segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

AVATAR

No último texto que coloquei no blog, falei de como fatos ocorridos no passado me causavam a impressão de serem mais novos do que acontecimentos presentes que aparentam modernidade. Pois fui ver Avatar e saí do cinema com esta sensação reforçada.

O filme de James Cameron é vendido como o mais inovador trabalho cinematográfico até hoje realizado devido à tecnologia avançada empregada na criação de efeitos especiais em terceira dimensão. Mas fiquei com a sensação de que é uma embalagem nova (ou talvez apenas diferente) de algo bastante velho e batido. É como pegar uma tradicional bala de coco e, em vez de embalá-la em papel de seda, colocá-la em uma caixa metálica que se abre automaticamente ao comando da voz do comprador. No fim das contas, vai se estar consumindo a mesma bala, embora com a ilusão de novidade.

Em 3D ou não, o que é velho em Avatar é o que o filme nos conta, o que nos mostra: o ser humano é mau, mas poderia ser bom; ou melhor; o ser humano é imperfeito, mas poderia ser perfeito.

Para nos dizer esta antiga lição moral, o filme lança mão de uma história na qual humanos gananciosos e destrutivos invadem um planeta em que reina uma perfeita e harmoniosa interação entre os seres falantes de lá e o seu meio ambiente.

No planeta Pandora, os habitantes possuem uma cabeleira cumprida que, assim como um cabo USB, lhes permite uma conexão direta com outros seres vivos, com a natureza inanimada e também com a Deusa local. Lá não existem carecas, gordos, alcoólatras, chatos, mancos ou coxos. Não há desajustados sociais e nem losers. Os chefes e a Deusa são justos e usam o seu poder apenas para apoiar e proteger os seus chefiados e discípulos. A natureza é espetacular, os vegetais e animais são grandiosos e exuberantes. As paisagens são fantásticas, existem até montanhas que flutuam no ar. Não há crimes ou violência. Quando um animal precisa ser morto para servir de alimento para os nativos, ele recebe; na fala de uma personagem local; uma morte limpa. Talvez não se possa nem mesmo se falar em morte, uma vez que o bicho em questão deixa o seu corpo ajudar os outros seres do planeta enquanto o seu espírito vai encontrar a Deusa. E, o mais importante: em Pandora, os casais, quando se apaixonam, é pra valer. Eles fazem juras fiéis de amor, um passa a ser o complemento eterno do outro.

Vai indo tudo muito bem, estão todos muito felizes, até que aparece o vilão de sempre: o ser humano, este estraga prazeres, esta praga do universo. Os humanos precisam ser mandados de volta para casa para que volte a reinar a paz e a felicidade em Pandora.

Mas qual será o efeito dessa lição de Avatar? Será que as multidões que têm lotado os cinemas vão embora para casa modificados em alguma coisa? Poderá o filme ajudar a mudar a nossa relação com o planeta? Será que finalmente uma reunião, como a de Copenhague, vai dar resultados efetivos? Será que as pessoas vão abrir mão de achar que a felicidade está no que se pode ter ou consumir, no sucesso ou na fama?

Desconfio que Avatar não vai transformar nada disto. Pelo contrário, na sua desgastada moralidade, pode apenas ajudar a cristalizar a inércia. O espectador sai do cinema do mesmo jeito que entrou. O filme apenas confirma suas crenças anteriores, seus preconceitos: o mundo seria melhor e eu mais feliz se não fossem os outros para atrapalhar. No fim, a sua espetacular tecnologia vai servir apenas para entreter a audiência.

Corre o risco de Avatar ser lembrado somente como o filme de maior arrecadação da história do cinema. É engraçado que uma obra que quer combater a ambição destrutiva humana, dê um exemplo de que sucesso é igual a ganhar mais. Exemplos valem mais do que belos discursos. Como se pode, deste modo, querer que o espectador abra mão do seu desejo de enriquecer e consumir? É como se James Cameron dissesse: eu posso, mas você não.

Os filmes ditos de entretenimento não exigem que a audiência pense e se questione. São trabalhos que já portam uma concordância prévia e apresentam soluções fáceis. Assim, deixam de trazer à tona as questões básicas e óbvias: por que o ser humano destrói a natureza? Por que o ser humano é ganancioso e consumista? Não seria porque acreditamos que tendo coisas seremos mais amados e felizes? Não seria este o sentido que damos às nossas vidas hoje, nosso ideal de perfeição e completude?

E, como todo ideal de felicidade, devemos mantê-lo sempre distante para que possamos acreditar nas suas promessas. Então, decretamos que não podemos consumir porque, assim, estaremos destruindo a natureza. Devemos castrar o nosso desejo perverso e destrutivo. Querer ser rico é um pecado, um ato vil contra o planeta. Na nova religião da harmonia ecológica, o mandamento moral maior é não desejar os bens do próximo. Cameron é o profeta e Avatar o seu catecismo ilustrado.

