Estamos vivendo uma época de liberdade sem igual na história da humanidade. Liberdade para pensar no que quisermos, para escolher a forma como gostaríamos de viver, com quem nos relacionar, qual profissão ter. A internet nos traz uma possibilidade de acesso a informações e opiniões jamais pensada anteriormente. Os governos autoritários e os controladores de plantão se desdobram em tentativas, na maior parte de vezes fracassadas, de lhe impor algum limite.
Mas a liberdade assusta. Muitos consideram que o ser humano não está preparado para conviver com esta falta de restrições. Associam um homem mais livre a um homem mais violento e destruidor. Precisamos de leis duras, de proibições e punições para podermos viver em sociedade. Somos selvagens em nossa essência, dependemos de regras para nos civilizarmos.
Temos a impressão de que a realidade confirma a expectativa acima. O mundo estaria cada vez mais violento, as pessoas mais perversas e corruptas, cada um querendo apenas garantir o seu sem se preocupar com o outro. Diante do caos, tem sido grande o clamor pela volta de uma autoridade rigorosa que ponha ordem na bagunça.
Os governantes, atentos à opinião pública e interessados em preservar uma boa imagem junto aos seus eleitores, se mostram decididos e fortes, apresentando, dia após dia, medidas restritivas à liberdade individual. As pessoas, em nome de sua segurança pessoal e de seus familiares, aceitam esta perda sem a menor queixa. Querem um estado regulador.
O Brasil, sempre correndo atrás, faz seu primeiro grande esforço para controlar o desvario dos seus cidadãos e ser um país sério, moderno e confiável. O presidente, alvo de maldosas insinuações sobre sua devoção etílica, assina a lei seca para motoristas. Tolerância zero com condutores mesmo que minimamente alcoolizados. Blitz com bafômetros nas ruas e a prisão de vários motoristas mostram que a coisa é pra valer. E as inquestionáveis estatísticas provam que a lei é correta e eficaz. Os dados revelam grande diminuição no número de acidentes, no de pessoas atendidas nos serviços de emergência dos hospitais e de mortes no trânsito. Até mesmo a violência doméstica teria caído. Ninguém pode ser contra tal realidade.
Mas não precisamos de estatísticas para saber que, se proibimos as pessoas de dirigirem sob efeito do álcool, teremos menos acidentes. É evidente que toda restrição alcança, pelo menos inicialmente, um efeito de controle. Se fechássemos todos os bares da cidade, ou melhor, se proibíssemos todos os jovens de saírem de casa à noite, conseguiríamos reduzir ainda mais o número das ocorrências violentas. E por que não fazê-lo, se a lógica é abrirmos mão da liberdade em nome da segurança? O que pode parecer um excesso hoje, pode muito bem se converter em uma norma amanhã, quando os efeitos iniciais começarem a se mostrar insuficientes. Segurança total exige restrição total.
A sociedade dorme mais tranqüila sabendo que eliminamos o grande culpado pela nossa violência no trânsito e em casa: o álcool. O problema da convicção na necessidade de rigor legal é, justamente, a rapidez e a facilidade, confirmadas por dados estatísticos óbvios, com que elegemos a causa dos nossos infortúnios. Não queremos saber de aprofundar a discussão sobre nosso mal-estar. Por que a maioria das pessoas bebe e não sai por aí agredindo terceiros? Por que se bebe e se consome tanta droga? Por que se usa tanto antidepressivo? Por que temos a expectativa de resolver nossas insatisfações apenas usando pílulas?
É mais fácil acharmos um inimigo exterior a nos responsabilizar pelo nosso descontrole. E parece que a segurança que esperamos do Estado é esta: que os governos nos protejam dos nossos malfeitores externos. Abrimos mão de nossa liberdade e a damos para os governos na esperança de que eles, assim, possam encontrar e aniquilar os vilões do mundo.
Contra motoristas bêbados e assassinos, abro mão do meu vinho no jantar, do meu chope no fim de tarde, de me divertir com amigos, do direito de não criar provas contra mim e não ser constrangido em uma blitz policial. Contra os terroristas, aceito que minha liberdade de ir e vir seja restringida e minha vida espionada. Contra os criminosos, aceito que se instalem câmeras por todo lado, prontas para flagrar os atos de delinqüência. Pelo combate aos dois últimos, faço vista grossa para a tortura, as prisões arbitrárias e as cenas de intolerância e preconceito.
Na Itália, os eleitores, em nome da segurança nacional, aplaudem a atitude do atual governo, acusado de corrupção, de estabelecer leis que garantam privilégios jurídicos para seus membros em troca de leis que persigam os inimigos da pátria: os imigrantes e principalmente os ciganos, que devem ser submetidos a um fichamento involuntário. Como podemos esquecer que foi na Itália que inicialmente ganhou forma a história de regimes autoritários que terminou nos crimes do nazismo?
Não podemos desconsiderar os exemplos do passado. Do mesmo modo que nas décadas de 20 e 30 do último século, hoje, também, países que outrora eram hegemônicos começam a perder a vitalidade e a ter sua supremacia ameaçada por emergentes da periferia. Em vez de se proporem uma renovação, uma mudança de paradigmas, os habitantes destes países preferem apontar um culpado pela sua decadência. O que nos atrapalha são os jovens que só querem saber de festas e drogas, os imigrantes e os terroristas muçulmanos como antes foram os judeus, os homossexuais e os comunistas. Os cidadãos passam a demandar governos fortes e enérgicos, que tragam fórmulas mágicas para recuperar o vigor econômico. Chega da lengalenga de esquerdistas românticos, queremos soluções práticas e concretas. Mais ordem, mais leis, mais proibições, mais polícia na rua.
Picaretas, covardes, enganadores e moralistas de todos os tipos se apresentam, então, como aqueles capacitados para a tarefa de limpar o mundo de seus males. Os canalhas estão no poder liderando governos, empresas ou outras instituições. Como países de população tão desenvolvida podem eleger pessoas como Bush ou Berlusconi? Do mesmo modo que os alemães, o povo mais iluminado e esclarecido da Europa, no passado, apoiaram Hitler.
Assim como na Alemanha nazista, encaramos com absoluta normalidade o fato de, a cada dia, a nossa liberdade individual estar sendo abolida em nome da segurança e do progresso. Os mesmos ideais higienistas, disfarçados de cientificismo e verdades matemáticas, embasam a cultura de saúde total e risco zero. Quem ousa ser contra a lei seca diante da redução nas estatísticas de acidentados? Como poucos alemães, no período pré-guerra, ousaram criticar Hitler e seus comparsas frente ao pujante crescimento econômico e bélico implementado por eles.
Sabemos como termina a busca por uma vida sem ameaças e pelo clamor a um outro que nos traga a segurança total. A história nos fornece exemplos recentes que mostram que, quando abrimos mão da responsabilidade pela nossa liberdade e a entregamos ao Estado, este se agiganta e se torna um monstro impulsivo que acaba encontrando, como única forma de controle, a destruição dos controlados. Talvez este seja o preço de não querermos saber do nosso mal-estar permanente e sem cura, de que não se pode viver sem riscos. Para se anular os riscos, somente anulando a nós mesmos.
O Brasil deveria aproveitar a oportunidade histórica e, em vez de, provincianamente, copiar modelos de proibição externos, bancar que seus cidadãos podem ser responsáveis pela liberdade que têm. É provável que, ao lado da riqueza única de nossa música popular, a liberdade que possuímos no país, mesmo com todos os custos sociais, seja o grande barato de experimentar a vida como brasileiro. Possivelmente vivemos em um dos países mais livres do mundo. Podemos interpretar isto negativamente, culpando a falta de rigor e controle por todo nosso atraso, violência e corrupção.
Mas podemos ser mais criativos e inverter a ordem das coisas. De quem copia modelos de desenvolvimento para quem ensina a possibilidade de viver feliz abrindo mão de governos fortes, restritivos e punitivos. Pode ser esta a nossa grande diferença em relação à China, por exemplo. Na história da humanidade, os países que defenderam a liberdade acabaram por tomar a dianteira. O novo surge onde há liberdade.
Em uma sociedade que se baseia em proibições, a satisfação está naquilo que é proibido. Beber onde reina a lei seca é muito mais gostoso. A civilização, assim, é vista como um empecilho para a nossa satisfação plena. É um mal necessário, que nos controla e nos dá limite. Mas no fundo, invejamos os libertinos e os criminosos, aqueles que arriscam ser imorais e viver fora-da-lei. Neste mundo, queremos, de forma oculta, a destruição da civilização.
