos pensar que nossa dor é mais profunda. Não se trata de recuperar algo que se perdeu ou de ganhar algo que nos falta, mas perceber o amor como um encontro com aquilo que nunca tivemos nem nunca teremos, aquilo que nos é impossível, aquilo que faz da vida e do outro um mistério absurdo e inalcançável. Só essa sombra permite o encanto, a paixão.
Uma tarefa árdua. Estamos acostumados a ver e a medir as pessoas à nossa volta pela sua imagem, pela sua aparência, por aquilo que elas nos teriam para nos completar, por aquilo que seria claro e racional. Ela é rica, ele é alto, ela é medrosa, ele é sem-vergonha, ela é interesseira: como anulamos imediatamente o amor ao tentarmos, o tempo todo, enquadrar a pessoa desejada dentro de uma determinada categoria. Quanto as psicologias nos ajudam nesse vício com as suas classificações e receitas.
Parece que morremos de medo de amar. Amar exige que nos mantenhamos na incerteza, na surpresa, no acidente, na incompletude. Precisamos olhar para o outro e não vê-lo, enxergá-lo como um fantasma. Alguém que nunca possuiremos, alguém que nos escapa permanentemente, uma pessoa que desde o princípio estamos condenados a perder, um mortal.
O amor talvez exija alguém que possua a coragem de seguir amando sem o medo de não ser amado, alguém que não tema caminhar no desconhecido. Como no verso de Drummond, alguém que saiba amar depois de perder. Alguém que suporte a angústia de não se deixar enquadrar em nenhum lugar imaginário e que, assim, permita a quem está ao seu lado a possibilidade viver a experiência rara de amar.
Ela é arquiteta em início de carreira, eu sou um advogado experiente. Ele é de peixes, eu sou de capricórnio. Ele fala quatro línguas, eu mal português. Ela tem duas filhas pequenas, eu gosto de sair na balada. Ele gosta de acordar tarde, eu também. Ela é sonhadora, eu sou mais pé no chão. Ele é baiano e eu gosto de gente alegre. Nessa matemática, cruzamos as várias informações para no final darmos o veredicto sobre quem seria a pessoa correta a escolher. A idéia é encontrar aquele que melhor se encaixaria em mim, aquela que mais me faria feliz. Um ideal de complemento.
O problema é que muitas vezes, na prática, o coração não segue o nosso bom cálculo e insistimos em gostar da pessoa errada: ela não tem nada a ver comigo, mas é ela que eu amo. A escolha afetiva, ao contrário da racional, aparenta guiar-se por uma atração pela encrenca, por aquilo que se mostra difícil de conquistar.
Mais que qualquer característica ou traço pessoal, o que nos atrai parece ser a dificuldade. Mesmo as condições que gostamos de apontar como responsáveis por sermos queridos não passam de sinalizadores de alguém cuja conquista se mostra árdua: quanto mais bonita, mas rico, mas charmoso ou mais sábia, maior é a concorrência, maior a chance de não termos tal pessoa. Ser atraente é estar marcado por uma possibilidade de perda.
Se parecemos muitas vezes buscar certas características nas pessoas que gostamos, é porque elas sinalizam para nós justamente algo que nos escapa, algo que supomos ter perdido.
Se, por acaso, encontramos alguém que tem uma certa condição que nos atrai e essa pessoa, com o tempo, se mostrar apaixonada, totalmente entregue a nós, a marca que nos seduzia perde o seu valor, o seu encanto. Por exemplo, uma mulher pode se interessar por um cara e lhe dizer: nossa, você é goiano, loiro e de gêmeos! Você é a pessoa certa para mim. O rapaz pode ficar feliz com isto. Se ele for estudante de psicanálise pode ficar ainda mais contente ao descobrir que as características citadas pela moça são as mesmas do pai dela. Aí ele se convence de que ela realmente gosta de homens geminianos, loiros e goianos, e, como ele porta tais sinais, é a melhor pessoa para ela. Aí ele dança. Corre o risco de ser inexplicavelmente trocado por um pernambucano moreno e de escorpião.
Ao dizer eu sou o seu homem, a semelhança com o pai da moça desaparece. O pai indica uma perda, um amor proibido, uma promessa nunca alcançada de felicidade. Ao responder sim ao apelo amoroso, loiro, goiano ou geminiano deixaram de ser sinais do pai.
Em relação às expectativas amorosas, estamos sempre queixando: ou nos falta amor e somos desprezados ou temos amor demais e somos sufocados. Se nos amamos mutuamente, obstáculos ou rivais nos impedem de concretizar a relação. O resultado pode ser um constante desencontro: gosto de quem não gosta de mim ou de alguém que não posso ter. Mas seguimos alimentando esperanças: no fundo ela gosta de mim, mas não tem coragem de reconhecer. Deus ou o destino vai dar um jeito de trazer o meu amor para perto de mim. O problema é que quando, por acaso, recebemos um sim da pessoa desejada, logo nos decepcionamos, perdemos o interesse, a paixão se cala: não era bem ela que eu queria. Agora que conheço ele melhor, vejo que não tem nada a ver comigo.
Inventamos as mais furadas desculpas para justificar o nosso desinteresse afetivo. Qualquer defeito se transforma numa prova definitiva do mau caráter e da incompatibilidade do outro. Como conseqüência dessa insatisfação permanente, nos meios sociais mais tradicionais, naqueles em que ainda valem os compromissos de se casar e se constituir família, encontramos cônjuges que não se sentem atraídos um pelo outro e constantes pulos de cerca, tanto dos maridos quanto das esposas. Nos círculos em que os compromissos sociais são menos imperativos, encontramos uma troca freqüentes de parceiros. A atração e o encanto podem durar apenas o tempo de um baile, uma balada ou uma noitada.
Estar satisfeito com o amor que se encontra parece ser muito raro. Enquanto esperamos um amor de complemento, ficamos sempre insatisfeitos. É impossível alguém que nos satisfaça totalmente, alguém que nos complete. A única forma de acreditarmos nisto é nunca alcançando o ideal pretendido. Damos sempre um jeito da coisa dar errado. Parece que o importante não é encontrar o amor, mas manter a máquina que nos faz acreditar que um dia poderemos encontrar um amor final, um sentido último para as nossas vidas. Qualquer coisa que ameace o funcionamento desse aparelho de sentido ilusório deve ser eliminada de nosso horizonte. Defendemos com unhas e dentes a nossa ilusão, o nosso engano, as nossas mentiras: é melhor não saber disso.
Mas teríamos outra alternativa? Como manter o amor por alguém se o que sustenta a paixão é a dificuldade, a distância, a eterna marca de algo que não se tem?
Para dar essa difícil resposta talvez devêssemos pensar que nossa dor é mais profunda. Não se trata de recuperar algo que se perdeu ou de ganhar algo que nos falta, mas perceber o amor como um encontro com aquilo que nunca tivemos nem nunca teremos, aquilo que nos é impossível, aquilo que faz da vida e do outro um mistério absurdo e inalcançável. Só essa sombra permite o encanto, a paixão.
Uma tarefa árdua. Estamos acostumados a ver e a medir as pessoas à nossa volta pela sua imagem, pela sua aparência, por aquilo que elas nos teriam para nos completar, por aquilo que seria claro e racional. Ela é rica, ele é alto, ela é medrosa, ele é sem-vergonha, ela é interesseira: como anulamos imediatamente o amor ao tentarmos, o tempo todo, enquadrar a pessoa desejada dentro de uma determinada categoria. Quanto as psicologias nos ajudam nesse vício com as suas classificações e receitas.
Parece que morremos de medo de amar. Amar exige que nos mantenhamos na incerteza, na surpresa, no acidente, na incompletude. Precisamos olhar para o outro e não vê-lo, enxergá-lo como um fantasma. Alguém que nunca possuiremos, alguém que nos escapa permanentemente, uma pessoa que desde o princípio estamos condenados a perder, um mortal.
