quarta-feira, 15 de julho de 2009

SE, JIE ZII E ZIE

Desejo e Perigo (Se, Jie no título original em Chinês), filme do diretor Ang Lee atualmente em cartaz nos cinemas, parece tratar de temas já vistos nas telas em outras produções: mocinha envolvida na luta pela libertação de seu país torna-se espiã, se faz passar por amante do vilão e, no fim, contra a sua vontade, acaba se apaixonando por ele.

Mas a percepção de falta de novidade só funciona nos resumos de divulgação do filme que tentam atrair o maior público possível descrevendo o trabalho de Ang Lee como um thriller bem feito destinado ao entretenimento de uma audiência que busca somente um pouco de adrenalina.

Quem assistir ao filme com um mínimo de atenção pode sair do cinema com algo bem mais valioso do que uma pretensa descarga hormonal. Pode-se descobrir que Desejo e Perigo é uma obra delicada e, ao mesmo tempo, provocante e surpreendentemente inovadora.

A novidade do filme está no questionamento que ele provoca de valores sociais a que estamos acostumados. Não necessariamente dos valores caretas que de uma forma geral já sabemos ultrapassados, como virgindade antes do casamento ou sexo apenas com fins reprodutivos. O que Desejo e Perigo interroga é muito mais atual e perturbador: será que o mais importante em nossas vidas é lutar por alguma ideia que temos de um mundo melhor, mais harmônico e justo?

Algumas décadas atrás as pessoas saíam às ruas ou mesmo pegavam em armas para defender um planeta com menos desigualdade: combatiam os dominadores e exploradores dos mais pobres e excluídos. Buscavam eliminar as injustiças perpetuadas pelos donos do poder que viviam de privilégios e prazeres no meio de uma massa excluída e sofredora.

Mas após o fracasso dos sistemas comunistas, da pobreza e da feiúra socializadas de Cuba e companhia, mesmo que ainda permaneçam alguns Chávez perdidos no passado, foi-se embora a última chance de encanto pelas utopias. Como resultado desta desilusão, passou-se a defender que a organização social capitalista era o fim do desenvolvimento humano, que não haveria mais mudança social significativa, que teríamos chegado ao fim da história. De sonhadores de um mundo diferente, deveríamos nos resignar com uma realidade prática, definida e, porque não, cínica.

Desejo e Perigo pode oferecer uma alternativa às utopias socialistas ou ao cinismo capitalista, às imagens idealizadas de um ser humano sonhador ou resignado. No filme, jovens atores se unem para a ajudar a China a se livrar da cruel dominação japonesa. Idealistas e corajosos, se arriscam em nome do seu ideal de libertação. Entretanto, não conseguem ver realizado o seu sonho. São traídos pela companheira que, atordoada pelo seu amor ao inimigo, permite que ele escape e condene ela e os seus colegas de teatro à morte.

Mas a atitude da jovem atriz de forma alguma parece um ato de fraqueza, de covardia. Ao contrário, sua escolha mostra-se corajosa e honrada. Seu compromisso maior não é com o ideal de seus camaradas. Mais importante e sincera é a sua lealdade ao amor que sente, mesmo que isto lhe custe a própria vida.

O que parece uma escolha ética egoísta pode na verdade se revelar uma nova orientação para os tempos em que vivemos, uma possibilidade de mudança para um mundo sem utopias, sem ideais de equilíbrio, harmonia e perfeição. Uma forma de sairmos do cinismo capitalista, das relações precisas e matemáticas, para encontramos o encanto, o mistério e o entusiasmo pela experiência humana.

O amor que aparece no filme não é o amor romântico idealizado de completude. Mas um amor que tira as máscaras sociais, as divisões ilusórias que nos fazem acreditar na separação entre vilões e mocinhos, entre bons e ruins. Para isto, este amor deve fazer os amantes se sentirem incompletos, imperfeitos, cheios de furos e buracos.

Deve-se fazer o outro se perceber não pleno e desejante. E é isto que o relacionamento entre a atriz e o aparente insensível burocrata do filme mostra. É como se os dois aos poucos fossem se furando e, assim, provocando o desejo um no outro. No fim não se trata mais de uma jovem frágil e idealista e de um velho autoritário e corrupto, mas de dois seres humanos que se amam pelo desamparo de suas existências. O filme exibe este processo de transformação por meio de belas e intensas cenas de sexo.

Mais do que eliminarmos os exploradores do mundo, o desafio atual é ir além da divisão entre bons e ruins, entre vilões e inocentes, entre agressores e vítimas. Sem a quem culpar pela nossa infelicidade temos de nos deparar com a nossa impossibilidade de encontrar um universo justo e equilibrado.

Deste modo, poderemos encontrar uma nova orientação ética que não seja por um ideal final, por uma promessa de perfeição que nunca vem. Em vez de expectativas ilusórias, nos nortearmos por aquilo que o universo nos traz de real. Um mundo não do que deveria ser, mas um mundo do que é, do que se apresenta para nós. Uma realidade que está sempre exigindo respostas renovadas, uma obra em movimento mas sem um fim. Em vez de frustração, queixa, desânimo e arrependimento, podemos gastar nossos esforços em criar soluções. Só contar com aquilo que temos e não com aquilo que deveríamos ter. Em vez de uma felicidade que depende de encontrar o que nos falta, uma possibilidade de ser feliz usando o que se tem para inventar repostas, mesmo que precárias.

Se em uma ética do ideal nossa orientação vem da esperança do encontro com a perfeição, de um por vir, de uma união com Deus na eternidade, a ética real se guia pelo que é presente, por aquilo que nos aparece, pela surpresa que o universo nos oferece, por aquilo que nos anima em nossa incompletude. Se não há Deus, a ética real pode se valer apenas de um simples olhar de quem está ao nosso lado, de alguém que nos provoca e em quem provocamos amor.