Mas podemos perceber a civilização não como aquilo que nos castra, que nos impede de encontrar a felicidade, mas como a única possibilidade de encontrar satisfação. Quando vencemos as proibições, encontramos apenas frustração e vazio, nunca a realização prometida. Sabemos, por experiência própria, que aquilo que antes não nos era permitido perde a graça quando está ao nosso alcance.
A felicidade não está naquilo que não podemos ter. Ela só pode ser inventada e nunca é total. E a civilização é que nos fornece as ferramentas para inventarmos. Além dela, só existe o nada. Assim, podemos amar a civilização.
Toda invenção é um risco. Se buscamos a segurança total ficamos imobilizados pelo medo paranóico e perdemos a possibilidade de inventar, de brincar e ter alegria. Não seria este, por fim, o objetivo das leis secas? A inveja de moralistas envelhecidos desejosos de acabar com a alegria do mundo?
quinta-feira, 17 de julho de 2008
sábado, 28 de junho de 2008
REBELAR-SE
Uma questão que ouço com freqüência é sobre como se pode ser rebelde ou inovador no mundo de hoje. Tem-se a impressão de que não existe mais lugar para movimentos de vanguarda, que tudo que tinha de ser criado já o foi. Caberia à sociedade atual apenas fazer variações e novas associações entre as coisas já inventadas. Todo ato de rebeldia nos parece datado, artificial e inócuo. As novidades já chegam velhas.
Em qualquer área, seja na política, na ciência, nos comportamentos sociais ou nas artes, inovação e rebeldia significam romper com o padrão vigente e propor uma alternativa. Um movimento inovador defende que determinada verdade caducou e oferece uma nova maneira de perceber a realidade. As vanguardas surgem a partir de indivíduos ou de grupos pequenos, e são, no começo, marginalizadas e alvo de repressão. Depois, com o tempo, elas ganham adeptos e, como em uma epidemia, acabam por levar à falência a estrutura anterior, tornando o seu novo modelo preponderante até que, também, seus conceitos se tornem obsoletos e sejam substituídos.
No mundo de hoje, temos a impressão de não haver mais padrões fixos ou hegemônicos. Não existe, por exemplo, um modelo de arte que se coloque como superior e estabeleça que obras são boas ou ruins. Pode-se ser concretista, conceitualista, neocubista, dadaísta, abstracionista, naturalista. Pode-se percorrer várias escolas e não ser classificado em nenhumas delas. Os comportamentos e as verdades são relativos, não temos mais um conjunto de normas definido e seguro sobre o que é certo ou errado fazer. Se não conseguimos mais enxergar um modelo estabelecido, não podemos, então, ter movimentos de rebeldia. Não existe algo para ser derrubado. Todas as verdades são bem vindas, pois nenhuma vale mais que a outra e nenhuma vale muita coisa. Chegou ao fim a história das utopias e das revoluções. Che Guevara não bota mais medo em ninguém, o mercado acolhe e faz festa com a sua imagem.
No mundo globalizado, temos de ser práticos e contar com dados objetivos. Nada das ilusões e do blablablá do passado. Ser prático significa ter um bom emprego, conseguir ganhar o máximo de dinheiro que se puder, ter casa própria, ter planos de saúde e de aposentadoria, ter uma reserva econômica para o estudo dos filhos ou para momentos difíceis. Deve-se garantir a segurança financeira pessoal e a dos familiares. Se sobrar um pouco, pode-se ter um pouco de prazer comprando um carro bacana, fazendo uma viagem ao exterior ou adquirindo algumas peças de roupa de uma grife famosa.
A segurança e o prazer seguem a mesma condição: é preciso ter dinheiro para comprá-los. E a melhor forma de ganhar dinheiro é tendo sucesso naquilo que faço. Ter sucesso quer dizer possuir muitos clientes. O desempenho deve ser medido por critérios matemáticos objetivos. Qual a porcentagem de vendas, qual o lucro, qual o ibope que meu trabalho trouxe. Se tenho sucesso, sou um vencedor. Caso não consiga seduzir os consumidores para os meus produtos, sou um fracassado, um loser.
Como o importante na vida é assegurar o conforto econômico, tenho de me submeter às regras. Em uma empresa devo me comportar de forma adestrada, vestir a camisa, dedicar-me totalmente aos objetivos e às vendas a serem alcançados. Nada de reclamar do excesso de trabalho, dos treinamentos imbecilizantes ou do sadismo dos chefes. Nada de querer dar muitas opiniões. Qualquer dúvida se resolve com uma pesquisa de mercado. Os departamentos de inteligência encontrarão a verdade dos fatos. Uma idéia só será boa se os números mostrarem um desempenho positivo, se o mercado a acolher. E quem detém a sabedoria de interpretação dos dados, quem avalia e diz se valeu ou não e estabelece os objetivos, são os departamentos financeiros das empresas. Só os magos que lá trabalham conhecem o segredo impenetrável das fórmulas de matemática econômica.
Mesmo não entendendo o porquê dos resultados, os números não mentem e todos devem segui-los sem questioná-los. No fundo, a empresa não precisa de você. Todos são descartáveis e substituíveis. Mas se agüentar bonzinho, seu sofrimento e dedicação serão recompensados com uma gratificação no final do ano e uma festinha para comemorar os resultados com bebida free e show com uma banda famosa da Bahia. Talvez, poderá até mesmo ganhar, como prêmio, uma viagem para Buenos Aires. Mas, depois, lembre-se: você não vem de uma família rica, a empresa lhe paga o plano de saúde e de previdência privada, dá vale-transporte e vale-refeição e a oferta de trabalho não está nada boa.
A mesma lógica acima pode ser aplicada nas outras áreas da atividade humana. Advogados vencedores são aqueles com muitos clientes e com o maior número possível de bens acumulados. Pouco importa se a causa que eles defendem é justa ou não. O importante é a fama e o retorno econômico que ela traz. Médicos bem sucedidos devem conhecer medicina baseada em evidências. A experiência clínica é enganosa, deve-se confiar apenas nos resultados estatísticos de pesquisas científicas. E não se pode questionar estes resultados, mesmo que eles venham de testes financiados pela indústria farmacêutica, em condições, na maioria das vezes, muito distantes do dia-a-dia dos consultórios. Aqui, também, a matemática não mente. E, além do mais, recebe-se uma boa ajuda dos laboratórios. Eles, talvez, convidem você para dar palestras pelo país e, assim, poderá ficar conhecido e ter mais clientes. Se for dedicado na prescrição, ganhará como brinde uma viagem para um congresso no exterior. Terá de assistir a algumas palestras entediantes que repetirão à exaustão os mesmos gráficos e tabelas que não lhe são nem um pouco compreensíveis. De qualquer forma, você já decorou alguns nomes de termos estatísticos, dos dogmas que dizem se determinada droga é superior ao placebo, para uma conversa rápida com o colega ao lado. Mas, depois de marcar presença e fazer cara de sério, poderá ter alguma satisfação fugindo para o outlet mais perto. E, à noite, com sorte, assistirá, depois do jantar oferecido pelo laboratório, a um musical da Broadway ou a uma apresentação do Cirque du Soleil. Se der tempo, conseguirá ainda ir ver a Mona Lisa ou fazer o roteiro de O Código Da Vinci. Tudo isto pra contar pros amigos e colegas que não têm o mesmo prestígio que os laboratórios lhe concedem. E os pacientes também ficam alegres em receber remédios de última geração que custam uma fortuna, em serem submetidos a modernos e dispendiosos exames médicos. Pra que abrir mão disto? Pense no que poderá perder se for mais crítico.
Um governo para ser considerado bom deve promover o crescimento econômico de seu país. Sucesso é ter uma alta taxa de crescimento do PIB. Todos querem ser a China, a superpotência do futuro, que cresce mais de 10% ao ano. Não é relevante se o país é autoritário ou não. Suas cidades cosmopolitas, com grandiosas torres de escritórios e as legiões de novos milionários são irrefutáveis. Seu regime político rígido deveria até ser copiado por países pobres, como uma forma de colocar ordem na bagunça e trazer investimentos.
Em um mundo onde o que vale é o poder de consumo, milhões de pessoas abandonam seus países de origem em busca de uma melhor condição econômica. Terminam como imigrantes ilegais submetidos a várias formas de humilhação e acusados de todos os problemas que os países ricos enfrentam.
A área cultural, que outrora foi a fonte de vários movimentos de renovação, também se curva às demandas do mercado. Nas artes plásticas, avalia-se um artista pelo valor de venda de suas obras. Fulano de tal está em alta se um quadro seu foi arrematado por milhões no último leilão da Sotheby’s. Obras de arte têm a mesma utilidade de barras de ouro. São investimentos e reservas econômicas. Se estão em exposição, são como uma paisagem qualquer. Servem de entretenimento para as massas que procuram se ocupar com alguma coisa quando não estão batalhando pelo seu dinheirinho. Como passear no shopping novo. Na literatura, os autores mais importantes são aqueles que escrevem best sellers. Alguém merece ser um imortal da Academia de Letras apenas porque ninguém vende mais livros do que ele.