O amor talvez exija alguém que possua a coragem de seguir amando sem o medo de não ser amado, alguém que não tema caminhar no desconhecido. Como no verso de Drummond, alguém que saiba amar depois de perder. Alguém que suporte a angústia de não se deixar enquadrar em nenhum lugar imaginário e que, assim, permita a quem está ao seu lado a possibilidade viver a experiência rara de amar.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
A TRANSITORIEDADE, KEATS OU NIEMEYER
É provável que dois incômodos surjam em quem assisti ao filme (acho que ainda em cartaz) O Brilho de Uma Paixão. Os dois relacionados a um sentimento de perda pela morte prematura (aos 25 anos) do poeta inglês John Keats cuja história é contada no filme. O primeiro pela perda de anos a mais de vida que teriam proporcionado ao poeta a oportunidade de continuar criando belos poemas. O segundo pela frustração diante da perda da possibilidade de Keats e sua amada conseguirem finalmente se casar e, assim, concretizar o amor que nutriam um pelo outro.
Quantos jovens artistas, no passado e ainda hoje, deixam o mundo no auge da sua criatividade, todos a nos causar o lamento das obras-primas que poderiam ter realizado caso tivessem a chance de, pelo menos, chegar à maturidade. Sendo artista ou não, toda vida que se vai ainda nos seus primeiros anos nos traz a saudade daquilo que poderia ter sido vivido e compartilhado.
Talvez fiquemos mais confortáveis diante do exemplo do arquiteto Oscar Niemeyer que, às vésperas de completar 103 anos, segue desenhando projetos de edifícios no Brasil e no mundo. Se tivesse morrido logo após fazer Pampulha, não teríamos conhecido o novo Itamaraty, o memorial JK ou o teatro do Ibirapuera. Não haveria a rampa do Planalto, as cúpulas invertidas do Congresso ou as colunas em curva do Alvorada. Brasília seria outra; tão diferente que quem sabe pudéssemos afirmar que a cidade não existiria. Mesmo que tivesse o mesmo nome, não seria Brasília. Tentar imaginá-la sem a marca do arquiteto é impossível.
Mas só sabemos o que ganhamos com a longevidade de Niemeyer porque podemos acompanhar o que ele criou com os anos que teve. Um saber posterior. No caso daqueles que viveram por períodos mais curtos de tempo, nada podemos dizer sobre o que teriam feito se tivessem a chance de uns anos a mais, nem mesmo se teriam sido mais ou menos felizes. O que não existiu, não existe. As possibilidades são infinitas.
Assim como é provável que não existisse Brasília caso Niemeyer tivesse partido aos vinte e poucos anos, se John Keats tivesse morrido aos 50 ou aos 87 anos, ele não teria sido John Keats. Pelo menos não na forma como o conhecemos. Teria sido um outro que não podemos estabelecer qual, a não ser como exercício de ficção.
Em qualquer caso, não podemos colocar o valor de uma vida naquilo que deveria ter sido realizado ou naquilo que teria faltado. Um vida curta ou uma vida centenária encontram seu valor tão somente no fato de terem um momento de começo e um momento de fim. Toda vida humana é limitada por um nascido em tal data e um falecido em tal data. Um início e um fim (ambos de um mistério absurdo e inalcançável) são as condições para a existência de uma pessoa. Se pequena ou longa, a distância entre os dois é o que menos importa. Quinze ou 108 anos não fazem muita diferença no Universo. A brevidade é que dá o contorno para uma vida. Por não serem eternas é que as coisas existem. Se há um começo, há um término. O que é eterno está fora do tempo, está fora da existência.
No entanto, passamos a vida nos queixando de não sermos eternos, de não podermos ter tudo. Muitas vezes temos medo de amar uma pessoa ou deixamos de gostar de uma coisa porque elas estão marcadas pela possibilidade de perda, por não podermos tê-las para sempre, por serem transitórias.
Em 1916, Freud publicou um pequeno texto chamado A Transitoriedade no qual ele relata o caso de um jovem escritor que o acompanhava em uma viagem e que se recusava a apreciar as belezas à sua volta porque, um dia, elas deixariam de existir.
Freud refutou o escritor defendendo que o valor e a raridade das coisas estão justamente no fato delas serem finitas, na sua brevidade. No entanto, os argumentos do psicanalista não produziram efeitos no amigo. Ele manteve o seu clamor de que só o que é eterno é que tem valor.
Quem concorda com o escritor talvez não consiga desfrutar a vida pelo fato de exigir algo que não se pode ter: a eternidade, a perfeição. Quem pede o impossível passa a vida se queixando.
Mas pensemos em como seria se, por uma fortuna qualquer, o queixoso tivesse as suas preces atendidas? Como seria a existência de uma pessoa que nunca morre, que tem todos os seu desejos atendidos, que tem tudo o que quer? A resposta é fácil: completamente sem graça, sem sabor, um tédio absoluto. Quem sabe, por isto, é que nos mantemos sempre bem afastados daquilo nos satisfaria, o nosso receio de termos aquilo que dizemos querer. Melhor e mais seguro ficar só na queixa, na espera. Ideais devem existir apenas como promessa.
Reclamamos do fato de não sermos Deus, mas morremos de medo de um dia sê-lo. Se encontrássemos a imortalidade, como no caso de nos tornarmos vampiros, rezaríamos secretamente para que alguém enfiasse uma estaca em nosso peito e nos desse um fim.
John Keats, o mesmo poeta que escreveu que tudo que é belo é uma alegria pra sempre, antes de morrer, pediu que seu nome não fosse gravado em seu túmulo. Preferiu apenas a frase “Aqui jaz alguém cujo nome foi escrito n’água”. Talvez ele soubesse que a beleza e o sabor de uma vida estão na sua precariedade, na sua fugacidade, na sua inscrição na água.
Quantos jovens artistas, no passado e ainda hoje, deixam o mundo no auge da sua criatividade, todos a nos causar o lamento das obras-primas que poderiam ter realizado caso tivessem a chance de, pelo menos, chegar à maturidade. Sendo artista ou não, toda vida que se vai ainda nos seus primeiros anos nos traz a saudade daquilo que poderia ter sido vivido e compartilhado.
Talvez fiquemos mais confortáveis diante do exemplo do arquiteto Oscar Niemeyer que, às vésperas de completar 103 anos, segue desenhando projetos de edifícios no Brasil e no mundo. Se tivesse morrido logo após fazer Pampulha, não teríamos conhecido o novo Itamaraty, o memorial JK ou o teatro do Ibirapuera. Não haveria a rampa do Planalto, as cúpulas invertidas do Congresso ou as colunas em curva do Alvorada. Brasília seria outra; tão diferente que quem sabe pudéssemos afirmar que a cidade não existiria. Mesmo que tivesse o mesmo nome, não seria Brasília. Tentar imaginá-la sem a marca do arquiteto é impossível.
Mas só sabemos o que ganhamos com a longevidade de Niemeyer porque podemos acompanhar o que ele criou com os anos que teve. Um saber posterior. No caso daqueles que viveram por períodos mais curtos de tempo, nada podemos dizer sobre o que teriam feito se tivessem a chance de uns anos a mais, nem mesmo se teriam sido mais ou menos felizes. O que não existiu, não existe. As possibilidades são infinitas.
Assim como é provável que não existisse Brasília caso Niemeyer tivesse partido aos vinte e poucos anos, se John Keats tivesse morrido aos 50 ou aos 87 anos, ele não teria sido John Keats. Pelo menos não na forma como o conhecemos. Teria sido um outro que não podemos estabelecer qual, a não ser como exercício de ficção.