Zii e Zie, trabalho mais recente de Caetano Veloso, apresenta uma musicalidade estranha, dura e pouco melódica que acompanha possivelmente algumas das letras mais frescas e iluminadas da música popular contemporânea. Reproduzo abaixo a letra da última canção do álbum:

Diferentemente

Acho que ouvi numa canção de Madonna
“When you look at me I don’t know who I am”
E desentendi
Pois comigo é você quem, me olhando, detona
A explosão de eu saber quem eu sou
Eu nunca imaginei que nesse mundo
Alguma vez alguém soubesse quem é
Mas se você me vê seus olhos são mais do que meus
Pois amo
E você ama
E aí o indizível se divisa
E a luz de tantos céus inunda a mente
E no entanto
Diferentemente de Osama e Condoleezza
Eu não acredito em deus

Em um mundo em que não podemos mais nos guiar por uma imagem divina, por um mestre, por um ideal ou uma utopia, talvez não reste outra certeza que não seja o olhar de alguém que sabe da sua imperfeição incurável, mas que mesmo assim (ou por isto) insiste em buscar um outro para amar. No momento em que somos alvo deste olhar, encontramos a nossa única possibilidade de existência: uma invenção permanente que tenta responder a um desejo de amor para sempre impossível.

sábado, 30 de maio de 2009

FLOR DE MARACUJÁ

Um amigo que possui em seu apartamento um amplo jardim repleto de árvores frutíferas (ele mora no primeiro andar, junto ao solo, e por isto tem um grande espaço livre além da área construída do imóvel) me descreveu entusiasmado as belas flores do seu pé de maracujá que em determinadas épocas do ano enfeitam o ambiente.

O que achei curioso foi o fato de que a beleza da descrição se devia não só às características específicas das flores, como sua coloração ou formato das pétalas, mas principalmente a algo surpreendente que aparecia no relato de todo o ciclo de vida delas, desde a floração até os seus frutos: de uma planta rasteira e monocromática nascem flores de cores variadas que necessitam ser apreciadas de baixo já que estão sempre voltadas para o chão. Do meio destas delicadas formações, surgem pequenas esferas esverdeadas que vão crescendo até atingirem o tamanho volumoso e a cor amarela próprias do fruto que usamos para fazer sucos e caipirinhas.

Uma história simples, talvez corriqueira para aqueles que se dedicam à jardinagem, mas que me pareceu bonita e estranha ao mesmo tempo. É como se o enredo dos pés de maracujá não seguisse uma ordem ou uma lógica a que estou acostumado. Acredito que o encanto que senti ao ouvir meu amigo veio desta pequena surpresa. Saí de sua casa com um pensamento:como observar a natureza pode ser fascinante.

Confesso que depois fiquei um pouco contrariado por esta conclusão, afinal nunca consegui me seduzir pelos discursos a favor de uma vida harmônica com a natureza. Há muito tempo tenho uma certa aversão a ideais naturebas. De uma forma geral, ao ouvi-los, saio com o sentimento de estar escutando a defesa de uma pureza que em nada se diferencia da pregada pelas religiões tradicionais. Para os naturalistas, a civilização é encarada como um pecado. O homem verdadeiro e limpo seria aquele que vive em sintonia com o espaço natural. Como toda religião, este naturalismo vive de vender ideais ilusórios, promessas nunca alcançadas de equilíbrio, perfeição e felicidade.

Acredito que o ser humano está impregnado de modo irremediável pela civilização, pelas suas criações e transformações em seu ambiente natural. A civilização não é um defeito, um embuste que nos impede de termos contato com o mundo verdadeiro, ela é o próprio mundo humano, a nossa única realidade. Não temos a menor idéia de como é o mundo real, a natureza em si, embora ele esteja sempre presente nos rodeando. Diante desta presença constante, estamos permanentemente inventando arranjos que tentam dar conta deste universo que nos escapa.

A linguagem é a nossa grande invenção em reação a um meio misterioso. Mas cremos tanto que ela é uma representação fiel do mundo real que a tomamos como este próprio mundo em si. Não queremos saber da distância instransponível entre o universo que criamos e o universo real. E a todo momento este engano nos cobra, quando somos surpreendidos por algo que não esperamos, um desastre, um acidente, alguma coisa que não funcionou como deveria. Mas reagimos reforçando o engodo, dizendo que a nossa capacidade de representação está em contínuo processo de aprimoramento e que, em um futuro talvez nem tão distante, encontraremos uma completa justaposição com o que é real. Neste momento teremos a certeza e a segurança total da atividade humana, não seremos mais alvo de eventos inesperados, estaremos livres de acidentes, doenças, surpresas e, quem sabe, eliminaremos a morte.

Para as religiões, o mundo verdadeiro é aquele que está fora de nós, no céu ou em um nirvana qualquer. O mundo em que vivemos é apenas uma ilusão passageira. De uma forma diversa, a razão e as ciências trouxeram a esperança de encontrar o mundo real por aqui mesmo. Defenderam a crença de que a observação e a descrição rigorosa das coisas nos permitiriam atingir uma representação completa e perfeita do universo.

Mas a nossa capacidade representativa é constituída por vícios incorrigíveis. Quando nomeamos algo que percebemos, estamos fazendo uma generalização sem qualquer ressonância no mundo real. Ao dizermos, por exemplo, pedra, fazemos um recorte que tem, como princípio, a crença de que o universo é composto de coisas semelhantes que se repetem. Para que sejam comparáveis, também devemos acreditar que estas existências têm limites precisos. Ao realizar este recorte e este limite, dando um nome a uma percepção, o ser humano está fazendo existir algo que necessariamente não existe no mundo real, está criando, de fato, uma ficção. É provável que, no universo real, as coisas não possam ser generalizadas nem isoladas umas das outras, de modo que é impossível nomeá-las. Enfim, as coisas só existem enquanto invenção, obras humanas ficcionais.

Nos iludimos acreditando que o universo segue uma lógica matemática. Nele, as coisas não são unidades inteiras que podem ser somadas com um resultado preciso. No mundo real é impossível somar 1+1 porque não há nenhum número1, não existe uma unidade delimitada no tempo e no espaço. A matemática só funciona perfeitamente em nosso mundo inventado.