Um ator de sucesso deve estar em uma novela que dê muito ibope. Pouco importa se o personagem e as falas são idiotas. No começo do mês tenho a segurança de um salário gordo. Ainda sou chamado para comerciais e eventos e aumento a minha conta no banco. Vendo a minha imagem para ser usada em uma propaganda de sopas para emagrecer e cobro caro para ser a estrela da festa de debutante da filha de um rico empresário do interior. Faço uma concessão ao mercado para juntar dinheiro para comprar meu apartamento e depois, com segurança, vou poder me dedicar aos trabalhos nos quais realmente acredito e que me dão prazer. Mas, com o tempo, vou adiando o meu plano, pois ainda sou jovem, tenho de aproveitar meus apelos físicos, o fato de ainda ter beleza. Vou precisar de um apartamento maior, de uma reserva mais polpuda. Se largar agora pode ser que não consiga mais ir ao restaurante da moda, posso ficar desprestigiado, as revistas não vão mais falar de mim, vou perder oportunidades. E depois, ninguém dá valor à arte, artista é marginalizado, no fundo as pessoas só querem consumir porcaria. E, com os anos, chego à conclusão de que estou velho demais para bancar um projeto meu, de querer recuperar ilusões. Tenho de pensar que vou me aposentar logo, que não existem papéis para atores idosos. E velho gasta muito com saúde, melhor tirar e garantir o máximo agora para não faltar depois.
Pode ser legítima a escolha de dedicar a vida à busca de uma promessa nunca alcançada de encontrar a segurança econômica. É um caminho que, no passado, representou uma renovação em relação ao mundo estruturado a partir da autoridade religiosa. Seu problema é se apresentar como algo definitivo, como o fim da história das inovações. Como se não houvesse outra possibilidade, como se toda rebeldia, toda vanguarda fosse neutra e banal, apenas mais uma mercadoria.
O mercado pode não ter um rosto definido contra o qual nos rebelarmos. Mas suas verdades estão impregnadas em nós. Talvez, ser rebelde no mundo de hoje seja não se convencer da verdade da obrigação de uma vida prática. De se alcançar a segurança econômica para se ter a coragem de arriscar uma invenção. Não concordar com aqueles que dizem: Não tem jeito, o mundo é assim, é bobagem querer pensar diferente, aceite as regras. Ser revolucionário em 2008 significa duvidar das certezas matemáticas e enfrentar o medo das perdas. Em suportar o ridículo que é bancar uma utopia, uma ilusão.
Mas nossa rebeldia tem de valer. Não pelos critérios de sucesso econômico e de público, mas por nos trazer a experiência de felicidade. Se desanimamos no meio do caminho, se recuamos, se nos tornamos infelizes, solitários ou queixosos, nossa invenção não irá contaminar os outros. E, assim, a impossibilidade de nos renovarmos, de fazermos a história andar, permanece. Para fazer valer uma rebeldia temos de estar tomados pela necessidade do novo.
O novo não é o produto mais novo, mais moderno, os novos lançamentos que o mercado continuamente produz. O novo, também, não é o contrário, não é a recuperação de modelos antigos e não é encontrado através de fórmulas prontas. Não é a pobreza e não é o fundamentalismo religioso. Nem o neomarxismo, o neodarwinismo ou neoliberalismo. Não é muito menos sermos novos punks, novos hippies ou novos baianos. O novo é inventado e só é reconhecido como tal posteriormente. Vem sem garantias e assusta. Necessitamos de novos corajosos.
Em qualquer área, seja na política, na ciência, nos comportamentos sociais ou nas artes, inovação e rebeldia significam romper com o padrão vigente e propor uma alternativa. Um movimento inovador defende que determinada verdade caducou e oferece uma nova maneira de perceber a realidade. As vanguardas surgem a partir de indivíduos ou de grupos pequenos, e são, no começo, marginalizadas e alvo de repressão. Depois, com o tempo, elas ganham adeptos e, como em uma epidemia, acabam por levar à falência a estrutura anterior, tornando o seu novo modelo preponderante até que, também, seus conceitos se tornem obsoletos e sejam substituídos.
No mundo de hoje, temos a impressão de não haver mais padrões fixos ou hegemônicos. Não existe, por exemplo, um modelo de arte que se coloque como superior e estabeleça que obras são boas ou ruins. Pode-se ser concretista, conceitualista, neocubista, dadaísta, abstracionista, naturalista. Pode-se percorrer várias escolas e não ser classificado em nenhumas delas. Os comportamentos e as verdades são relativos, não temos mais um conjunto de normas definido e seguro sobre o que é certo ou errado fazer. Se não conseguimos mais enxergar um modelo estabelecido, não podemos, então, ter movimentos de rebeldia. Não existe algo para ser derrubado. Todas as verdades são bem vindas, pois nenhuma vale mais que a outra e nenhuma vale muita coisa. Chegou ao fim a história das utopias e das revoluções. Che Guevara não bota mais medo em ninguém, o mercado acolhe e faz festa com a sua imagem.
No mundo globalizado, temos de ser práticos e contar com dados objetivos. Nada das ilusões e do blablablá do passado. Ser prático significa ter um bom emprego, conseguir ganhar o máximo de dinheiro que se puder, ter casa própria, ter planos de saúde e de aposentadoria, ter uma reserva econômica para o estudo dos filhos ou para momentos difíceis. Deve-se garantir a segurança financeira pessoal e a dos familiares. Se sobrar um pouco, pode-se ter um pouco de prazer comprando um carro bacana, fazendo uma viagem ao exterior ou adquirindo algumas peças de roupa de uma grife famosa.
A segurança e o prazer seguem a mesma condição: é preciso ter dinheiro para comprá-los. E a melhor forma de ganhar dinheiro é tendo sucesso naquilo que faço. Ter sucesso quer dizer possuir muitos clientes. O desempenho deve ser medido por critérios matemáticos objetivos. Qual a porcentagem de vendas, qual o lucro, qual o ibope que meu trabalho trouxe. Se tenho sucesso, sou um vencedor. Caso não consiga seduzir os consumidores para os meus produtos, sou um fracassado, um loser.
Como o importante na vida é assegurar o conforto econômico, tenho de me submeter às regras. Em uma empresa devo me comportar de forma adestrada, vestir a camisa, dedicar-me totalmente aos objetivos e às vendas a serem alcançados. Nada de reclamar do excesso de trabalho, dos treinamentos imbecilizantes ou do sadismo dos chefes. Nada de querer dar muitas opiniões. Qualquer dúvida se resolve com uma pesquisa de mercado. Os departamentos de inteligência encontrarão a verdade dos fatos. Uma idéia só será boa se os números mostrarem um desempenho positivo, se o mercado a acolher. E quem detém a sabedoria de interpretação dos dados, quem avalia e diz se valeu ou não e estabelece os objetivos, são os departamentos financeiros das empresas. Só os magos que lá trabalham conhecem o segredo impenetrável das fórmulas de matemática econômica.
Mesmo não entendendo o porquê dos resultados, os números não mentem e todos devem segui-los sem questioná-los. No fundo, a empresa não precisa de você. Todos são descartáveis e substituíveis. Mas se agüentar bonzinho, seu sofrimento e dedicação serão recompensados com uma gratificação no final do ano e uma festinha para comemorar os resultados com bebida free e show com uma banda famosa da Bahia. Talvez, poderá até mesmo ganhar, como prêmio, uma viagem para Buenos Aires. Mas, depois, lembre-se: você não vem de uma família rica, a empresa lhe paga o plano de saúde e de previdência privada, dá vale-transporte e vale-refeição e a oferta de trabalho não está nada boa.