Em qualquer caso, não podemos colocar o valor de uma vida naquilo que deveria ter sido realizado ou naquilo que teria faltado. Um vida curta ou uma vida centenária encontram seu valor tão somente no fato de terem um momento de começo e um momento de fim. Toda vida humana é limitada por um nascido em tal data e um falecido em tal data. Um início e um fim (ambos de um mistério absurdo e inalcançável) são as condições para a existência de uma pessoa. Se pequena ou longa, a distância entre os dois é o que menos importa. Quinze ou 108 anos não fazem muita diferença no Universo. A brevidade é que dá o contorno para uma vida. Por não serem eternas é que as coisas existem. Se há um começo, há um término. O que é eterno está fora do tempo, está fora da existência.
No entanto, passamos a vida nos queixando de não sermos eternos, de não podermos ter tudo. Muitas vezes temos medo de amar uma pessoa ou deixamos de gostar de uma coisa porque elas estão marcadas pela possibilidade de perda, por não podermos tê-las para sempre, por serem transitórias.
Em 1916, Freud publicou um pequeno texto chamado A Transitoriedade no qual ele relata o caso de um jovem escritor que o acompanhava em uma viagem e que se recusava a apreciar as belezas à sua volta porque, um dia, elas deixariam de existir.
Freud refutou o escritor defendendo que o valor e a raridade das coisas estão justamente no fato delas serem finitas, na sua brevidade. No entanto, os argumentos do psicanalista não produziram efeitos no amigo. Ele manteve o seu clamor de que só o que é eterno é que tem valor.
Quem concorda com o escritor talvez não consiga desfrutar a vida pelo fato de exigir algo que não se pode ter: a eternidade, a perfeição. Quem pede o impossível passa a vida se queixando.
Mas pensemos em como seria se, por uma fortuna qualquer, o queixoso tivesse as suas preces atendidas? Como seria a existência de uma pessoa que nunca morre, que tem todos os seu desejos atendidos, que tem tudo o que quer? A resposta é fácil: completamente sem graça, sem sabor, um tédio absoluto. Quem sabe, por isto, é que nos mantemos sempre bem afastados daquilo nos satisfaria, o nosso receio de termos aquilo que dizemos querer. Melhor e mais seguro ficar só na queixa, na espera. Ideais devem existir apenas como promessa.
Reclamamos do fato de não sermos Deus, mas morremos de medo de um dia sê-lo. Se encontrássemos a imortalidade, como no caso de nos tornarmos vampiros, rezaríamos secretamente para que alguém enfiasse uma estaca em nosso peito e nos desse um fim.
John Keats, o mesmo poeta que escreveu que tudo que é belo é uma alegria pra sempre, antes de morrer, pediu que seu nome não fosse gravado em seu túmulo. Preferiu apenas a frase “Aqui jaz alguém cujo nome foi escrito n’água”. Talvez ele soubesse que a beleza e o sabor de uma vida estão na sua precariedade, na sua fugacidade, na sua inscrição na água.
domingo, 1 de agosto de 2010
SERIA ÚTIL FAZER ANÁLISE?
Uma pergunta que se ouve com freqüência é: para que serve uma análise? A pessoa que se analisou seria, depois desta experiência, mais bem resolvida, mais tranquila, mais animada, mais equilibrada, mais responsável, mais saudável, mais madura, mais bonita, mais sensual, mais inteligente, mais sábia, mais vitoriosa, mais criativa, mais bem amada ou mais feliz? Enfim, com o tratamento analítico, conseguiríamos mudar alguém de uma condição pior para uma melhor?
A possibilidade de transformar a realidade de um determinado ser humano sempre foi o grande desafio da medicina e dos seus derivados do campo da saúde mental. Se pensarmos que a busca pela cura, pelo retorno a uma ideia de normalidade, não deixa de ser uma luta contra um determinado destino (a doença) que se impõe às pessoas, tratar nada mais seria do que possibilitar uma vida melhor para alguém. Esse ideal ganhou tanta força nos dias de hoje que os tratamentos não devem apenas visar a eliminação das moléstias, mas também permitir aos seres humanos um desempenho superior ao daquele considerado normal para a espécie. Novas terapêuticas prometem nos levar a um estado supranatural, além das nossas limitações corporais, como se a nossa condição habitual fosse, ela mesma, patológica. Desse modo, mais do que curar doenças, a medicina e afins talvez sirvam para manter a esperança de uma felicidade plena.
Mesmo sendo a história das tentativas de se alcançar essa promessa um relato de sucessivos fracassos, as ilusões de avanço e evolução promovidas pelo aprendizado tecnológico (como a longevidade de algumas pessoas) sustentam firmemente a expectativa de um futuro melhor. Se não foi dessa vez, estamos conhecendo mais, estamos construindo máquinas de diagnóstico e tratamento mais modernas e eficazes, logo chegaremos lá.
Se, no passado, o homem virtuoso era aquele que seguia os preceitos morais de sua religião, virtuoso, hoje, é o indivíduo que consegue acompanhar a receita de uma vida saudável: não fumar, não beber, não usar drogas ilícitas, fazer sexo seguro, praticar exercícios físicos, não abusar do sal, gordura e açúcar, ingerir quantidades adequadas de cálcio, zinco, vitamina B12, ácido fólico e ômega 3, tomar sol (sem exagero) para produzir vitamina D, passar protetor solar, dormir uma quantidade boa de horas por dia, comer regularmente, fazer check-up em uma freqüência correta para a sua idade e risco genético, manter o equilíbrio emocional e evitar o estresse, buscar a qualidade de vida. Enquanto a religião prometia para aqueles que abrissem mão dos prazeres mundanos o paraíso após a morte, a medicina traz a esperança de uma existência longa e feliz. Faz uma equivalência entre quantidade de anos e felicidade.
Assim, a medicina dá a sua importante contribuição para a ideia corrente de que ser feliz é uma questão de acúmulo: quanto mais dinheiro, quanto mais bens, quanto mais sucesso e reconhecimento, quanto mais amores, quanto mais anos de vida, se é mais feliz. Milionários, celebridades e, quem sabe no futuro, centenários saudáveis sejam os novos modelos de vida.
O problema é que, diante desses ideais, as pessoas, no seu dia-a-dia, se sentem fracassadas. Por mais que se esforcem em seguir as receitas vendidas, se percebem sempre fracas e aquém, presas a vícios ou acasos que lhe impedem de alcançar a felicidade prometida. Aqueles que, por ventura, conseguem ter dinheiro ou fama, não têm a mesma sorte em relação à saúde ou ao bom ambiente familiar. Um milionário pode chegar à conclusão de que se preocupou muito com o sucesso profissional, mas se esqueceu de cuidar do sal na comida. Algo sempre fica faltando, algo sempre escapa. A felicidade parece apenas brilhar nas revistas que tratam de celebridades, de saúde ou ginástica; nas fotografias de alegres casais de artistas da TV ou de perfeitas barrigas de tanquinho de atléticos modelos. Uma satisfação sempre suposta em outra pessoa distante e inalcançável, uma felicidade que se saboreia apenas pela inveja.
Na lógica do mais, a felicidade está naquilo que falta, no que ainda está para se ganhar ou no que se perdeu. Uma equação que resulta sempre em dívida, em uma cobrança, em culpa. Deverá ser assim, deveria ter sido de outro jeito. Para eu ser feliz, minha realidade deveria ser outra. Em resposta a esse clamor, as renovadas promessas de transformação da medicina e companhia. A mudança de um ser humano prisioneiro do acaso infeliz das doenças físicas e comportamentais para um ser que é senhor do seu destino e livre das mazelas da natureza. Embora se utilize das ciências naturais, o projeto dessa medicina é fabricar um ser totalmente ideal, virtual.
Voltando à pergunta inicial sobre a serventia de uma análise, pode-se dizer que, se for para ser mais uma a assegurar a esperança de transformação de alguém pior em um ser melhor; de se ter uma vida mais saudável, mais equilibrada ou mais feliz; não há nenhuma necessidade da psicanálise no mundo. Quem se pauta por essa expectativa faz mais certo em procurar a medicina ou no máximo uma terapia alternativa ou livros de auto-ajuda. Não deve perder seu tempo com analistas.