Diante da nossa percepção de que as unidades que nomeamos aparecem e desaparecem do mundo, inventamos um ser chamado tempo. Assim, podemos dar prova da existência das nossas criações, dizer que elas duraram um tanto definível, que nasceram e morreram em tal data, que uma coisa vem de outra, que tudo tem causa e conseqüência, que a passagem das coisas pelo mundo deixa rastros e frutos.

Construímos um mundo humano à imagem e semelhança da nossa invenção, existências que se repetem, coisas que se pretendem unidades, tudo bem delimitado. Os objetos humanos tentam acompanhar a nossa fantasia. Uma cadeira humana parece muito mais precisa que uma pedra ou uma flor percebidas na natureza. Vivemos dentro desta bolha virtual querendo nos convencer o tempo todo de que ela é real.

É assim que tento entender a necessidade de olharmos para a natureza, para a flor de maracujá, não para dominá-la, defini-la ou representá-la perfeitamente, mas para encontrarmos o enigma intransponível que o universo nos oferece. Enigma que nos mantém vivos e animados ao demandar invenção permanente.

Não precisamos temer o assombro que é o universo, devemos encará-lo sob o risco de perdermos a beleza, o encanto, a surpresa e, com tudo isto, a própria humanidade.

Se algum dia encontrássemos a fantasia impossível da completude, se nosso mundo de invenção fosse equivalente ao mundo real, não haveria lugar para o ser humano, perderíamos a nossa diferença, voltaríamos à massa amorfa e sem existência do universo. Desistiríamos de nossa condição de criadores, de ficcionistas que fazem existir marias, prédios, árvores, mitocôndrias e galáxias.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

AMOR VERDADEIRO

Qual a necessidade real de se ter um amor? Talvez esta seja uma das perguntas que mais tenho escutado nos últimos tempos.

A resposta mais imediata poderia ser algo como: ter alguém para nos fazer companhia, alguém para dividir projetos, alegrias e angústias, alguém para dar e receber carinhos, cuidados e proteção.

Por esta visão, os amantes seriam bons companheiros e o sucesso da união dependeria das características e gostos em comum e não das eventuais diferenças entre os parceiros.

Este tipo de relação se distinguiria do que se chama paixão. A paixão pode até ocorrer no início do relacionamento, mas ela deve ser atenuada e, se possível, abolida. Amar exigiria uma convivência calma e tranqüila entre os amantes que deveriam navegar em mares serenos e seguros para o bom desenrolar de uma vida a dois.

A paixão seria um sentimento perigoso e enganador, uma patologia que afeta corações inocentes e traz conseqüências desastrosas: o destino de todo apaixonado é a frustração, o arrependimento e a infelicidade.

Nos relacionamentos deveríamos ser práticos, reconhecer que mais importante são os nossos deveres, nosso juramento de lealdade para com aqueles que escolhemos como nossos cônjuges.

A relação entre os parceiros, pela perspectiva descrita acima, em nada se diferencia do relacionamento entre pais e filhos. É como se apenas houvesse uma troca quando a pessoa se torna adulta. Em vez de pai e mãe, marido ou esposa.

Bom, o único elemento que faz a distinção entre a afetividade de pais e filhos e marido e mulher é que, na segunda, deveria haver relações sexuais entre os parceiros. Mas é neste diferencial que aparece uma complicação para os que defendem o amor companheiro: a atração sexual, o tesão, demanda uma certa dose de paixão entre os amantes. Se este fogo não está presente, os casais até podem transar, mas de forma rotineira, sem muito entusiasmo, como uma obrigação. E, mesmo para que isto aconteça da melhor forma possível, precisam dirigir seus pensamentos para outros para os quais secretamente devotam uma paixão infiel. Cada um dos companheiros esconde um amor distante, impedido ou proibido que considera mais autêntico, mais sincero:alguém pelo qual se supõe, mesmo que como uma lembrança do passado, estar apaixonado.

É como se o amor verdadeiro fosse não o cônjuge amigo e devotado, mas aquele que nos provoca paixão. Desta maneira, a reposta mais adequada para a pergunta inicial, sobre a necessidade de um amor, deve ser: ter alguém não para nos fazer companhia, mas ter alguém para se apaixonar.

E qual a necessidade de se estar apaixonado? Para se tentar responder a esta questão talvez devêssemos entender um pouco o que é este sentimento, o que ele desperta, como pode ser reconhecido.

Para isto podemos lançar mão tanto da recordação de cada um no momento em que se percebeu neste estado quanto dos inúmeros exemplos que a literatura ou a música popular nos fornecem. Por exemplo, no final da canção Amor I Love You de Carlinhos Brown e Marisa Monte, em que Arnaldo Antunes lê um belíssimo trecho do livro Primo Basílio de Eça de Queiroz: (...)tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente!Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, com um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!

Em Canção da Manhã Feliz, Haroldo Barbosa e Luiz Reis cantam uma luminosa manhã em que o azul e a luz são demais para o coração. Mas talvez o exemplo mais caro aos brasileiros seja o da garota do corpo dourado que ao desfilar por Ipanema faz o mundo inteirinho se encher de graça, na mais conhecida canção da nossa música popular.

O sentimento que a paixão provoca é justamente este: de repente o mundo se transforma, fica mais radioso, mais colorido, mais feliz. Como se todas as dificuldades, limites e queixas perdessem sua importância, como se fôssemos transportados para uma outra realidade, como se não pudéssemos mais ser os mesmos. E talvez seja este o valor de se encontrar uma pessoa para se apaixonar: a possibilidade de nos modificarmos, de sermos renovados e, como no texto de Eça de Queiroz, termos um acréscimo de vitalidade.

Mas este arrebatamento é muitas vezes descrito e percebido como um exagero desproporcional e irreal, um fogo de palha destinado a uma combustão rápida. Isto nos permite uma terceira questão: seria possível manter, sustentar, fazer durar uma paixão em um relacionamento?