A mesma lógica acima pode ser aplicada nas outras áreas da atividade humana. Advogados vencedores são aqueles com muitos clientes e com o maior número possível de bens acumulados. Pouco importa se a causa que eles defendem é justa ou não. O importante é a fama e o retorno econômico que ela traz. Médicos bem sucedidos devem conhecer medicina baseada em evidências. A experiência clínica é enganosa, deve-se confiar apenas nos resultados estatísticos de pesquisas científicas. E não se pode questionar estes resultados, mesmo que eles venham de testes financiados pela indústria farmacêutica, em condições, na maioria das vezes, muito distantes do dia-a-dia dos consultórios. Aqui, também, a matemática não mente. E, além do mais, recebe-se uma boa ajuda dos laboratórios. Eles, talvez, convidem você para dar palestras pelo país e, assim, poderá ficar conhecido e ter mais clientes. Se for dedicado na prescrição, ganhará como brinde uma viagem para um congresso no exterior. Terá de assistir a algumas palestras entediantes que repetirão à exaustão os mesmos gráficos e tabelas que não lhe são nem um pouco compreensíveis. De qualquer forma, você já decorou alguns nomes de termos estatísticos, dos dogmas que dizem se determinada droga é superior ao placebo, para uma conversa rápida com o colega ao lado. Mas, depois de marcar presença e fazer cara de sério, poderá ter alguma satisfação fugindo para o outlet mais perto. E, à noite, com sorte, assistirá, depois do jantar oferecido pelo laboratório, a um musical da Broadway ou a uma apresentação do Cirque du Soleil. Se der tempo, conseguirá ainda ir ver a Mona Lisa ou fazer o roteiro de O Código Da Vinci. Tudo isto pra contar pros amigos e colegas que não têm o mesmo prestígio que os laboratórios lhe concedem. E os pacientes também ficam alegres em receber remédios de última geração que custam uma fortuna, em serem submetidos a modernos e dispendiosos exames médicos. Pra que abrir mão disto? Pense no que poderá perder se for mais crítico.
Um governo para ser considerado bom deve promover o crescimento econômico de seu país. Sucesso é ter uma alta taxa de crescimento do PIB. Todos querem ser a China, a superpotência do futuro, que cresce mais de 10% ao ano. Não é relevante se o país é autoritário ou não. Suas cidades cosmopolitas, com grandiosas torres de escritórios e as legiões de novos milionários são irrefutáveis. Seu regime político rígido deveria até ser copiado por países pobres, como uma forma de colocar ordem na bagunça e trazer investimentos.
Em um mundo onde o que vale é o poder de consumo, milhões de pessoas abandonam seus países de origem em busca de uma melhor condição econômica. Terminam como imigrantes ilegais submetidos a várias formas de humilhação e acusados de todos os problemas que os países ricos enfrentam.
A área cultural, que outrora foi a fonte de vários movimentos de renovação, também se curva às demandas do mercado. Nas artes plásticas, avalia-se um artista pelo valor de venda de suas obras. Fulano de tal está em alta se um quadro seu foi arrematado por milhões no último leilão da Sotheby’s. Obras de arte têm a mesma utilidade de barras de ouro. São investimentos e reservas econômicas. Se estão em exposição, são como uma paisagem qualquer. Servem de entretenimento para as massas que procuram se ocupar com alguma coisa quando não estão batalhando pelo seu dinheirinho. Como passear no shopping novo. Na literatura, os autores mais importantes são aqueles que escrevem best sellers. Alguém merece ser um imortal da Academia de Letras apenas porque ninguém vende mais livros do que ele.
Um ator de sucesso deve estar em uma novela que dê muito ibope. Pouco importa se o personagem e as falas são idiotas. No começo do mês tenho a segurança de um salário gordo. Ainda sou chamado para comerciais e eventos e aumento a minha conta no banco. Vendo a minha imagem para ser usada em uma propaganda de sopas para emagrecer e cobro caro para ser a estrela da festa de debutante da filha de um rico empresário do interior. Faço uma concessão ao mercado para juntar dinheiro para comprar meu apartamento e depois, com segurança, vou poder me dedicar aos trabalhos nos quais realmente acredito e que me dão prazer. Mas, com o tempo, vou adiando o meu plano, pois ainda sou jovem, tenho de aproveitar meus apelos físicos, o fato de ainda ter beleza. Vou precisar de um apartamento maior, de uma reserva mais polpuda. Se largar agora pode ser que não consiga mais ir ao restaurante da moda, posso ficar desprestigiado, as revistas não vão mais falar de mim, vou perder oportunidades. E depois, ninguém dá valor à arte, artista é marginalizado, no fundo as pessoas só querem consumir porcaria. E, com os anos, chego à conclusão de que estou velho demais para bancar um projeto meu, de querer recuperar ilusões. Tenho de pensar que vou me aposentar logo, que não existem papéis para atores idosos. E velho gasta muito com saúde, melhor tirar e garantir o máximo agora para não faltar depois.
Pode ser legítima a escolha de dedicar a vida à busca de uma promessa nunca alcançada de encontrar a segurança econômica. É um caminho que, no passado, representou uma renovação em relação ao mundo estruturado a partir da autoridade religiosa. Seu problema é se apresentar como algo definitivo, como o fim da história das inovações. Como se não houvesse outra possibilidade, como se toda rebeldia, toda vanguarda fosse neutra e banal, apenas mais uma mercadoria.
O mercado pode não ter um rosto definido contra o qual nos rebelarmos. Mas suas verdades estão impregnadas em nós. Talvez, ser rebelde no mundo de hoje seja não se convencer da verdade da obrigação de uma vida prática. De se alcançar a segurança econômica para se ter a coragem de arriscar uma invenção. Não concordar com aqueles que dizem: Não tem jeito, o mundo é assim, é bobagem querer pensar diferente, aceite as regras. Ser revolucionário em 2008 significa duvidar das certezas matemáticas e enfrentar o medo das perdas. Em suportar o ridículo que é bancar uma utopia, uma ilusão.
Mas nossa rebeldia tem de valer. Não pelos critérios de sucesso econômico e de público, mas por nos trazer a experiência de felicidade. Se desanimamos no meio do caminho, se recuamos, se nos tornamos infelizes, solitários ou queixosos, nossa invenção não irá contaminar os outros. E, assim, a impossibilidade de nos renovarmos, de fazermos a história andar, permanece. Para fazer valer uma rebeldia temos de estar tomados pela necessidade do novo.
O novo não é o produto mais novo, mais moderno, os novos lançamentos que o mercado continuamente produz. O novo, também, não é o contrário, não é a recuperação de modelos antigos e não é encontrado através de fórmulas prontas. Não é a pobreza e não é o fundamentalismo religioso. Nem o neomarxismo, o neodarwinismo ou neoliberalismo. Não é muito menos sermos novos punks, novos hippies ou novos baianos. O novo é inventado e só é reconhecido como tal posteriormente. Vem sem garantias e assusta. Necessitamos de novos corajosos.
segunda-feira, 9 de junho de 2008
CELEBRIDADES
Nas matérias publicadas pela imprensa sobre o livro O Mago, a biografia do escritor Paulo Coelho escrita pelo jornalista Fernando Morais, um fato me chamou a atenção: o foco de quase todas as reportagens foram as aventuras sexuais do biografado, principalmente aquelas que se acredita menos convencionais, como as suas experiências homossexuais. Quase nada sobre o seu desenvolvimento como escritor ou em relação ao seu método criativo.
Tanto os departamentos de marketing das editoras quanto os profissionais da mídia sabem que destacar os aspectos picantes de uma biografia dá mais ibope. Há que se salientar as transgressões, os vícios e o lado oculto da personalidade para se vender bem.
Se vende mais, é porque supõe-se que seja isto que as pessoas querem saber e consumir. Então, temos uma enorme oferta de livros, revistas, programas de televisão e sites de fofoca. E quem alimenta este gigantesco mercado? Uma criação recente da humanidade: as celebridades.
Podemos tentar definir uma celebridade como alguém que tenha um destaque na imprensa muito maior do que a qualidade do trabalho que realiza. Muitas vezes não sabemos sequer o que a pessoa faz. Mas isto não quer dizer que elas não tenham seu mérito. Seu valor é justamente conseguir ser uma celebridade, oferecer uma imagem que os outros desejam comprar. Muitos tentam ser uma celebridade –talvez esta seja uma das atividades mais disputadas na atualidade- mas poucos conseguem.
Se importa menos a obra que a imagem, a primeira coisa que uma celebridade deve fazer é criar um personagem. Paulo Coelho, por exemplo, é o mago. Nas revistas, o vemos sempre de preto, participando de rituais ou peregrinando por lugares místicos. Depois, como em uma novela, a celebridade deve permitir que acompanhemos pela mídia sua intimidade , que conheçamos sua casa, que saibamos de suas conquistas, de seus romances e, principalmente, de suas dores.
Uma fofoca é essencialmente isto: onde o outro derrapa, quando sua imagem cai. Mais do que a visão de uma vida ideal, cheia de realizações e felicidade, o que esperamos consumir de uma celebridade são as suas desgraças. Adoramos saber dos seus pecados e das suas mentiras. Temos prazer em desmascarar nossos ídolos, em desmistificar nossos mitos.