Para o analista não existe uma vida melhor. Ele não tem uma alternativa melhor para oferecer aos seus pacientes. Não acredita e não trabalha com o deveria ser, mas com aquilo que é, com aquilo que se apresenta. Diante das queixas das pessoas que lhe procuram, do lamento de alguém que se percebe como menos feliz, menos amado, com menos sorte, menos tranqüilo, menos animado ou menos saudável, o analista não responde com a promessa de um cenário de mais conforto, de mais perfeição e felicidade. Ele se mostra totalmente inútil diante da expectativa de uma vida mais completa e satisfatória. Responde sempre: é isto mesmo, você tem razão, não dá para escapar disto, o mal-estar é permanente, não existe um sentido final.
O analista não promete o que não tem para dar. Não é agente de uma ilusão, de uma felicidade plena, de uma completude. Ele sabe e faz uso da impossibilidade de alguém ser totalmente amado, seguro e feliz. Não cura essa dor, mas faz dela uma ferramenta de vida. Não transforma ou muda ninguém. Não diz: você será mais feliz quando for outro. Ao contrário, a opção oferecida pelo analista é: seja você mesmo, pare de querer ser outro, de buscar um ideal de si. Viva do que tem, da sua incompletude.
O analista faz uso real da frase (dita normalmente de forma desacreditada) de que nada; dinheiro, saúde, vida longa, amores ou sucesso; garante a felicidade. Ele pratica essa possibilidade. Mais do que apenas dizer para os seus pacientes, ele vive a sua própria existência a partir do impossível de se escapar da morte. Sabe que as outras pessoas, no fundo, se convencem apenas pelo exemplo e não pelo que se diz ou se proclama.
Para o analista, a divisão entre vida pública e privada não vale. Nas atividades que trabalham com a promessa de um ser humano melhor e mais completo, ao contrário, deve-se sempre se portar a máscara de um profissional sério, responsável e bem resolvido. Deve-se vender uma imagem idealizada para o fraco que lhe procura. Os vícios, contradições, azares e incertezas; mazelas das quais ninguém escapa; devem ser guardados escondidos na chamada vida privada.
O analista não percebe a incompletude como um defeito, como um pecado, como algo que resulta em um ser humano ruim ou limitado. Ele gosta, ele ama a condição humana como ela é, a sua imperfeição sem cura. Não tem a pretensão de melhorar ninguém, mesmo porque não se acha melhor ou pior do que aquele que vive na esperança da satisfação total. Não quer convencer o outro de que este deve fazer o mesmo que ele. Não seduz pela inveja.
Assim como o poeta, o matemático ou o ator (ator, não celebridade!), o analista vive com a sua inutilidade no mundo. Ele pratica esse caminho que a vida lhe trouxe porque não tem outro. Como não transforma ninguém, pode ser somente um exemplo; que não pode ser copiado e que não oferece receita; para outros que, como ele, também são marcados pelo impossível. Para aquele que tem olhos para o ver o possa ver. Ele serve apenas para esse encontro. E não se apresenta para os que o procuram como um mestre, um salvador, mas como algo mais próximo de um simples amigo: alguém que compartilha, mas não tira a dor.
Muitos podem pensar que a análise cria um ser humano conformado, triste e desanimado com as limitações da sua existência. A promessa de felicidade plena talvez tenha servido para animar e orientar a humanidade nos últimos séculos. Como na história de se amarrar uma vara com uma cenoura na frente de um burro para se manter o animal em movimento. Se ele, por acaso, alcançar a cenoura, satisfaz a sua fome e deixa de andar. Mas, se também nunca a alcança, um dia ele pode se cansar e desanimar. Quanto passos faltam para esgotarmos a nossa esperança nunca alcançada de felicidade plena? Será que não precisamos de outra alternativa para seguirmos andando? A psicanálise sabe que os seres humanos não são como os burros. Não há cenoura que satisfaça o nosso apetite, o nosso desejo. Ela tenta fazer dessa impossibilidade aquilo que nos movimenta.
A possibilidade de transformar a realidade de um determinado ser humano sempre foi o grande desafio da medicina e dos seus derivados do campo da saúde mental. Se pensarmos que a busca pela cura, pelo retorno a uma ideia de normalidade, não deixa de ser uma luta contra um determinado destino (a doença) que se impõe às pessoas, tratar nada mais seria do que possibilitar uma vida melhor para alguém. Esse ideal ganhou tanta força nos dias de hoje que os tratamentos não devem apenas visar a eliminação das moléstias, mas também permitir aos seres humanos um desempenho superior ao daquele considerado normal para a espécie. Novas terapêuticas prometem nos levar a um estado supranatural, além das nossas limitações corporais, como se a nossa condição habitual fosse, ela mesma, patológica. Desse modo, mais do que curar doenças, a medicina e afins talvez sirvam para manter a esperança de uma felicidade plena.
Mesmo sendo a história das tentativas de se alcançar essa promessa um relato de sucessivos fracassos, as ilusões de avanço e evolução promovidas pelo aprendizado tecnológico (como a longevidade de algumas pessoas) sustentam firmemente a expectativa de um futuro melhor. Se não foi dessa vez, estamos conhecendo mais, estamos construindo máquinas de diagnóstico e tratamento mais modernas e eficazes, logo chegaremos lá.
Se, no passado, o homem virtuoso era aquele que seguia os preceitos morais de sua religião, virtuoso, hoje, é o indivíduo que consegue acompanhar a receita de uma vida saudável: não fumar, não beber, não usar drogas ilícitas, fazer sexo seguro, praticar exercícios físicos, não abusar do sal, gordura e açúcar, ingerir quantidades adequadas de cálcio, zinco, vitamina B12, ácido fólico e ômega 3, tomar sol (sem exagero) para produzir vitamina D, passar protetor solar, dormir uma quantidade boa de horas por dia, comer regularmente, fazer check-up em uma freqüência correta para a sua idade e risco genético, manter o equilíbrio emocional e evitar o estresse, buscar a qualidade de vida. Enquanto a religião prometia para aqueles que abrissem mão dos prazeres mundanos o paraíso após a morte, a medicina traz a esperança de uma existência longa e feliz. Faz uma equivalência entre quantidade de anos e felicidade.
Assim, a medicina dá a sua importante contribuição para a ideia corrente de que ser feliz é uma questão de acúmulo: quanto mais dinheiro, quanto mais bens, quanto mais sucesso e reconhecimento, quanto mais amores, quanto mais anos de vida, se é mais feliz. Milionários, celebridades e, quem sabe no futuro, centenários saudáveis sejam os novos modelos de vida.
O problema é que, diante desses ideais, as pessoas, no seu dia-a-dia, se sentem fracassadas. Por mais que se esforcem em seguir as receitas vendidas, se percebem sempre fracas e aquém, presas a vícios ou acasos que lhe impedem de alcançar a felicidade prometida. Aqueles que, por ventura, conseguem ter dinheiro ou fama, não têm a mesma sorte em relação à saúde ou ao bom ambiente familiar. Um milionário pode chegar à conclusão de que se preocupou muito com o sucesso profissional, mas se esqueceu de cuidar do sal na comida. Algo sempre fica faltando, algo sempre escapa. A felicidade parece apenas brilhar nas revistas que tratam de celebridades, de saúde ou ginástica; nas fotografias de alegres casais de artistas da TV ou de perfeitas barrigas de tanquinho de atléticos modelos. Uma satisfação sempre suposta em outra pessoa distante e inalcançável, uma felicidade que se saboreia apenas pela inveja.
Na lógica do mais, a felicidade está naquilo que falta, no que ainda está para se ganhar ou no que se perdeu. Uma equação que resulta sempre em dívida, em uma cobrança, em culpa. Deverá ser assim, deveria ter sido de outro jeito. Para eu ser feliz, minha realidade deveria ser outra. Em resposta a esse clamor, as renovadas promessas de transformação da medicina e companhia. A mudança de um ser humano prisioneiro do acaso infeliz das doenças físicas e comportamentais para um ser que é senhor do seu destino e livre das mazelas da natureza. Embora se utilize das ciências naturais, o projeto dessa medicina é fabricar um ser totalmente ideal, virtual.