A paixão, ao nos modificar, expõe que somos incompletos, que nossa visão de mundo e nossas fórmulas e receitas de como viver de forma tranqüila e segura são furadas. Estar apaixonado é estar em um mundo de incertezas e, por isto, muitos se assustam diante do amor. Recorrem, então, a estratégias para se ver livres deste incômodo.

É possível que o grande veneno usado para se aniquilar uma paixão seja a sua idealização.

No começo a pessoa amada é vista como perfeita para nós , alguém que tem todas as características que buscamos para nos completar, para nos satisfazer. Fantasiamos uma vida a dois cheia de compreensão e devoção mútua. O outro é o nosso príncipe ou princesa, nossa cara metade ou alma gêmea, predestinado a nos trazer a felicidade.

Depois, com o tempo e com a convivência, após o sim no altar ou uma jura de amor qualquer, quando não mais existir impedimentos que afastem os amantes, o outro pouco a pouco passa a ser alvo de queixas e acusações. Brotam os defeitos e com eles o antes perfeito amado começa a ser percebido como um enganador e a sua face verdadeira seria então revelada: na realidade o príncipe é um vilão, ou melhor, um sapo.

Diante da expectativa impossível de perfeição, não há outro caminho que não seja a passagem de anjo a demônio, de maravilha a porcaria. O engano é achar que a imagem negativa é mais real. Tanto ela quanto a positiva são rótulos imaginários que criamos para sustentar a crença nunca alcançada de encontramos um amor que nos complete. Mas, por esta estratégia, o príncipe fica só na promessa e o sapo é a realidade concreta que temos ao nosso lado. O amor, assim, é uma ilusão que não se pode realizar.

O amor companheiro é normalmente um amor idealizado e por isto cobra, é carente, possessivo e competitivo. Quer aprisionar o amado em uma imagem idealizada, normalmente na de errado, insuficiente, vilão, agressor, enganador, mentiroso. Espera que o outro se reconheça como um pecador irresponsável que precisa sempre de uma mãe ou de um pai para poder bem viver, para lhe corrigir, proteger e ensinar o bom caminho. É uma relação que busca a dependência.

Para se manter a paixão é necessário se manter o encanto. A paixão não nasce, ela não é fruto da idealização de alguém, mas a sua morte começa aí. O que desperta a paixão é o encontro com uma pessoa que nos traga um enigma, alguém possuidor de uma sedução que nos escapa, de um mistério. Ao idealizarmos, mesmo que positivamente, estamos tentando apreender este mistério, dominá-lo e encaixá-lo dentro de uma imagem precisa. Mas, ao fazermos isto, estamos anulando a paixão. É como se os amantes estivessem o tempo todo fazendo um enorme esforço para se livrar do encanto, para mantê-lo distante ou proibido.

A idealização em si não é o problema, mas sim a expectativa de que ela possa ser uma verdade concreta, que possamos encontrar na realidade a imagem idealizada. Deveríamos saber que o que idealizamos é uma ficção, que o mundo e a pessoa real nos escapam e que seus mistérios demandam uma contínua invenção. E é este desconhecido que nos provoca entusiasmo por alguém, que nos desperta a paixão, que nos transforma, que nos coloca em movimento, que nos convida ao amor. E um bom começo para se perceber o outro como uma imagem sem possibilidade de finalização é perceber a si próprio como definitivamente incompleto. Desta forma, podemos estar perto, podemos conviver com nossos amados, ouvir juras e ainda assim manter o desejo e realizar o amor.

O experiência humana nos mostrou que Dom Quixote está certo: o mundo da ficção é a nossa verdade. Os que pretendem nos convencer de que as nossas criações são a realidade do mundo revelada é que estão enganados. Mas, assim como o Cavaleiro da Triste Figura, precisamos inventar um amor, uma Dulcinéia del Toboso qualquer para justificar e dar razão às nossas batalhas, às nossas aventuras, à nossa vida.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

UM BECKETT PARA O SÉCULO XXI

Li impulsivamente, emendando um no outro, os três últimos livros do escritor inglês Ian McEwan publicados no Brasil: Reparação, Sábado e Na Praia.

A escrita de McEwan segue um formato bem tradicional se considerarmos os padrões introduzidos na literatura pelas vanguardas do século passado. Seu texto tem, de uma forma geral, uma narrativa linear, os enredos são simples e seguem uma lógica facilmente acompanhável, os personagens são bem caracterizados, o vocabulário é o usado pelas pessoas comuns e o escritor não costuma lançar mão de recursos estilísticos modernosos como neologismos ou inversões e corrupções das normas gramaticais.

Entretanto, no final da cada livro do escritor, tive a sensação de ter passado por uma experiência extremamente contemporânea. A evidência mais perceptível deste sentimento foi a surpresa pelas novas questões que as obras me provocaram.

Em Reparação, a arte, a ficção ou a invenção como única forma de se reparar uma impossibilidade humana original. Em Sábado, a revelação de que os lugares, divisões e hierarquias sociais são ilusões e que, embaixo destas fantasias, existe um vazio que nos convida à solidariedade. Por fim, em Na Praia, um cruel descaramento do esforço que fazemos para afastar a felicidade de nós, para depois, em um momento que nos pareça distante o suficiente para não poder mais resgatá-la, dizer: podia ter sido feliz e não fui. A eterna queixa de homens e mulheres.

Ser moderno no último século significava romper com as tradições e padrões estabelecidos. Mas de uma maneira tão radical que não visava apenas, como nos séculos anteriores, trocar uma escola por outra, um modelo estabelecido por outro. Tratou-se de quebrar qualquer possibilidade normativa, de se criar um padrão que fosse hegemônico sobre os demais. O que se questionou foi a própria validade das regras, dos formatos.Vale qualquer forma e nenhuma é, a princípio, melhor que outra.

O fim de leis gerais de como bem escrever, de um modelo que fosse certo ou errado, melhor ou pior, teve, como efeito esperado, mostrar que a linguagem é um eterno mal-entendido, que o mundo não tem um sentido definido e preciso, que jamais podemos ser totalmente compreendidos por quem nos ouve. Os escritores do século 20 aniquilaram o que restava da imagem narcisista humana.