Algumas celebridades satisfazem esta nossa vontade já no princípio de suas carreiras. Vide as que são constantemente flagradas usando drogas, fazendo barraco ou sendo internadas em clínicas de reabilitação. Outras são perseguidas por repórteres de programas humorísticos que armam, para deleite da audiência, pegadinhas que humilham os famosos. E, de forma mais discreta, temos as celebridades que promovem biografias autorizadas com confissões de pequenos deslizes. Mas logo correm o risco de serem alvo de investigações e revelações não autorizadas que joguem por terra a sua boa imagem.
Não agimos assim porque queremos que pessoas famosas sejam iguais a nós, em nossa imperfeição, ou porque desejamos humanizá-las. Nossa inveja visa, ao contrário, manter a promessa de um mundo ideal. Só podemos manter aquecido o mercado de ídolos se rapidamente substituímos uns pelos outros. Como um telefone celular. Logo, aquele que era o mais moderno, o mais bacana, já mostrou as suas deficiências, já ficou obsoleto. Celebridades devem ser descartáveis. Como não existe uma obra que as sustente, quando, inevitavelmente, a sua imagem despenca, elas acompanham a queda.
Mas este deve ser o preço que as celebridades optam por pagar. Elas preferem o sucesso, mesmo que passageiro, mesmo que por 15 minutos, ainda em vida. Nada de correr o risco de uma obra cujo reconhecimento virá apenas após a morte do autor.
Pode-se dedicar a vida ao esforço inútil de tentar se construir uma imagem que seja reconhecida, amada, pelo outros. Outra opção é entregar-se à invenção de algo que exista para além do corpo de quem o criou. Uma criação que não demanda reconhecimento, mas tentativas sem fim de interpretação. Como uma rocha cujo mistério a razão humana nunca consegue totalmente apreender, explicar. Uma obra sempre prenhe do novo, que permanece e imortaliza aquele que a trouxe ao mundo.
Um biografia, bem ao estilo atual, poderia revelar que Shakespeare tinha taras sexuais, mau hálito e era anti-semita. A imagem que temos dele poderia desabar. Mas a cada apresentação de Noite de Reis, Hamlet ou de A Comédia dos Erros, sua existência será novamente celebrada.
Tanto os departamentos de marketing das editoras quanto os profissionais da mídia sabem que destacar os aspectos picantes de uma biografia dá mais ibope. Há que se salientar as transgressões, os vícios e o lado oculto da personalidade para se vender bem.
Se vende mais, é porque supõe-se que seja isto que as pessoas querem saber e consumir. Então, temos uma enorme oferta de livros, revistas, programas de televisão e sites de fofoca. E quem alimenta este gigantesco mercado? Uma criação recente da humanidade: as celebridades.
Podemos tentar definir uma celebridade como alguém que tenha um destaque na imprensa muito maior do que a qualidade do trabalho que realiza. Muitas vezes não sabemos sequer o que a pessoa faz. Mas isto não quer dizer que elas não tenham seu mérito. Seu valor é justamente conseguir ser uma celebridade, oferecer uma imagem que os outros desejam comprar. Muitos tentam ser uma celebridade –talvez esta seja uma das atividades mais disputadas na atualidade- mas poucos conseguem.
Se importa menos a obra que a imagem, a primeira coisa que uma celebridade deve fazer é criar um personagem. Paulo Coelho, por exemplo, é o mago. Nas revistas, o vemos sempre de preto, participando de rituais ou peregrinando por lugares místicos. Depois, como em uma novela, a celebridade deve permitir que acompanhemos pela mídia sua intimidade , que conheçamos sua casa, que saibamos de suas conquistas, de seus romances e, principalmente, de suas dores.
Uma fofoca é essencialmente isto: onde o outro derrapa, quando sua imagem cai. Mais do que a visão de uma vida ideal, cheia de realizações e felicidade, o que esperamos consumir de uma celebridade são as suas desgraças. Adoramos saber dos seus pecados e das suas mentiras. Temos prazer em desmascarar nossos ídolos, em desmistificar nossos mitos.
Algumas celebridades satisfazem esta nossa vontade já no princípio de suas carreiras. Vide as que são constantemente flagradas usando drogas, fazendo barraco ou sendo internadas em clínicas de reabilitação. Outras são perseguidas por repórteres de programas humorísticos que armam, para deleite da audiência, pegadinhas que humilham os famosos. E, de forma mais discreta, temos as celebridades que promovem biografias autorizadas com confissões de pequenos deslizes. Mas logo correm o risco de serem alvo de investigações e revelações não autorizadas que joguem por terra a sua boa imagem.
Não agimos assim porque queremos que pessoas famosas sejam iguais a nós, em nossa imperfeição, ou porque desejamos humanizá-las. Nossa inveja visa, ao contrário, manter a promessa de um mundo ideal. Só podemos manter aquecido o mercado de ídolos se rapidamente substituímos uns pelos outros. Como um telefone celular. Logo, aquele que era o mais moderno, o mais bacana, já mostrou as suas deficiências, já ficou obsoleto. Celebridades devem ser descartáveis. Como não existe uma obra que as sustente, quando, inevitavelmente, a sua imagem despenca, elas acompanham a queda.
Mas este deve ser o preço que as celebridades optam por pagar. Elas preferem o sucesso, mesmo que passageiro, mesmo que por 15 minutos, ainda em vida. Nada de correr o risco de uma obra cujo reconhecimento virá apenas após a morte do autor.
Pode-se dedicar a vida ao esforço inútil de tentar se construir uma imagem que seja reconhecida, amada, pelo outros. Outra opção é entregar-se à invenção de algo que exista para além do corpo de quem o criou. Uma criação que não demanda reconhecimento, mas tentativas sem fim de interpretação. Como uma rocha cujo mistério a razão humana nunca consegue totalmente apreender, explicar. Uma obra sempre prenhe do novo, que permanece e imortaliza aquele que a trouxe ao mundo.
Um biografia, bem ao estilo atual, poderia revelar que Shakespeare tinha taras sexuais, mau hálito e era anti-semita. A imagem que temos dele poderia desabar. Mas a cada apresentação de Noite de Reis, Hamlet ou de A Comédia dos Erros, sua existência será novamente celebrada.
sábado, 31 de maio de 2008
POR QUE GOSTEI DE SPEED RACER
Tenho poucas lembranças do desenho animado “Speed Racer”, no qual o filme atual com o mesmo título se baseia. Recordo apenas que gostava, que Speed Racer usava lenço no pescoço e que havia corridas de carro tensas. Assistir ao filme não aumentou muito meu repertório de recordações, com exceção do macaco Zequinha. Mas saí do cinema com a gostosa sensação de ter revivido uma alegria perdida na infância.
Não é a mesma sensação de divertimento que brincar em um parque infantil traz ou que um filme para crianças provoca. Acredito que, mais do que para crianças, “Speed Racer" é um filme para adultos. Ao assisti-lo, reencontramos um encantamento que os compromissos de uma vida adulta nos fazem temer e esquecer. E este reencontro pode indicar uma saída para alguns impasses que vivemos hoje.
A cada dia a realidade nos atropela com fatos que nos fazem perder qualquer esperança em relação aos seres humanos. Filhos que matam os pais apenas para receber a herança, pai que mantém a filha encarcerada, por décadas, em um porão, países que invadem outros apenas por interesses econômicos. Como, diante de problemas tão sérios, alguém pode ficar perdendo tempo fazendo filmes bobos e cheios de ilusões infantis como “Speed Racer”? Os seus realizadores, os Irmãos Wachowski, também não vivem em uma sociedade em que a violência aumenta, onde os alimentos estão acabando e a natureza está sendo destruída pela ambição e consumismo humanos? Não percebem que precisamos de sobriedade e muito realismo para lidarmos com estes sérios desafios?
Vivemos em um mundo em que ter fantasias é cafona, um atraso, uma tolice. Geniais, verdadeiras e sinceras são as obras que nos mostram que o ser humano é mau e corrupto em sua essência. Os grandes filmes estão cheios de violência, desonestidade e destruição.
“Speed Racer” vai na contramão do ceticismo. Em um universo lúdico, com a ajuda do irmão Gorducho e do macaco Zequinha, o jovem Speed Racer luta por aquilo em que acredita. Não cede às pressões cínicas, não se vende. Recusa a acreditar que, no fundo, tudo é uma armação, que só os interesses econômicos contam e que todos têm o seu preço. Não teme as ameaças, maior é a sua honra. Segue em frente com o seu desejo, supera os vilões e desesperadamente, perdido em um túnel de cores e luzes, encontra a vitória. Uma das mais bonitas cenas de realização que já vi no cinema.Vibrei junto com Speed Racer.