Voltando à pergunta inicial sobre a serventia de uma análise, pode-se dizer que, se for para ser mais uma a assegurar a esperança de transformação de alguém pior em um ser melhor; de se ter uma vida mais saudável, mais equilibrada ou mais feliz; não há nenhuma necessidade da psicanálise no mundo. Quem se pauta por essa expectativa faz mais certo em procurar a medicina ou no máximo uma terapia alternativa ou livros de auto-ajuda. Não deve perder seu tempo com analistas.
Para o analista não existe uma vida melhor. Ele não tem uma alternativa melhor para oferecer aos seus pacientes. Não acredita e não trabalha com o deveria ser, mas com aquilo que é, com aquilo que se apresenta. Diante das queixas das pessoas que lhe procuram, do lamento de alguém que se percebe como menos feliz, menos amado, com menos sorte, menos tranqüilo, menos animado ou menos saudável, o analista não responde com a promessa de um cenário de mais conforto, de mais perfeição e felicidade. Ele se mostra totalmente inútil diante da expectativa de uma vida mais completa e satisfatória. Responde sempre: é isto mesmo, você tem razão, não dá para escapar disto, o mal-estar é permanente, não existe um sentido final.
O analista não promete o que não tem para dar. Não é agente de uma ilusão, de uma felicidade plena, de uma completude. Ele sabe e faz uso da impossibilidade de alguém ser totalmente amado, seguro e feliz. Não cura essa dor, mas faz dela uma ferramenta de vida. Não transforma ou muda ninguém. Não diz: você será mais feliz quando for outro. Ao contrário, a opção oferecida pelo analista é: seja você mesmo, pare de querer ser outro, de buscar um ideal de si. Viva do que tem, da sua incompletude.
O analista faz uso real da frase (dita normalmente de forma desacreditada) de que nada; dinheiro, saúde, vida longa, amores ou sucesso; garante a felicidade. Ele pratica essa possibilidade. Mais do que apenas dizer para os seus pacientes, ele vive a sua própria existência a partir do impossível de se escapar da morte. Sabe que as outras pessoas, no fundo, se convencem apenas pelo exemplo e não pelo que se diz ou se proclama.
Para o analista, a divisão entre vida pública e privada não vale. Nas atividades que trabalham com a promessa de um ser humano melhor e mais completo, ao contrário, deve-se sempre se portar a máscara de um profissional sério, responsável e bem resolvido. Deve-se vender uma imagem idealizada para o fraco que lhe procura. Os vícios, contradições, azares e incertezas; mazelas das quais ninguém escapa; devem ser guardados escondidos na chamada vida privada.
O analista não percebe a incompletude como um defeito, como um pecado, como algo que resulta em um ser humano ruim ou limitado. Ele gosta, ele ama a condição humana como ela é, a sua imperfeição sem cura. Não tem a pretensão de melhorar ninguém, mesmo porque não se acha melhor ou pior do que aquele que vive na esperança da satisfação total. Não quer convencer o outro de que este deve fazer o mesmo que ele. Não seduz pela inveja.
Assim como o poeta, o matemático ou o ator (ator, não celebridade!), o analista vive com a sua inutilidade no mundo. Ele pratica esse caminho que a vida lhe trouxe porque não tem outro. Como não transforma ninguém, pode ser somente um exemplo; que não pode ser copiado e que não oferece receita; para outros que, como ele, também são marcados pelo impossível. Para aquele que tem olhos para o ver o possa ver. Ele serve apenas para esse encontro. E não se apresenta para os que o procuram como um mestre, um salvador, mas como algo mais próximo de um simples amigo: alguém que compartilha, mas não tira a dor.
Muitos podem pensar que a análise cria um ser humano conformado, triste e desanimado com as limitações da sua existência. A promessa de felicidade plena talvez tenha servido para animar e orientar a humanidade nos últimos séculos. Como na história de se amarrar uma vara com uma cenoura na frente de um burro para se manter o animal em movimento. Se ele, por acaso, alcançar a cenoura, satisfaz a sua fome e deixa de andar. Mas, se também nunca a alcança, um dia ele pode se cansar e desanimar. Quanto passos faltam para esgotarmos a nossa esperança nunca alcançada de felicidade plena? Será que não precisamos de outra alternativa para seguirmos andando? A psicanálise sabe que os seres humanos não são como os burros. Não há cenoura que satisfaça o nosso apetite, o nosso desejo. Ela tenta fazer dessa impossibilidade aquilo que nos movimenta.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
FREUD E PLACEBO
Nos últimos meses, tenho acompanhado pela imprensa a discussão sobre a eficácia ou não dos antidepressivos. A polêmica surgiu após a divulgação de novas revisões dos estudos com estes medicamentos que teriam concluído que o benefício proporcionado por eles pouco ou nada difere do encontrado com o uso de placebo (pílula com o mesmo aspecto, mas que não contém as substâncias químicas responsáveis pelo efeito da medicação). Essa semelhança nos resultados seria mais evidente no tratamento dos quadros para os quais os antidepressivos são hoje mais prescritos: as chamadas depressões leves e moderadas. Nas depressões mais graves, a vantagem sobre o placebo seria mais consistente.
Muitos psiquiatras ouvidos pelos meios de comunicação saíram em defesa dos antidepressivos questionando a validade dos critérios estatísticos utilizados nessas novas revisões. Argumentam que, no dia-a-dia, os benefícios do tratamento da depressão com substancias químicas são claros.
Chama a atenção nessa querela o fato de que psiquiatras que, no passado, recorriam à necessidade de evidências estatisticamente comprovadas para defender o uso de antidepressivos, hoje, apelem para critérios por eles mesmos considerados como menos objetivos e científicos, como a impressão clínica.
Entretanto, talvez, o mais curioso nessa história não seja a pouca diferença de efeito entre placebo e antidepressivos, mas a boa reposta terapêutica encontrada com o uso de placebo. Nos estudos, muitos pacientes relataram melhora quando estavam em uso pílulas que não continham medicação. O fato de acreditarem estar sendo tratados foi suficiente para que se sentissem mais animados. Na medicina, esta resposta é chamada de efeito sugestivo.
A capacidade sugestiva está diretamente ligada à crença do paciente e do próprio médico em relação ao tratamento que está sendo proposto. Por esta razão, nas pesquisas, se exige que nem o paciente nem o médico saibam quando se está usando medicação ou placebo.
Quanto maiores a segurança e a convicção do psiquiatra ao prescrever determinada medicação, maior a possibilidade do paciente ter uma boa resposta. Se vacilamos ao indicar um tratamento, é quase certo que encontremos problemas na eficácia ou a queixa de efeitos colaterais indesejados. Do mesmo modo, quanto maior a crença do paciente na sabedoria do profissional que o está tratando, melhores são os resultados. Uma indicação cheia de elogios, o preço alto de uma consulta ou os títulos e cargos do médico em questão, são suficientes para causar efeitos terapêuticos. A fé no médico estimula a fé do paciente e a fé de ambos cria uma realidade.
Outro fator importante para um bom convencimento é o quanto que as convicções que embasam determinado tratamento encontram lugar nas crenças gerais de uma sociedade.
Por exemplo, em algumas tribos primitivas havia a proibição de que o pajé fosse tocado por outro membro do grupo. Existem relatos de viajantes ocidentais contando casos de pessoas de uma tribo que após violarem, por acidente, a norma e tocarem o pajé, desenvolveram um sofrimento físico intenso que as levaram à morte. Hoje, acreditar que alguém possa morrer doente só porque tocou em um pajé nos parece absurdo e improvável.