Samuel Beckett talvez tenha sido o mais expressivo autor desta época. Beckett, com sua revolucionária obra, fez o absurdo da experiência humana entrar definitivamente para a cultura.

Mas o que fazer agora que sabemos que Godot não vem mesmo? Não vem porque não existe. Então, neste desamparo, qual caminho seguir em um universo sem um sentido final, em que a perfeição é apenas uma ilusão impossível, em que não se pode esperar alguém que nos ame incondicionalmente, alguém que nos reconheça por inteiro, em que não há limites rígidos, em que as verdades são passageiras e em que não existem modelos e receitas seguras?

Vamos ficar somente queixando da perfeição perdida? Concluiremos que o mundo, por não ser perfeito, é uma porcaria e que o ser humano é uma droga? Permaneceremos denunciando que os afetos são mentirosos e que devemos ter uma relação cínica e prática com a vida? Seguiremos lamentando o fato da humanidade ter sido enganada por séculos? Iremos pedir a cabeça dos que nos venderam o engodo, sejam eles religiosos, governantes, milionários ou celebridades?

Embora escondida sob inúmeras fantasias, no fundo, já sabíamos desta impossibilidade. Mas agora esta realidade não pode mais ser camuflada. O exercício humano da razão, os séculos de questionamentos, inexoravelmente nos conduziu para que as ilusões fossem caindo uma a uma. Não sobrou nem a garantia em Deus e nem na própria razão entendida como um conhecimento que nos traria a certeza e o controle do mundo.

No século 21, precisamos dar uma passo além da denúncia do vazio humano. Não necessitamos de criadores que façam o mesmo que Beckett e seus contemporâneos, mas que sigam a partir de onde eles chegaram.

Não vejo como inovadora, por exemplo, a criação de alguns escritores brasileiros que, em uma tentativa de se contrapor à tradicional literatura regionalista do país, adotam Franz Kafka como um modelo de vanguardismo e passam a escrever histórias bizarras, soturnas, com enredos chocantes, não lineares e sem um entendimento definido. Para o mundo em que vivemos, Kafka está no mesmo lugar que Cervantes, Flaubert ou Balzac:grandes autores do passado. Precisamos de escritores que nos possibilitem novos olhares, até para que possamos manter sempre vivos, através de novas interpretações, os autores dos períodos anteriores.

Acho datado tentar mostrar, em pleno 2009, que a linguagem não comunica. Recentemente li uma entrevista com um diretor e autor teatral considerado inovador na qual ele diz que procura expor, em suas obras, os limites e a precariedade da linguagem. Já sabemos disto há mais de 100 anos. Trata-se de uma novidade velha.

Talvez um escritor moderno no século 21 seja alguém que não negue a experiência do absurdo revelada pelas vanguardas passadas. Mas em vez de ficar paralisado ou se lamentando, ele se pergunta e daí, o que podemos fazer a partir da falta de sentido, da ausência de comunicação, de uma linguagem que é pura fantasia.

Ian McEwan é um autor que consigo acreditar neste lugar. Não se preocupa com formatos revolucionários, mas usa a escrita regular como um ato de desespero. Não quer encontrar um sentido final para o mundo, mas lança mão de sentidos possíveis que, assim como um encanto ou magia, tentam, nem que seja por uma ilusão de tempo, enganar uma impossibilidade original. Suas delicadas, longas e detalhadas descrições das pessoas, dos objetos, das paisagens e dos acontecimentos demonstram amor à experiência humana mesmo sendo ela imperfeita. Amor às ferramentas que os seres humanos recorrem para enfrentar a sua tragédia: a linguagem, as palavras, a ficção. Uma ficção que sabe da sua precariedade, do seu impossível, mas que não recua e não desiste de exercer a sua humanidade.

Se a comunicação é sempre falha, se o mal-entendido está constantemente presente, se não há uma autoridade infalível que nos garanta um sentido preciso para as palavras, não quer dizer que é melhor nós pararmos de falar uns com os outros.

McEwan faz uma obra que pode ser compartilhada com quem o lê. É uma escrita solidária e portanto afetiva, amorosa. Talvez porque ele não se preocupe em passar uma mensagem, em explicar algo, em expor ideias e conceitos. Suas descrições se parecem mais com testemunhos: um testemunho sincero daquilo que escapa de poder ser bem dito, bem representado O mais importante em seu trabalho está além da sua aparência. Através de uma linguagem comum, o escritor não vende um modelo, mas oferece um exemplo da experiência de se tentar enfrentar os limites da condição humana. Um exemplo que inclui o leitor que, assim, é convidado, ao seu jeito, à invenção.

Ao contrário de McEwan, aqueles que optam por fazer textos de formatos herméticos tentando mostrar as insuficiências da comunicação acabam provocando o mesmo efeito que se quer combater: a crença na possibilidade de uma representação perfeita. Os trabalhos nebulosos, que não podem ser compartilhados minimamente, são como delírios individuais que não têm nenhum objetivo atual que não seja o exibicionismo: olhem como minhas loucuras e minhas viagens são bacanas. São trabalhos arrogantes e ególatras que provocam, em seus leitores, apenas um justo cansaço.

Quem já sabe da impossibilidade da representação não tem medo da linguagem simples, dos sentidos e afetos precários.

Neste caminho, a partir do vazio e do desamparo escancarados por Samuel Beckett, Ian McEwan avança produzindo um efeito frágil e delicado de beleza.

Uma beleza moderna que não é necessariamente fruto do que se vislumbra em uma obra, mas que surge da experiência de contato com esta criação. É possível que a novidade (e mesmo a vitalidade) de um trabalho artístico não esteja na sua forma. Depois do modernismo e pós-modernismo não importa mais o modelo, pode-se usar qualquer imagem.