O filme é ainda mais interessante se o compararmos com a obra anterior dos Irmãos Wachowski, a trilogia “Matrix”. Nela havia o temor diante dos inimigos, os diálogos eram sérios e existia a oposição entre mundo real e mundo virtual. Em “Speed Racer” esta dualidade não existe e parece que os irmãos optaram por escolher o mundo virtual como o vencedor. Se tudo é ficção, perdemos a seriedade e o medo. Podemos brincar, manter as fantasias de criança.
Se tirarmos as ilusões do homem não vamos encontrar em sua essência uma alma boazinha ou vil. Vamos encontrar um vazio. Não precisamos mais, como no passado, de filmes ou livros que nos revelem isto. Hoje, a realidade já supera, em sua crueza, qualquer invenção humana. Uma obra de arte, para ser inovadora, deve nos apontar soluções. De forma surpreendente, em sua infantilidade, “Speed Racer” oferece um caminho. Viva a macaquice.
Não é a mesma sensação de divertimento que brincar em um parque infantil traz ou que um filme para crianças provoca. Acredito que, mais do que para crianças, “Speed Racer" é um filme para adultos. Ao assisti-lo, reencontramos um encantamento que os compromissos de uma vida adulta nos fazem temer e esquecer. E este reencontro pode indicar uma saída para alguns impasses que vivemos hoje.
A cada dia a realidade nos atropela com fatos que nos fazem perder qualquer esperança em relação aos seres humanos. Filhos que matam os pais apenas para receber a herança, pai que mantém a filha encarcerada, por décadas, em um porão, países que invadem outros apenas por interesses econômicos. Como, diante de problemas tão sérios, alguém pode ficar perdendo tempo fazendo filmes bobos e cheios de ilusões infantis como “Speed Racer”? Os seus realizadores, os Irmãos Wachowski, também não vivem em uma sociedade em que a violência aumenta, onde os alimentos estão acabando e a natureza está sendo destruída pela ambição e consumismo humanos? Não percebem que precisamos de sobriedade e muito realismo para lidarmos com estes sérios desafios?
Vivemos em um mundo em que ter fantasias é cafona, um atraso, uma tolice. Geniais, verdadeiras e sinceras são as obras que nos mostram que o ser humano é mau e corrupto em sua essência. Os grandes filmes estão cheios de violência, desonestidade e destruição.
“Speed Racer” vai na contramão do ceticismo. Em um universo lúdico, com a ajuda do irmão Gorducho e do macaco Zequinha, o jovem Speed Racer luta por aquilo em que acredita. Não cede às pressões cínicas, não se vende. Recusa a acreditar que, no fundo, tudo é uma armação, que só os interesses econômicos contam e que todos têm o seu preço. Não teme as ameaças, maior é a sua honra. Segue em frente com o seu desejo, supera os vilões e desesperadamente, perdido em um túnel de cores e luzes, encontra a vitória. Uma das mais bonitas cenas de realização que já vi no cinema.Vibrei junto com Speed Racer.
O filme é ainda mais interessante se o compararmos com a obra anterior dos Irmãos Wachowski, a trilogia “Matrix”. Nela havia o temor diante dos inimigos, os diálogos eram sérios e existia a oposição entre mundo real e mundo virtual. Em “Speed Racer” esta dualidade não existe e parece que os irmãos optaram por escolher o mundo virtual como o vencedor. Se tudo é ficção, perdemos a seriedade e o medo. Podemos brincar, manter as fantasias de criança.
Se tirarmos as ilusões do homem não vamos encontrar em sua essência uma alma boazinha ou vil. Vamos encontrar um vazio. Não precisamos mais, como no passado, de filmes ou livros que nos revelem isto. Hoje, a realidade já supera, em sua crueza, qualquer invenção humana. Uma obra de arte, para ser inovadora, deve nos apontar soluções. De forma surpreendente, em sua infantilidade, “Speed Racer” oferece um caminho. Viva a macaquice.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
QUEM É VOCÊ PRA ME DIZER ISTO?
Com freqüência, recebo no consultório pacientes jovens que são trazidos pelos pais para iniciar tratamento contra sua vontade. Apresentam comportamentos que claramente lhes trazem prejuízos, como abuso no uso de drogas, participação em pequenos delitos, impulsividade para comer ou desinteresse pelos estudos. Normalmente os pais pedem para falar antes, sem que os filhos saibam, para poder revelar o verdadeiro motivo da procura pelo tratamento. Só conseguem que os filhos aceitem passar pela consulta dizendo a eles que trata-se apenas de uma conversa para orientação. A procura por um profissional ocorre somente depois que os prejuízos são tantos que outras pessoas, como professores, amigos ou parentes próximos começam a pressionar os pais. Há a expectativa de que as intervenções sejam as mais breves possíveis, de preferência um remédio mágico que eliminasse a atitude prejudicial como se retira uma unha encravada. Para estes pais, seria ideal que houvesse a possibilidade de uma associação precisa entre um determinado comportamento e uma região microscópica do cérebro. Assim, bastaria removermos esta área e seus filhos estariam curados, sem maiores exigências.
Explico que comportamentos não são como bolhas que, de repente, surgem na pele. Ao contrário, eles estão relacionados a um lugar que os filhos tentam ocupar na vida e um tratamento, para ser eficaz, exige uma mudança desta posição. Acrescento que comportamentos encontram suporte em uma cultura familiar e que uma boa resposta terapêutica implica uma alteração nesta estrutura. E a mudança pode ter início tanto nos filhos como nos próprios pais. Se o filho não aceita o tratamento, tratar um dos pais ou os dois pode ser o começo. Neste momento, ao se fazer esta proposta, descobre-se que a resistência em se tratar não era apenas dos filhos.
Muitas vezes, após o início do tratamento, os filhos seguem encontrando, em casa, condições para manter suas atitudes danosas . Já recebi pais que continuavam a dar dinheiro para seus filhos mesmo sabendo que eles o usariam para comprar drogas. Alegam que tinham medo de contrariá-los, de estar sendo autoritários ou de ser alvo de ameaças caso não cedessem. Esquecem que temer uma ameaça é a principal condição para que ela persista. Outros pais, subitamente e sem nenhuma explicação convincente, tiram seus filhos do tratamento justamente quando este começa a apresentar bons resultados.
É como se existisse entre pais e filhos um acordo narcisista. Eu não mexo na sua ferida e você não mexe na minha. Não posso dizer que você está se acabando nas drogas porque, se fizer isto, vou ter que ouvir que também tenho meus vícios, que não fui um pai ou uma mãe presente, que não dei as mesmas condições de conforto econômico que outros pais, que traí sua mãe ou que depois que seu pai foi embora não consegui me refazer afetivamente. Fazer uma crítica ao outro é saber que o outro também pode criticar você. Então, é melhor ficar calado.
O temor em criticar é algo disseminado em nossa sociedade. As críticas perderam seu peso, sua importância. Se alguém, como um artista, recebe uma crítica desfavorável, em seguida desqualifica o crítico. Ele é invejoso, frustrado, não aceita o sucesso alheio. Não queremos saber das opiniões dos outros, principalmente se aquele que as emite o faz a partir de uma posição de suposta autoridade. Pais, amigos, terapeutas ou cônjuges, ninguém ousa falar algo que vai ser mal recebido, ainda que diante de uma evidente decadência pessoal. Só se fala o que suponho que o outro quer ouvir. As opiniões devem ser sempre agradáveis, principalmente se veiculadas na mídia. Quando se emite uma crítica é para culpar os outros, o governo, o Bush, a falta de segurança, etc. O ouvinte nunca tem responsabilidade, é sempre uma vítima. Assim, presenciamos um mundo sem ousadia, de opiniões assépticas que só servem para passar o tempo.
Mas a pior conseqüência é acharmos que conosco está tudo bem , que não precisamos mudar. Se ouvimos apenas elogios, ficamos presos em uma bolha imaginária que os outros nos fornecem, repetindo nossos vícios, às vezes até nos destruirmos. O espaço à nossa volta está em constante mudança. Se não nos renovamos, se sempre reagimos da mesma forma, vamos perecendo.
A importância de uma crítica não está tanto em seu conteúdo. Não se trata de uma disputa de verdades, como no passado, quando cada um tentava impor a sua verdade sobre o outro. Se não temos mais uma autoridade que nos garanta o que é certo ou errado, se não existe uma opinião última, suprema, não que dizer que opiniões não valem para nada. Um crítica pode servir para nos incomodar, para percebermos que a imagem que temos de nós é incompleta.
Uma crítica pode ser autoritária se for a imposição de uma opinião. Mas ela pode ser, também, a oferta de uma escolha, de um caminho novo. Precisamos que os outros nos tragam suas soluções, precisamos das invenções alheias. Se pais têm a coragem de ir além do seu conforto narcisista e conseguem, assim, criticar seus filhos, podem dar a eles a possibilidade de mudar. Além disto, podem receber a mesma liberdade de se reinventar. Para ambos, uma necessária vitalidade.