Embora ainda presentes (vide as famosas cirurgias espíritas), as crenças místicas e religiosas perderam força para as convicções médicas ou científicas. No mundo atual, acreditamos que todos os males do corpo são devidos a alterações físicas possíveis de ser detectadas e corrigidas. Como se fôssemos um grande relógio que em certo momento deixou de funcionar bem porque uma determinada peça saiu do lugar ou se estragou. Basta trocarmos ou consertarmos esta peça para que o relógio volte a funcionar adequadamente. Esse modelo pressupõe que cada doença tem uma causa específica e que existiria uma normalidade, um estado de equilíbrio que foi rompido e que precisa ser recuperado.
Até pouco tempo atrás, essa visão se limitava às chamadas doenças físicas, como as doenças infecciosas, as doenças cardíacas ou os tumores. Nos últimos anos, entretanto, esses conceitos também têm prevalecido no campo dos sofrimentos mentais e mesmo em relação a todo o comportamento humano (as áreas que antes eram consideradas derivadas não do corpo, mas da alma). O modelo do relógio tornou-se hegemônico para definir o ser humano. O sofrimento psíquico pôde, então, ser dividido em diversos tipos distintos e cada um deles estaria relacionado ou seria causado por uma alteração específica em determinada área do cérebro. Na psiquiatria, esse movimento é chamado de psiquiatria biológica ou neuropsiquiatria.
É interessante observar como essa visão do comportamento e do sofrimento humano ganhou aceitação na sociedade. Conceitos como depressão e transtorno bipolar foram incorporados pela população como verdades concretas e inquestionáveis. Os pacientes acreditam piamente que seu mal-estar psíquico se deve a um defeito nos seus níveis de serotonina ou de outra substância recentemente mais comentada, a dopamina. Muitos têm a convicção de que estar deprimido é igual ter carência de vitamina C. Basta repor a serotonina para tudo voltar ao normal.
Nos consultórios, são distribuídas aos pacientes pequenas cartilhas explicando a sua doença mental. Elas são ilustradas com desenhos que representam as regiões do cérebro que estariam alteradas (normalmente a área chamada fenda sináptica, região em que os neurônios se comunicam) e como os medicamentos corrigem estas perturbações. Estes desenhos, talvez, tenham para os seus crentes o mesmo peso de realidade que no passado tiveram a ilustrações que mostravam anjos, santos e Deus no paraíso.
A facilidade de assimilação do modelo biológico na sociedade em que vivemos pode estar relacionada a algumas vantagens evidentes deste conceito para os profissionais de saúde e para os seus pacientes. Ele teria permitido aos psiquiatras finalmente encontrar um modelo objetivo para a sua atividade. Só está faltando serem concretizadas as promessas de marcadores específicos para cada transtorno mental que possam ser avaliados por exames de imagem ou por dosagens sanguíneas, como em outras áreas da medicina. Pelo o que se tem visto nos congressos, é possível que demore um pouco...
Para os pacientes, a ideia de um determinismo biológico aparenta ser uma crença confortável e prática. O sofrimento psíquico não é da responsabilidade de quem o está sentindo. Os pacientes são vítimas de sua biologia, de sua genética. É muito desconfortável se sentir deprimido e ainda por cima se sentir culpado por isto.
Basta procurar um psiquiatra que, como um bom relojoeiro, irá detectar qual parte do cérebro deixou de bem funcionar e dirá ou prescreverá a melhor forma de resolver este defeito. Como, até o momento atual, as pesquisas científicas não conseguiram relacionar cada transtorno mental com uma alteração orgânica específica (não se sabe a causa das doenças mentais), os remédios prescritos permitem somente um controle dos sintomas, sendo muitas vezes necessário o uso contínuo da medicação. Os pacientes, então, se dizem portadores de determinado transtorno, têm a expectativa de que as outras pessoas os reconheçam neste lugar e que nada deles se espere muito até que, quem sabe, um dia, o seu mal possa finalmente ser curado. O seu desajuste no mundo tem uma explicação, não é da sua responsabilidade (na verdade ele é vitima) e, como não existe cura, o paciente tem pelo menos um boa justificativa para se desculpar do seu insucesso na vida.
Já que a responsabilidade pelo sofrimento psíquico não é dos doentes, de quem seria então a culpa? Talvez dos pais que lhes transmitiram a genética defeituosa, dos governantes que não zelaram por um saudável e seguro ambiente, dos médicos e pesquisadores que ainda não encontraram uma forma concreta de cura e até mesmo de Deus que permitiu que tudo isto acontecesse. Além de irresponsável, o portador de transtornos psiquiátricos pode se sentir alguém menos aventurado pelo destino, alguém que o mundo ou a natureza não amou como devia. O paciente sofre, mas tem o conforto de poder ter um culpado pela sua condição e dizer: se não fosse a doença eu seria feliz.
Com todo o respaldo nas crenças sociais do mundo atual, não é de se estranhar que os antidepressivos encontrassem tamanho espaço na tentativa de se aliviar as dores mentais.
Mas caso as recentes revisões estejam corretas e o efeito dos antidepressivos seja equivalente ao de um placebo, talvez pudéssemos tentar entender melhor fenômenos que são comuns na prática psiquiátrica que se apóia na farmacologia.
Intriga o fato de que pacientes com o mesmo tipo de sintomas e mesmo perfil físico possam apresentar resultados completamente diversos quando submetidos ao mesmo tratamento farmacológico. Além disto, é freqüente observar, após alguns meses, pessoas que inicialmente apresentaram uma boa resposta com o uso de determinada medicação piorarem, terem recaídas ou desenvolverem outros tipos de queixas: por exemplo, um paciente que melhorou da depressão passa a queixar-se de compulsão por comida. É normal ter que se aumentar a dose dos remédios, trocar de medicação ou fazer a associação de medicamentos diferentes. Cada vez mais o paciente psiquiátrico se caracteriza por ter diversos diagnósticos e usar várias medicações conjuntamente.
Embora robusto no começo, sabemos que o efeito sugestivo não se mantém com o tempo. É como se o poder da crença no saber de um outro tivesse uma duração limitada. O encanto logo se quebra. No início os pacientes ficam muito gratos, como se submetessem de bom grado ao saber que lhes é apresentado. Depois retornam revelando que este saber não foi suficiente, que continuam a sofrer, que precisam de um saber maior, mais completo. O médico, angustiado diante da piora e da demanda do paciente que ameaça a sua posição e o seu saber, passa, então, a tentar diversas maneiras de tirar o mal-estar que insiste em mostrar a cara: aumenta as doses, acrescenta outro remédio, muda o diagnóstico.
Se, por fim, o paciente se mantém na queixa, é classificado como refratário, podendo até ser encaminhado para intervenções mais extremas, como a psicocirurgia. Outros são diagnosticados como tendo um transtorno de personalidade que impede o bom andamento do tratamento, como o transtorno borderline. No fim, sejam aqueles que necessitam do uso contínuo das medicações, sejam aqueles que respondem pouco a elas, todos aguardam a promessa de uma felicidade que viria quando o saber total do funcionamento do corpo humano nos livrasse das doenças e da morte.
O tratamento baseado na sugestão, na expectativa de um saber que nos curaria, de um outro que sabe de nós e que poderia nos proteger e nos livrar de todos os males, é uma intervenção que se apóia na promessa e na esperança futura. O presente não pode ser desfrutado: só serei feliz quando for plenamente são. Para os religiosos, quando forem para o paraíso; para os crentes da biologia, quando conhecermos todo o corpo e, se isto não ocorrer durante suas vidas, quem sabe, seus filhos e netos possam ter o que eles, por azar, não tiveram.
Mas como seria um tratamento que não se apoiasse em um efeito placebo, na suposição de um outro que sabe de mim? Há mais de 100 anos, um médico ofereceu um outro caminho, uma nova possibilidade.
No final do século 19, Sigmund Freud rompeu com o mais radical e exemplar tratamento sugestivo conhecido: a hipnose. Em vez de conduzir por sugestão hipnótica o que uma paciente deveria lhe contar, Freud, incentivado pela própria moça, se arriscou a deixar que ela lhe dissesse livremente o que lhe vinha à cabeça.