Com a sociedade do espetáculo, levamos ao extremo a capacidade de organizar o mundo pela forma, pela representação. A necessidade de inovação agora exige se experimentar em uma obra algo que está além da aparência, além do sentido.

Romper com a idolatria, com o império da imagem, talvez seja um dos grandes desafios deste nosso tempo. No século 21 as exigências para a mulher de César são maiores: não basta ela ser e nem muito menos parecer honesta.

sexta-feira, 13 de março de 2009

NÃO EXISTE CRISE NA CASA BRANCA

Na semana de Carnaval, ainda cheio de entusiasmo pela posse de Obama como presidente dos EUA, resolvi assistir, pela TV, ao seu primeiro discurso no congresso americano. À medida que os parlamentares e demais convidados gastavam as palmas das mãos em aplausos quase contínuos para as palavras do presidente, foi crescendo em mim um incômodo diante do que via e ouvia.

Obama reconheceu que o seu país passa por uma grave crise, mas os americanos não precisam se preocupar, pois afinal ele sabe o roteiro para tirá-los do buraco, basta aplicar seus planos e os EUA voltarão a ocupar a dianteira do mundo.

Ouvindo suas promessas, entende-se que os culpados pela crise foram os malvados conservadores que o antecederam e que governaram privilegiando os mais ricos e gananciosos empresários americanos. Então, seu governo moralizante vai dar atenção para o povo: chega de executivos com seus jatinhos, vamos taxar os mais ricos para dar educação e saúde públicas para toda a população. O Estado vai cuidar dos pobres abandonados e defender a inocente classe média das enganações dos inescrupulosos agentes financeiros.

Pensava (e ainda quero apostar) que Obama representava a possibilidade de uma nova forma de relacionamento entre governo e sociedade, entre os EUA e o mundo. O discurso que assisti vai em outra direção: velhas e mofadas receitas.

Dizer que os problemas da maioria da população são devidos à vilania de uma pequena parte podia ser moderno e revolucionário em 1789 ou, no máximo, em 1917, com a Revolução Russa. Divisão de classes, exploradores e explorados, culpados e inocentes, já não cola mais em 2009. A crise atual é de responsabilidade de toda a população, de suas crenças e expectativas. Para que servem os governos democráticos se não para demonstrar isto? Que os eleitores são responsáveis por aqueles que elegem e por acreditar em suas promessas. Onde está o país em que um presidente recomendou que todas as pessoas deveriam pensar no que poderiam fazer pelo país e não no que o governo poderia fazer por elas? Se cada cidadão, seja dos EUA ou de qualquer outro lugar do mundo, não se perguntar sobre seu papel nos impasses que vivemos, se não houver mudanças individuais, continuaremos sem poder avançar.

Outro pensamento arcaico e moribundo defendido por Obama em sua apresentação, foi o de que os EUA deveriam voltar a liderar o mundo e que o governo do país tem de defender os empregos de seus cidadãos que estariam sendo levados para outros países. Nacionalismo, a esta altura do campeonato, é no mínimo inoportuno. O presidente Lula, pelo menos neste aspecto, se mostra mais avançado e perspicaz ao combater o protecionismo como remédio para a crise.

Estamos vivendo problemas globalizados que ameaçam, antes de tudo, nosso meio ambiente. Acabou a época em que o inimigo era o outro, em que podíamos ficar perdendo tempo em guerras contra adversários imaginários. A humanidade agora está sendo chamada para resolver um problema real. Não dá mais para ficarmos bancando divisões ilusórias como ocidente/ nações islâmicas, primeiro mundo/países pobres, americanos/ norte-coreanos. Estamos todos desamparados no mundo. Seria melhor nos unirmos em nossa desgraça do que correr o risco de não darmos conta de enfrentar os desafios que a realidade nos coloca.

Além das ideias, a coreografia apresentada por Obama e sua plateia também me trouxe recordações desconfortáveis. O presidente tentava demonstrar total segurança em suas frases, nenhuma alteração, nenhum vacilo, nenhuma modulação afetiva, tudo dentro do roteiro para trazer segurança aos americanos e recuperar o orgulho nacional. Os parlamentares responderam se levantando e aplaudindo dezenas de vezes. Lembrou-me as reuniões motivacionais de final de ano das empresas nas quais cada empregado tem de aplaudir o discurso dos chefes como um macaco adestrado para demonstrar que veste a camisa da companhia que está prestes a demiti-lo. Um amigo jornalista, que também assistia ao espetáculo, fez uma associação mais preocupante: os inflamados discursos de Hitler que procuravam resgatar o orgulho e o entusiasmo de uma Alemanha derrotada e falida. Ali, do mesmo modo, se via um orador convicto que tentava trazer à tona o passado de glória e a primazia dos valores do seu povo. Espero que esta seja uma semelhança enganosa.

É um grande erro acreditar que a resposta para a crise seja promover o orgulho patriótico. Alguns dos grandes desastres na história da humanidade tiveram com pano de fundo uma união patriótica em defesa de objetivos comuns. Um indivíduo identificado a uma coletividade, a uma massa, é capaz dos piores crimes. A responsabilidade pelos atos vem sempre do exercício solitário da individualidade. O espetáculo de Obama e seus companheiros congressistas me pareceu, antes de tudo, um sinal de negação dos problemas que os EUA e o mundo atravessam.

O presidente demonstra querer rapidamente cobrir com muito dinheiro todos os buracos e furos de seu país. Bilhões para salvar os bancos e empresas em processo de falência, bilhões para recuperar a educação e saúde dos americanos, bilhões para pesquisas para se evitar os danos do aquecimento global. Basta ter dinheiro e trabalhar duro para tudo se resolver. Mas o velho modelo americano pode não funcionar mais. A praticidade matemática não convence como antes. Os americanos estão desorientados em um mundo em que um mais um não é igual a dois.

Melhor seria aprofundar o questionamento sobre a crise global. Será que ela não demanda que os americanos abandonem antigas crenças, que estejam abertos a novas ideias, a novas possibilidades de organização da realidade? Os EUA representaram, como nação, uma inovação em relação às tradicionais visões de mundo européias. Talvez, para avançar, tenham agora de abrir mão das suas receitas. Mas um processo de renovação pede que não se negue o buraco. Ao contrário, deve-se encará-lo e, a partir dele, construir uma nova realidade.