Explico que comportamentos não são como bolhas que, de repente, surgem na pele. Ao contrário, eles estão relacionados a um lugar que os filhos tentam ocupar na vida e um tratamento, para ser eficaz, exige uma mudança desta posição. Acrescento que comportamentos encontram suporte em uma cultura familiar e que uma boa resposta terapêutica implica uma alteração nesta estrutura. E a mudança pode ter início tanto nos filhos como nos próprios pais. Se o filho não aceita o tratamento, tratar um dos pais ou os dois pode ser o começo. Neste momento, ao se fazer esta proposta, descobre-se que a resistência em se tratar não era apenas dos filhos.
Muitas vezes, após o início do tratamento, os filhos seguem encontrando, em casa, condições para manter suas atitudes danosas . Já recebi pais que continuavam a dar dinheiro para seus filhos mesmo sabendo que eles o usariam para comprar drogas. Alegam que tinham medo de contrariá-los, de estar sendo autoritários ou de ser alvo de ameaças caso não cedessem. Esquecem que temer uma ameaça é a principal condição para que ela persista. Outros pais, subitamente e sem nenhuma explicação convincente, tiram seus filhos do tratamento justamente quando este começa a apresentar bons resultados.
É como se existisse entre pais e filhos um acordo narcisista. Eu não mexo na sua ferida e você não mexe na minha. Não posso dizer que você está se acabando nas drogas porque, se fizer isto, vou ter que ouvir que também tenho meus vícios, que não fui um pai ou uma mãe presente, que não dei as mesmas condições de conforto econômico que outros pais, que traí sua mãe ou que depois que seu pai foi embora não consegui me refazer afetivamente. Fazer uma crítica ao outro é saber que o outro também pode criticar você. Então, é melhor ficar calado.
O temor em criticar é algo disseminado em nossa sociedade. As críticas perderam seu peso, sua importância. Se alguém, como um artista, recebe uma crítica desfavorável, em seguida desqualifica o crítico. Ele é invejoso, frustrado, não aceita o sucesso alheio. Não queremos saber das opiniões dos outros, principalmente se aquele que as emite o faz a partir de uma posição de suposta autoridade. Pais, amigos, terapeutas ou cônjuges, ninguém ousa falar algo que vai ser mal recebido, ainda que diante de uma evidente decadência pessoal. Só se fala o que suponho que o outro quer ouvir. As opiniões devem ser sempre agradáveis, principalmente se veiculadas na mídia. Quando se emite uma crítica é para culpar os outros, o governo, o Bush, a falta de segurança, etc. O ouvinte nunca tem responsabilidade, é sempre uma vítima. Assim, presenciamos um mundo sem ousadia, de opiniões assépticas que só servem para passar o tempo.
Mas a pior conseqüência é acharmos que conosco está tudo bem , que não precisamos mudar. Se ouvimos apenas elogios, ficamos presos em uma bolha imaginária que os outros nos fornecem, repetindo nossos vícios, às vezes até nos destruirmos. O espaço à nossa volta está em constante mudança. Se não nos renovamos, se sempre reagimos da mesma forma, vamos perecendo.
A importância de uma crítica não está tanto em seu conteúdo. Não se trata de uma disputa de verdades, como no passado, quando cada um tentava impor a sua verdade sobre o outro. Se não temos mais uma autoridade que nos garanta o que é certo ou errado, se não existe uma opinião última, suprema, não que dizer que opiniões não valem para nada. Um crítica pode servir para nos incomodar, para percebermos que a imagem que temos de nós é incompleta.
Uma crítica pode ser autoritária se for a imposição de uma opinião. Mas ela pode ser, também, a oferta de uma escolha, de um caminho novo. Precisamos que os outros nos tragam suas soluções, precisamos das invenções alheias. Se pais têm a coragem de ir além do seu conforto narcisista e conseguem, assim, criticar seus filhos, podem dar a eles a possibilidade de mudar. Além disto, podem receber a mesma liberdade de se reinventar. Para ambos, uma necessária vitalidade.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
TERAPIA POR TELEVISÃO
(Texto publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo em 12/05/08)
A série Em Terapia (inTreatment, no título original em inglês), estréia hoje, às 20h30, no canal HBO, trazendo o ator Gabriel Byrne no papel do angustiado psicoterapeuta Paul Weston. A cada dia, de hoje a quinta, poderemos acompanhar uma sessão de terapia conduzida por ele. Seus pacientes, nesta primeira fase da série, são, respectivamente, uma mulher apaixonada por ele, um ex-combatente que voltou traumatizado do Iraque, uma ginasta acidentada e um casal em crise. Na sexta, veremos o terapeuta ocupando a posição inversa em sua própria terapia: é o dia em que ele discutirá seus problemas com sua analista, vivida pela atriz Diane Wiest. A série tem 43 episódios que serão exibidos ao longo de nove semanas, de hoje até metade de julho.
Em um formato ousado para os padrões de uma série televisiva, toda a ação de Em Terapia se passa dentro do consultório: a atenção é mantida apenas pelos diálogos precisos entre pacientes e terapeuta. Ao apresentar personagens com perfis psicológicos bem definidos, a série mostra-se fidedigna ao que imaginamos encontrar em um ambiente de psicoterapia na vida real. Byrne se esforça na gesticulação, nos silêncios e no controle emocional que associamos a um profissional desta área. Os dramas, as dúvidas e as culpas dos pacientes são bem próximos aos vivenciados no dia a dia dos consultórios, mesmo que não tenhamos como desencadeante uma experiência traumática na guerra do Iraque. O tratamento oferecido pelo psiquiatra da série, que se limita basicamente em associar um problema atual com um trauma inconsciente, é o padrão psicanalítico incorporado pela imensa maioria dos profissionais. Esta correspondência imaginária pode ser sinal de competência e de uma rigorosa pesquisa na construção da série, mas é, também, a sua principal limitação.
O que se passava no interior de um consultório de psicoterapia era um dos últimos segredos que ainda escapavam ao voyeurismo da sociedade atual. No mundo big brother, buscamos desesperadamente saber o que existe por trás das aparências da vida social, enxergar a verdade que cada um esconde em sua vida particular. Só que, a cada edição do Big Brother, descobrimos que as pessoas “reais” que participam do programa não são muito diferentes dos personagens das novelas. Seus romances, suas intrigas e traições são os mesmos. Atrás da aparência, só encontramos uma outra aparência.
Ainda que seja uma ficção, Em Terapia nos oferece um duplo voyeurismo. Em primeiro lugar, temos a oportunidade de vislumbrar o que ocorre dentro de uma sessão de psicoterapia e, depois, o que se esconde no inconsciente dos personagens. Mas o que encontramos, assim como em todas as edições do Big Brother, é o que já imaginávamos. Não existe surpresa ou engano. A série confirma nossa convicção e entretém (e talvez nem pudesse ser diferente), mas não traz um novo olhar sobre os outros ou sobre nós. Portanto, ela não nos modifica, não nos trata, apesar de percebermos as semelhanças entre as dificuldades e angústias que vivemos e as relatadas pelos personagens. O que não compreendemos, ao assistir ao programa, é a razão pela qual o tratamento ocorre. Provavelmente um paciente real não alteraria seu comportamento se fosse submetido ao tratamento oferecido por Weston. Na prática clínica, sabemos que localizar um sentido inconsciente para um problema não é suficiente para modificar uma pessoa. Em uma análise, o que trata, o que permite a mudança, está além da cena (consciente ou inconsciente), além do que o olhar televisivo pode mostrar. É algo que se descobre apenas pela experiência pessoal em ser analisado.
Em Terapia é mais um ótimo programa de televisão. Mas seu voyeurismo nada nos esclarece sobre o enigma que é uma análise.
A série Em Terapia (inTreatment, no título original em inglês), estréia hoje, às 20h30, no canal HBO, trazendo o ator Gabriel Byrne no papel do angustiado psicoterapeuta Paul Weston. A cada dia, de hoje a quinta, poderemos acompanhar uma sessão de terapia conduzida por ele. Seus pacientes, nesta primeira fase da série, são, respectivamente, uma mulher apaixonada por ele, um ex-combatente que voltou traumatizado do Iraque, uma ginasta acidentada e um casal em crise. Na sexta, veremos o terapeuta ocupando a posição inversa em sua própria terapia: é o dia em que ele discutirá seus problemas com sua analista, vivida pela atriz Diane Wiest. A série tem 43 episódios que serão exibidos ao longo de nove semanas, de hoje até metade de julho.