Uma pequena mudança que talvez tenha representado uma revolução: o saber não está no outro, não é prévio, mas se faz à medida que o paciente fala, está sempre em construção e, portanto, permanentemente inacabado.
A nova transferência, o novo amor terapêutico criado por Freud não se dá pela suposição de um saber que está no médico ou em qualquer outra pessoa. O que trata o paciente não é o acúmulo de conhecimento, não são os diplomas, títulos ou cargos, não é a aparência séria nem as roupas sóbrias, não é o consultório moderno nem muito menos o preço alto das consultas ou outro marketing qualquer. O tratamento ocorre apenas pela capacidade do clínico de suportar, diante dos seus pacientes, a impossibilidade de tudo saber, a impossibilidade de um amor que nos complete, a impossibilidade de vencer a morte.
O analista não se angustia por não saber tudo, não se sente devedor ou culpado por isto. Ele não promete a salvação, não oferece saberes, regras ou receitas de bem viver, mas mostra, com o seu exemplo, que se pode ser feliz na incompletude. Um exemplo que não pode ser copiado, mas que revela que é possível, para cada um, ao seu jeito, inventar uma felicidade sem um fim.
Mais que pelos seus conceitos e teorias, pela sua aparência que muitos percebem como velha, Freud permanece atual pelo seu exemplo. Ele soube manter até o fim da vida uma falta de contentamento permanente diante da respostas que dava para o mal-estar que insistia em seus pacientes. Não procurou soluções e modelos completos, mas seguiu adiante inventando e inventando. Não anulou seu compromisso com a verdade mesmo tendo de enfrentar ameaças à boa imagem que desfrutava na sociedade médica de seu tempo.
Freud não recuou quando a verdade lhe pediu a afirmação da sexualidade das crianças e de que, além da busca pelo prazer e pela sobrevivência, habita nos humanos uma insistente insatisfação e um instinto de morte.
Com o uso apenas de antidepressivos, encontramos pessoas que se tornam portadores de transtornos mentais à espera de um saber total e impossível que possa curar o seu mal-estar (poderíamos lembrar que relógio é uma invenção humana, sem correspondência na natureza. Não deveríamos confiar que nossos delírios sejam o mundo).
Com o tratamento inventado por Freud, podemos nos deparar com pessoas que se responsabilizam por criar sua felicidade, por fazer valer suas existências na precariedade real do presente e não na espera de um futuro sempre idealizado.
Como no exemplo de Freud, os analisados podem ter a oportunidade viver pela escolha por aquilo que é verdadeiro e não pelo dever com aquilo que nos engana, com as ilusões, com a mentira, com os placebos.
Muitos psiquiatras ouvidos pelos meios de comunicação saíram em defesa dos antidepressivos questionando a validade dos critérios estatísticos utilizados nessas novas revisões. Argumentam que, no dia-a-dia, os benefícios do tratamento da depressão com substancias químicas são claros.
Chama a atenção nessa querela o fato de que psiquiatras que, no passado, recorriam à necessidade de evidências estatisticamente comprovadas para defender o uso de antidepressivos, hoje, apelem para critérios por eles mesmos considerados como menos objetivos e científicos, como a impressão clínica.
Entretanto, talvez, o mais curioso nessa história não seja a pouca diferença de efeito entre placebo e antidepressivos, mas a boa reposta terapêutica encontrada com o uso de placebo. Nos estudos, muitos pacientes relataram melhora quando estavam em uso pílulas que não continham medicação. O fato de acreditarem estar sendo tratados foi suficiente para que se sentissem mais animados. Na medicina, esta resposta é chamada de efeito sugestivo.
A capacidade sugestiva está diretamente ligada à crença do paciente e do próprio médico em relação ao tratamento que está sendo proposto. Por esta razão, nas pesquisas, se exige que nem o paciente nem o médico saibam quando se está usando medicação ou placebo.
Quanto maiores a segurança e a convicção do psiquiatra ao prescrever determinada medicação, maior a possibilidade do paciente ter uma boa resposta. Se vacilamos ao indicar um tratamento, é quase certo que encontremos problemas na eficácia ou a queixa de efeitos colaterais indesejados. Do mesmo modo, quanto maior a crença do paciente na sabedoria do profissional que o está tratando, melhores são os resultados. Uma indicação cheia de elogios, o preço alto de uma consulta ou os títulos e cargos do médico em questão, são suficientes para causar efeitos terapêuticos. A fé no médico estimula a fé do paciente e a fé de ambos cria uma realidade.
Outro fator importante para um bom convencimento é o quanto que as convicções que embasam determinado tratamento encontram lugar nas crenças gerais de uma sociedade.
Por exemplo, em algumas tribos primitivas havia a proibição de que o pajé fosse tocado por outro membro do grupo. Existem relatos de viajantes ocidentais contando casos de pessoas de uma tribo que após violarem, por acidente, a norma e tocarem o pajé, desenvolveram um sofrimento físico intenso que as levaram à morte. Hoje, acreditar que alguém possa morrer doente só porque tocou em um pajé nos parece absurdo e improvável.
Embora ainda presentes (vide as famosas cirurgias espíritas), as crenças místicas e religiosas perderam força para as convicções médicas ou científicas. No mundo atual, acreditamos que todos os males do corpo são devidos a alterações físicas possíveis de ser detectadas e corrigidas. Como se fôssemos um grande relógio que em certo momento deixou de funcionar bem porque uma determinada peça saiu do lugar ou se estragou. Basta trocarmos ou consertarmos esta peça para que o relógio volte a funcionar adequadamente. Esse modelo pressupõe que cada doença tem uma causa específica e que existiria uma normalidade, um estado de equilíbrio que foi rompido e que precisa ser recuperado.
Até pouco tempo atrás, essa visão se limitava às chamadas doenças físicas, como as doenças infecciosas, as doenças cardíacas ou os tumores. Nos últimos anos, entretanto, esses conceitos também têm prevalecido no campo dos sofrimentos mentais e mesmo em relação a todo o comportamento humano (as áreas que antes eram consideradas derivadas não do corpo, mas da alma). O modelo do relógio tornou-se hegemônico para definir o ser humano. O sofrimento psíquico pôde, então, ser dividido em diversos tipos distintos e cada um deles estaria relacionado ou seria causado por uma alteração específica em determinada área do cérebro. Na psiquiatria, esse movimento é chamado de psiquiatria biológica ou neuropsiquiatria.
É interessante observar como essa visão do comportamento e do sofrimento humano ganhou aceitação na sociedade. Conceitos como depressão e transtorno bipolar foram incorporados pela população como verdades concretas e inquestionáveis. Os pacientes acreditam piamente que seu mal-estar psíquico se deve a um defeito nos seus níveis de serotonina ou de outra substância recentemente mais comentada, a dopamina. Muitos têm a convicção de que estar deprimido é igual ter carência de vitamina C. Basta repor a serotonina para tudo voltar ao normal.
Nos consultórios, são distribuídas aos pacientes pequenas cartilhas explicando a sua doença mental. Elas são ilustradas com desenhos que representam as regiões do cérebro que estariam alteradas (normalmente a área chamada fenda sináptica, região em que os neurônios se comunicam) e como os medicamentos corrigem estas perturbações. Estes desenhos, talvez, tenham para os seus crentes o mesmo peso de realidade que no passado tiveram a ilustrações que mostravam anjos, santos e Deus no paraíso.
A facilidade de assimilação do modelo biológico na sociedade em que vivemos pode estar relacionada a algumas vantagens evidentes deste conceito para os profissionais de saúde e para os seus pacientes. Ele teria permitido aos psiquiatras finalmente encontrar um modelo objetivo para a sua atividade. Só está faltando serem concretizadas as promessas de marcadores específicos para cada transtorno mental que possam ser avaliados por exames de imagem ou por dosagens sanguíneas, como em outras áreas da medicina. Pelo o que se tem visto nos congressos, é possível que demore um pouco...