Obama deveria realmente entrar em crise, uma crise da verdade, uma crise de suas crenças, modelos e fórmulas prontas. Se haver com a incerteza, olhar para a sombra. Assim, poderá ajudar na invenção do mundo novo que a realidade atual do planeta exige.

Presidente Obama, demita seus marqueteiros, recuse o trabalho de ghost writers, rasgue seus livros de psicologia motivacional, esqueça que é o primeiro presidente americano negro, não dê bola para as comparações com Lincoln, Roosevelt e Kennedy, não acredite nas lições das crises econômicas passadas, desista do orgulho patriótico, abomine Michael Moore, afaste-se das pesquisas de opinião, fuja das estatísticas, duvide de gráficos e tabelas, dê as costas para seus índices de aprovação, não se preocupe em passar uma boa imagem e, mais importante, vivencie um pouco de solidão.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

BILL GATES E PARIS HILTON

Dois termos usados com frequência pelos comentaristas da atual crise econômica mundial me causam estranheza por uma incapacidade pessoal de compreender minimamente o seu significado: mercado livre e economia real.

Até algum tempo atrás, a moderna orientação econômica pregava o mercado livre: uma economia sem restrições, controles e proibições, guiada pelo acaso, encontraria sua própria regulação e conduziria os povos que acolhessem esta ideia a um acumular de riquezas sem fim. Agora, todos os analistas apontam a crença na liberdade do mercado como a culpada pela turbulência que estamos sofrendo. Clamam pela volta de uma autoridade vigilante que controle, através do medo da punição, o desvario dos financistas gananciosos e irresponsáveis. O papel de tutor ou polícia da economia deve retornar ao Estado.

Mas o mercado livre seria realmente livre? Não consigo acreditar nesta possibilidade. O mercado é um conceito idealizado que, na prática, é composto e exercido por seres humanos. E seres humanos, quando livres, tendem a ser guiados por vícios e repetições. Um grande vício humano é se mostrar irresponsável quando lhe é dada a liberdade. As pessoas não sabem o que fazer diante desta condição e, na maior parte das vezes, correspondem à convicção profundamente arraigada de que é perigoso não termos proibições. A antiga ilusão de que, sem um controle externo de uma autoridade, um acaba por fazer mal ao outro.

Mas o problema que enfrentamos atualmente é que o remédio apontado pelos especialistas já se mostrou ineficaz. O Estado, chamado para bem cuidar do convívio humano, assim como o mercado, é integrado por pessoas com os mesmos descontroles que aquelas a quem ele deveria regular. E os vícios de alguém investido do poder de controlar os outros, a história já apontou, são: corrupção, autoritarismo, violência e paralisia das ideias. Na verdade estamos trocando a crença no mercado livre pela crença no Estado livre. Sabemos que as duas são enganosas. Talvez a própria divisão entre sociedade e Estado se revele um engodo.

É possível que uma melhor resposta para a crise atual passe por sairmos do vaivém de liberdade e controle, liberalismo e estatismo. E não se trata de encontramos o bom equilíbrio entre presença estatal e economia livre, uma regulando a outra. Equilíbrio é outra coisa que não se aplica aos habitantes deste planeta. Este deve ser o momento dos seres humanos aprenderem a seguir em frente sendo responsáveis pela liberdade histórica que alcançaram.

Para entendermos porque, até este momento, não conseguimos avançar , talvez devêssemos olhar para o que deu errado em nossa trajetória de exercício da liberdade. O que nos frustrou, quais expectativas não se cumpriram, para que recuássemos, entrássemos em recessão e perdêssemos o entusiasmo anterior.

Usamos a liberdade financeira para seguir a promessa de que poderíamos facilmente nos tornar ricos e que a riqueza, entendida como o acúmulo de bens, nos levaria a um status social mais elevado do que os outros, que seríamos invejados e felizes. Da aposentada inglesa que aplicou economias em fundos islandeses que prometiam rendimentos exorbitantes aos americanos que hipotecaram suas casas e acreditaram em créditos sem limites, todos se entregaram sem questionamentos à promessa de fartura e sucesso.

E agora, facilmente apontamos os financistas mentirosos e seus bônus milionários como os culpados pela crise. A inocente e crédula população dos países ricos não tem nada a ver com o pato. Neste modelo de culpados e vítimas, seria fácil resolver a retração econômica: vigilância e cadeia para os agentes financeiros e fim dos seus imorais benefícios. Alguns planos lançados por governos (como o norte-americano) caminham nesta direção. É provável que não alcancem êxito.

A origem (e, por isto, também a solução) da crise pode estar relacionada ao outro termo cujo significado prático me escapa: economia real. Os financistas teriam criado uma economia artificial, especulativa, sem relação direta com a produção de bens reais e concretos. Mas a base de qualquer economia não é uma artificialidade, uma convenção baseada em um jogo de especulações e convencimentos? Nunca existiu precisão e objetividade na economia. Qual o valor real de qualquer produto? Por que uma bolsa Prada vale mais que um boneco de barro de um artesão do Nordeste brasileiro ou vice-versa? Porque alguém conseguiu convencer outros que assim deveria ser. O valor que os seres humanos atribuem às coisas não é fruto de uma matemática precisa. As demandas são as mais variadas e indefinidas. O que os distúrbios financeiros atuais escancararam foi a economia ficcional na qual sempre estivemos mergulhados.

Estamos vivendo uma crise de lastros. No desespero e na insegurança, estamos tentando fazer novamente sólidos castelos que há muito já ruíram, como o Estado regulador.

A crise começou com a perda de confiança na capacidade econômica dos americanos. Trata-se, portanto, de uma crise de convencimento. E todas as explicações que têm sido usadas pelos diferentes governos e analistas econômicos desde o início da turbulência parecem não nos convencer. Não vamos recuperar o entusiasmo com argumentos falidos.