Em um formato ousado para os padrões de uma série televisiva, toda a ação de Em Terapia se passa dentro do consultório: a atenção é mantida apenas pelos diálogos precisos entre pacientes e terapeuta. Ao apresentar personagens com perfis psicológicos bem definidos, a série mostra-se fidedigna ao que imaginamos encontrar em um ambiente de psicoterapia na vida real. Byrne se esforça na gesticulação, nos silêncios e no controle emocional que associamos a um profissional desta área. Os dramas, as dúvidas e as culpas dos pacientes são bem próximos aos vivenciados no dia a dia dos consultórios, mesmo que não tenhamos como desencadeante uma experiência traumática na guerra do Iraque. O tratamento oferecido pelo psiquiatra da série, que se limita basicamente em associar um problema atual com um trauma inconsciente, é o padrão psicanalítico incorporado pela imensa maioria dos profissionais. Esta correspondência imaginária pode ser sinal de competência e de uma rigorosa pesquisa na construção da série, mas é, também, a sua principal limitação.
O que se passava no interior de um consultório de psicoterapia era um dos últimos segredos que ainda escapavam ao voyeurismo da sociedade atual. No mundo big brother, buscamos desesperadamente saber o que existe por trás das aparências da vida social, enxergar a verdade que cada um esconde em sua vida particular. Só que, a cada edição do Big Brother, descobrimos que as pessoas “reais” que participam do programa não são muito diferentes dos personagens das novelas. Seus romances, suas intrigas e traições são os mesmos. Atrás da aparência, só encontramos uma outra aparência.
Ainda que seja uma ficção, Em Terapia nos oferece um duplo voyeurismo. Em primeiro lugar, temos a oportunidade de vislumbrar o que ocorre dentro de uma sessão de psicoterapia e, depois, o que se esconde no inconsciente dos personagens. Mas o que encontramos, assim como em todas as edições do Big Brother, é o que já imaginávamos. Não existe surpresa ou engano. A série confirma nossa convicção e entretém (e talvez nem pudesse ser diferente), mas não traz um novo olhar sobre os outros ou sobre nós. Portanto, ela não nos modifica, não nos trata, apesar de percebermos as semelhanças entre as dificuldades e angústias que vivemos e as relatadas pelos personagens. O que não compreendemos, ao assistir ao programa, é a razão pela qual o tratamento ocorre. Provavelmente um paciente real não alteraria seu comportamento se fosse submetido ao tratamento oferecido por Weston. Na prática clínica, sabemos que localizar um sentido inconsciente para um problema não é suficiente para modificar uma pessoa. Em uma análise, o que trata, o que permite a mudança, está além da cena (consciente ou inconsciente), além do que o olhar televisivo pode mostrar. É algo que se descobre apenas pela experiência pessoal em ser analisado.
Em Terapia é mais um ótimo programa de televisão. Mas seu voyeurismo nada nos esclarece sobre o enigma que é uma análise.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
REPARAÇÃO
Terminei, na última semana, a leitura de “Reparação”, romance do escritor inglês Ian McEwan, adaptado para o cinema, recentemente, com o título “Desejo e Reparação” em português. Para os que não leram o livro ou não assistiram ao filme, segue um breve resumo: Briony, menina que sonha escrever livros, faz uma falsa acusação contra o rapaz pelo qual sua irmã mais velha está apaixonada. Esta denúncia impede que o amor entre os dois se realize. Mais tarde, já escritora e com a proximidade da morte, como última obra de sua vida, Briony escreve um livro contando o seu crime mas permitindo que, pelo menos na ficção, a irmã e o seu amado tenham um final feliz.
Podemos inicialmente considerar que o romance foi escrito como uma tentativa de Briony de se reparar da falsa denúncia que trouxe a infelicidade para a irmã e o companheiro. A reparação de um erro do passado. Uma reparação egoísta que não mudaria a tragédia real da irmã, que juiz nenhum aceitaria como punição pelo crime cometido e que serviria apenas para aliviar a culpa interna da escritora.
Mas como podemos garantir que, caso a acusação mentirosa não tivesse sido feita por Briony, sua irmã viveria uma história de amor com o rapaz injustiçado? Sabemos o quão difícil é este encontro na vida real. Muitos chegam mesmo a pensar que ele é impossível. A paixão não resiste à aproximação entre os apaixonados. Só nos livros, nos filmes, nas novelas ou, na melhor das hipóteses, em um breve período de tempo em nossas vidas, temos encontros amorosos felizes. Se nos livramos das dificuldades que nos separam, se podemos finalmente viver o nosso amor em paz, o encanto se quebra. Logo, a máscara cai, os defeitos aparecem, o sonho se desfaz. Só mesmo nos contos de fadas se é feliz depois que as bruxas morrem.
Talvez, então, a reparação da qual o romance nos fala é uma outra, anterior, mais essencial que a tentativa de se desculpar de um delito cometido. É possível que o casal da história só pudesse ter vivido seu amor na ficção. A escritora, mais que reparar um erro seu, deu à irmã, generosamente, a possibilidade de ser feliz.
A literatura e toda atividade criativa, quem sabe, tenham como função nos reparar de uma impossibilidade original. Da impossibilidade de se livrar da morte, de tudo poder conhecer, de ter alguém que nos traga a satisfação plena. Nos versos da poeta polonesa Wislawa Szymborska: “A alegria de escrever (...) Vingança de uma mão mortal.”
Diante dos desencantos da vida, podemos ficar deprimidos ou nos tornarmos céticos, cínicos. A literatura nos fornece uma outra escolha. Por nos sabermos como seres mortais (os únicos com esta consciência na natureza) temos a necessidade da invenção. Frente à folha em branco de nossas vidas, a aventura de cada um escrever a sua ficção. E, assim, podemos tentar definir o amor como a característica essencial da condição humana. Amor, como o desejo irremediável de fazer o que é nada ser alguma coisa. De existir o que não existe. Nosso drible na morte. A nomeação de algo por uma palavra ou a própria linguagem seriam, deste modo, impulsos amorosos. Por este caminho, podemos considerar o livro escrito por Briony, sua reparação, não como uma tentativa medrosa de se desculpar, mas como um gesto desesperado de amor.
Podemos inicialmente considerar que o romance foi escrito como uma tentativa de Briony de se reparar da falsa denúncia que trouxe a infelicidade para a irmã e o companheiro. A reparação de um erro do passado. Uma reparação egoísta que não mudaria a tragédia real da irmã, que juiz nenhum aceitaria como punição pelo crime cometido e que serviria apenas para aliviar a culpa interna da escritora.
Mas como podemos garantir que, caso a acusação mentirosa não tivesse sido feita por Briony, sua irmã viveria uma história de amor com o rapaz injustiçado? Sabemos o quão difícil é este encontro na vida real. Muitos chegam mesmo a pensar que ele é impossível. A paixão não resiste à aproximação entre os apaixonados. Só nos livros, nos filmes, nas novelas ou, na melhor das hipóteses, em um breve período de tempo em nossas vidas, temos encontros amorosos felizes. Se nos livramos das dificuldades que nos separam, se podemos finalmente viver o nosso amor em paz, o encanto se quebra. Logo, a máscara cai, os defeitos aparecem, o sonho se desfaz. Só mesmo nos contos de fadas se é feliz depois que as bruxas morrem.
Talvez, então, a reparação da qual o romance nos fala é uma outra, anterior, mais essencial que a tentativa de se desculpar de um delito cometido. É possível que o casal da história só pudesse ter vivido seu amor na ficção. A escritora, mais que reparar um erro seu, deu à irmã, generosamente, a possibilidade de ser feliz.
A literatura e toda atividade criativa, quem sabe, tenham como função nos reparar de uma impossibilidade original. Da impossibilidade de se livrar da morte, de tudo poder conhecer, de ter alguém que nos traga a satisfação plena. Nos versos da poeta polonesa Wislawa Szymborska: “A alegria de escrever (...) Vingança de uma mão mortal.”
Diante dos desencantos da vida, podemos ficar deprimidos ou nos tornarmos céticos, cínicos. A literatura nos fornece uma outra escolha. Por nos sabermos como seres mortais (os únicos com esta consciência na natureza) temos a necessidade da invenção. Frente à folha em branco de nossas vidas, a aventura de cada um escrever a sua ficção. E, assim, podemos tentar definir o amor como a característica essencial da condição humana. Amor, como o desejo irremediável de fazer o que é nada ser alguma coisa. De existir o que não existe. Nosso drible na morte. A nomeação de algo por uma palavra ou a própria linguagem seriam, deste modo, impulsos amorosos. Por este caminho, podemos considerar o livro escrito por Briony, sua reparação, não como uma tentativa medrosa de se desculpar, mas como um gesto desesperado de amor.
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