Para os pacientes, a ideia de um determinismo biológico aparenta ser uma crença confortável e prática. O sofrimento psíquico não é da responsabilidade de quem o está sentindo. Os pacientes são vítimas de sua biologia, de sua genética. É muito desconfortável se sentir deprimido e ainda por cima se sentir culpado por isto.
Basta procurar um psiquiatra que, como um bom relojoeiro, irá detectar qual parte do cérebro deixou de bem funcionar e dirá ou prescreverá a melhor forma de resolver este defeito. Como, até o momento atual, as pesquisas científicas não conseguiram relacionar cada transtorno mental com uma alteração orgânica específica (não se sabe a causa das doenças mentais), os remédios prescritos permitem somente um controle dos sintomas, sendo muitas vezes necessário o uso contínuo da medicação. Os pacientes, então, se dizem portadores de determinado transtorno, têm a expectativa de que as outras pessoas os reconheçam neste lugar e que nada deles se espere muito até que, quem sabe, um dia, o seu mal possa finalmente ser curado. O seu desajuste no mundo tem uma explicação, não é da sua responsabilidade (na verdade ele é vitima) e, como não existe cura, o paciente tem pelo menos um boa justificativa para se desculpar do seu insucesso na vida.
Já que a responsabilidade pelo sofrimento psíquico não é dos doentes, de quem seria então a culpa? Talvez dos pais que lhes transmitiram a genética defeituosa, dos governantes que não zelaram por um saudável e seguro ambiente, dos médicos e pesquisadores que ainda não encontraram uma forma concreta de cura e até mesmo de Deus que permitiu que tudo isto acontecesse. Além de irresponsável, o portador de transtornos psiquiátricos pode se sentir alguém menos aventurado pelo destino, alguém que o mundo ou a natureza não amou como devia. O paciente sofre, mas tem o conforto de poder ter um culpado pela sua condição e dizer: se não fosse a doença eu seria feliz.
Com todo o respaldo nas crenças sociais do mundo atual, não é de se estranhar que os antidepressivos encontrassem tamanho espaço na tentativa de se aliviar as dores mentais.
Mas caso as recentes revisões estejam corretas e o efeito dos antidepressivos seja equivalente ao de um placebo, talvez pudéssemos tentar entender melhor fenômenos que são comuns na prática psiquiátrica que se apóia na farmacologia.
Intriga o fato de que pacientes com o mesmo tipo de sintomas e mesmo perfil físico possam apresentar resultados completamente diversos quando submetidos ao mesmo tratamento farmacológico. Além disto, é freqüente observar, após alguns meses, pessoas que inicialmente apresentaram uma boa resposta com o uso de determinada medicação piorarem, terem recaídas ou desenvolverem outros tipos de queixas: por exemplo, um paciente que melhorou da depressão passa a queixar-se de compulsão por comida. É normal ter que se aumentar a dose dos remédios, trocar de medicação ou fazer a associação de medicamentos diferentes. Cada vez mais o paciente psiquiátrico se caracteriza por ter diversos diagnósticos e usar várias medicações conjuntamente.
Embora robusto no começo, sabemos que o efeito sugestivo não se mantém com o tempo. É como se o poder da crença no saber de um outro tivesse uma duração limitada. O encanto logo se quebra. No início os pacientes ficam muito gratos, como se submetessem de bom grado ao saber que lhes é apresentado. Depois retornam revelando que este saber não foi suficiente, que continuam a sofrer, que precisam de um saber maior, mais completo. O médico, angustiado diante da piora e da demanda do paciente que ameaça a sua posição e o seu saber, passa, então, a tentar diversas maneiras de tirar o mal-estar que insiste em mostrar a cara: aumenta as doses, acrescenta outro remédio, muda o diagnóstico.
Se, por fim, o paciente se mantém na queixa, é classificado como refratário, podendo até ser encaminhado para intervenções mais extremas, como a psicocirurgia. Outros são diagnosticados como tendo um transtorno de personalidade que impede o bom andamento do tratamento, como o transtorno borderline. No fim, sejam aqueles que necessitam do uso contínuo das medicações, sejam aqueles que respondem pouco a elas, todos aguardam a promessa de uma felicidade que viria quando o saber total do funcionamento do corpo humano nos livrasse das doenças e da morte.
O tratamento baseado na sugestão, na expectativa de um saber que nos curaria, de um outro que sabe de nós e que poderia nos proteger e nos livrar de todos os males, é uma intervenção que se apóia na promessa e na esperança futura. O presente não pode ser desfrutado: só serei feliz quando for plenamente são. Para os religiosos, quando forem para o paraíso; para os crentes da biologia, quando conhecermos todo o corpo e, se isto não ocorrer durante suas vidas, quem sabe, seus filhos e netos possam ter o que eles, por azar, não tiveram.
Mas como seria um tratamento que não se apoiasse em um efeito placebo, na suposição de um outro que sabe de mim? Há mais de 100 anos, um médico ofereceu um outro caminho, uma nova possibilidade.
No final do século 19, Sigmund Freud rompeu com o mais radical e exemplar tratamento sugestivo conhecido: a hipnose. Em vez de conduzir por sugestão hipnótica o que uma paciente deveria lhe contar, Freud, incentivado pela própria moça, se arriscou a deixar que ela lhe dissesse livremente o que lhe vinha à cabeça.
Uma pequena mudança que talvez tenha representado uma revolução: o saber não está no outro, não é prévio, mas se faz à medida que o paciente fala, está sempre em construção e, portanto, permanentemente inacabado.
A nova transferência, o novo amor terapêutico criado por Freud não se dá pela suposição de um saber que está no médico ou em qualquer outra pessoa. O que trata o paciente não é o acúmulo de conhecimento, não são os diplomas, títulos ou cargos, não é a aparência séria nem as roupas sóbrias, não é o consultório moderno nem muito menos o preço alto das consultas ou outro marketing qualquer. O tratamento ocorre apenas pela capacidade do clínico de suportar, diante dos seus pacientes, a impossibilidade de tudo saber, a impossibilidade de um amor que nos complete, a impossibilidade de vencer a morte.
O analista não se angustia por não saber tudo, não se sente devedor ou culpado por isto. Ele não promete a salvação, não oferece saberes, regras ou receitas de bem viver, mas mostra, com o seu exemplo, que se pode ser feliz na incompletude. Um exemplo que não pode ser copiado, mas que revela que é possível, para cada um, ao seu jeito, inventar uma felicidade sem um fim.
Mais que pelos seus conceitos e teorias, pela sua aparência que muitos percebem como velha, Freud permanece atual pelo seu exemplo. Ele soube manter até o fim da vida uma falta de contentamento permanente diante da respostas que dava para o mal-estar que insistia em seus pacientes. Não procurou soluções e modelos completos, mas seguiu adiante inventando e inventando. Não anulou seu compromisso com a verdade mesmo tendo de enfrentar ameaças à boa imagem que desfrutava na sociedade médica de seu tempo.
Freud não recuou quando a verdade lhe pediu a afirmação da sexualidade das crianças e de que, além da busca pelo prazer e pela sobrevivência, habita nos humanos uma insistente insatisfação e um instinto de morte.
Com o uso apenas de antidepressivos, encontramos pessoas que se tornam portadores de transtornos mentais à espera de um saber total e impossível que possa curar o seu mal-estar (poderíamos lembrar que relógio é uma invenção humana, sem correspondência na natureza. Não deveríamos confiar que nossos delírios sejam o mundo).
Com o tratamento inventado por Freud, podemos nos deparar com pessoas que se responsabilizam por criar sua felicidade, por fazer valer suas existências na precariedade real do presente e não na espera de um futuro sempre idealizado.
Como no exemplo de Freud, os analisados podem ter a oportunidade viver pela escolha por aquilo que é verdadeiro e não pelo dever com aquilo que nos engana, com as ilusões, com a mentira, com os placebos.
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