No processo de recuperação, de nada adianta os países emergentes tentarem fazer suas economias avançar copiando a receita que faliu nos países ricos. Não dá mais para ser rico como antes: crescer a altas taxas anuais para dentro de dez ou vinte anos se deparar com a mesma crise das atuais nações desenvolvidas. Vai crescer e puxar os outros quem souber inventar uma maneira de criar entusiasmo, quem conseguir defender novas crenças que tenham maior poder de convencimento. O país que tiver a ousadia de arriscar novos caminhos e não ficar repetindo sistemas já furados do passado, como o neo-socialismo venezuelano ou outro estatismo qualquer.

Para sair da crise atual, talvez devêssemos encontrar alguma maneira de assumir a imaterialidade das nossas relações, sejam elas econômicas ou não. Mas o problema desta possibilidade é que ela demanda a reinvenção das nossas expectativas de satisfação, dos nossos modelos de felicidade. Em um mundo em que sabemos que os lugares sociais são imaginários e que a satisfação não depende dos produtos que adquirimos, mas que necessita ser criada por cada um, não há espaço para se viver tendo como meta apenas acumular bens e ter reconhecimento e fama.

Não sei ao certo como será o novo modelo de felicidade, mas algo me diz que duas categorias de seres humanos, por serem muito representativas do sistema em decadência, estão com as suas existências ameaçadas: os super-milionários e as celebridades.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O CALÍGULA DE CAMUS

Por ocasião da montagem da peça Calígula, do escritor franco-argelino Albert Camus, feita pelo diretor Gabriel Villela (ainda em cartaz em São Paulo), tive a oportunidade de ler a tradução do texto original feita pelo jornalista e dramaturgo Dib Carneiro. O texto me surpreendeu pela força e por trazer questões muito necessárias para os dias em que vivemos, uma atualidade que talvez o próprio Camus não pudesse prever ao escrever a peça no final da década de 30 do século passado. Segue, abaixo, um comentário sobre esta provocadora obra.

A leitura de Calígula, de Albert Camus, é uma experiência perturbadora. Ao final do texto, em um primeiro impulso diante do incômodo, fica-se com a vontade de ignorá-lo, de deixá-lo de lado. Mas o impacto persiste e cobra, é necessário se haver com ele. Se a obra perturba é porque questiona certezas que parecem organizadoras. Seria mais fácil se fosse possível enquadrar o personagem Calígula dentro de crenças estabelecidas. Se, de alguma forma, se conseguisse classificá-lo como louco, devasso, tirano, transtornado pela perda do amor, psicopata ou psicótico. Explicá-lo e defini-lo como doente e anormal. Assim, do mesmo modo que se retira um tumor, bastaria eliminar Calígula para que tudo ficasse bem. Aí se poderia ser solidário com os revoltosos que o matam no final da peça. Mas não. Assim como o personagem de Cipião, não se pode deixar de reconhecer que Calígula é sedutor e portador de alguma verdade íntima. O Calígula de Camus não é imoral, mas talvez amoral. É alguém que tenta ser livre, se colocar fora das regras, da moral, além do que é certo ou errado, do bem e do mal. Ele quer igualar as coisas, acabar com as diferenças ilusórias, mostrar o vazio essencial que nivela tudo. Uma força anárquica que zomba, questiona toda lei e ordem sobre as quais se tenta estruturar o mundo. Ele desnuda hipocrisias. Faz da moral uma máscara e não um rosto, uma realidade concreta. Os enganadores (ou quem sabe cegos) são os seus justiceiros que querem o retorno da razão, da ordem, de seus lugares imaginários de poder. Como Calígula aponta em um trecho do texto, o teatro tem este mesmo lugar de desconserto. Se um ator pode interpretar vários personagens, vestir várias máscaras sem se identificar com nenhuma delas, se todos podem ser deuses no palco, então não existe uma imagem definitiva, acabada. Mas a liberdade perseguida por Calígula, a quebra de certezas e de limites, assusta. A atualidade da obra de Camus talvez seja esta. A humanidade vive um época de liberdade sem igual na sua história. As crenças e as autoridades, tudo que organizava a sociedade perdeu ou está perdendo a consistência.Vive-se uma época de incertezas. Até a economia, o capital, que parecia o centro do mundo (como debocha Calígula), tem os seus dogmas abalados. As morais tradicionais faliram. As pessoas estão livres mas com medo. Calígula está mais vivo do que nunca, como é profetizado no final da peça. E não é mais possível ignorá-lo ou eliminá-lo com punhaladas. O que fazer: todos se tornarão loucos ou assassinos sem limites? É melhor viver na hipocrisia ou em um cinismo moralista e não querer saber do desejo do impossível que está dentro de cada um? O texto de Camus pode indicar uma alternativa. Há um personagem e uma condição que estão o tempo todo presentes, mesmo que através da ausência: a lua e a impossibilidade de tê-la. E talvez esta impossibilidade seja hoje a única verdade e chance de organização quando não dá mais para esconder Calígula debaixo de uma moral qualquer. A peça apresenta dois homens que lidam de maneiras diferentes com o impossível e com o desejo de reinventar o mundo. Os dois são senhores das coisas. Um é imperador, senhor dos corpos. O outro, Cipião, poeta, senhor das palavras. O escritor, o poeta, na sua ficção, guia o destino de seus personagens, pode fazê-los morrer se for este o seu capricho. Mas o imperador, por mais tirano que seja, se depara com a impossibilidade real de conquistar o mundo. Os corpos são sempre rebeldes a qualquer tentativa de dominá-los. Este corpo celeste, a lua, prova isto. E é com esta insatisfação que Calígula se depara no final. Mas é possível que o poeta tenha uma sorte melhor. Na ficção, na fantasia, se pode ter a lua, se pode dormir com ela. A única maneira de se ter a lua é poeticamente e não enquanto realidade concreta. Uma forma de ter o impossível e ao mesmo tempo manter o impossível.