Pandora é um modelo de paraíso que deveríamos copiar para sermos felizes. Devemos abandonar a nossa ambição e nos contentarmos em viver como nativos idealizados da Amazônia ou da África. Tudo que a humanidade construiu além disto é mau e deve ser abandonado.

Mas, como todo paraíso, é uma promessa que nunca poderemos alcançar. Por mais que nos esforcemos, jamais conseguiremos ser plenos e bem resolvidos como os habitantes de Pandora. Podemos vender nossos bens materiais, mudar para a floresta e andar só de tanga que continuaremos infelizes. A natureza, em nosso planeta, ao contrário da de Pandora, não nos oferece nenhum conforto, nenhuma segurança, nenhuma proteção para que possamos bem viver. Ela está sempre nos surpreendendo, sempre nos desafiando, sempre nos incomodando, sempre nos demandando invenção. E foi isto que fizemos ao longo dos séculos. Mesmo que as nossas respostas sejam precárias, parciais, elas nos permitiram sobreviver todos esses anos em meio a um ambiente completamente desconhecido. Precisamos seguir em frente, mudando, inventando novas respostas e é isto que Avatar não nos oferece.

Diante da demanda de alcançarmos o nirvana impossível de Pandora, vamos apenas nos sentir frustrados, deprimidos, menores, ruins. O destino de todo aquele que quer ser perfeito é se sentir um lixo. Ao assistirmos a Avatar é esta a conclusão a que chegamos: o ser humano, por não ser perfeito, é uma porcaria. Podemos, no fim, querer fazer como o personagem principal que achou melhor trocar a sua imperfeição humana pelo corpo sem defeitos dos nativos de Pandora. Quem vê o filme corre o risco de ter o mesmo desejo e querer ser o seu avatar, ser seu outro ideal, perfeito.

Como não podemos fazer como o personagem do filme, não temos uma Pandora à mão, talvez fiquemos apenas deprimidos ou, quem sabe, em uma decisão extrema, escolhamos nos matar. Anular-se para sustentar um ideal de perfeição é uma escolha que muitos podem preferir fazer. Mas há outra: não interpretar a imperfeição humana como um defeito, como algo que diz que somos ruins, fracos. Diante de ideais inalcançáveis, continuaremos produzindo perdedores, deprimidos, bandidos, corruptos e destruidores da natureza.

Mas a imperfeição, a incompletude, pode ser vista como aquilo que nos faz humanos, aquilo que nos faz seres singulares no universo. Por sermos permanentemente incompletos é que estamos convidados à permanente invenção do mundo. Por isto somos seres amorosos: por ter o impulso criativo de fazer existir o que não existe. Só o ser humano inventa peixes, neurônios, pedras e nuvens. No mundo além do contado pelas palavras humanas, nada disto existe. Só nós criamos lobisomens, Deuses, santos e heróis. E por que não amarmos esta condição?

Em vez de pessoas que se acham e se comportam como uma porcaria, em vez de vilões destrutivos, podemos ter humanos que enganam o desconhecido e a morte inventando beleza. Com esses olhos, sabendo que estamos apenas criando e não construindo projetos seguros de verdade, podemos até perceber Avatar além de uma caduca lição de moral. Se sabemos que Pandora nunca existirá, que é apenas uma criação como todas as outras, um mero delírio, em vez de raiva e indignação talvez pudéssemos dizer: que loucura bonita é esta a humana. Os nativos de Pandora, em sua chata harmonia ecológica, jamais conseguiriam produzir um filme cheio de efeitos fantásticos como Avatar. Só humanos imperfeitos podem. Tudo aquilo que o filme procura condenar é justamente o que permitiu a sua realização.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

ACONTECEU EM WOODSTOCK

Ao assistir ao novo filme de Ang Lee, Aconteceu em Woodstock, fui tomado por um pensamento esquisito: no passado, o mundo era mais moderno. Talvez não o mundo todo, mas, especificamente, alguns acontecimentos como o Festival de Woodstock. Esta mesma percepção me veio recentemente ao ver, no YouTube, entrevistas com Elis Regina e Nelson Rodrigues (todas realizadas em plena ditadura militar) e, em DVD, o longa de John Huston, Freud Além da Alma, lançado na década de 60 do último século.

Fiquei me questionando se não seria saudosismo meu, uma crença muito freqüente, principalmente em pessoas mais velhas, de que o mundo era mais feliz no passado. Mas o meu sentimento não era de saudade e sim de estranhamento. Uma sensação um pouco confusa de que o passado era o futuro, um tempo que ainda não havia chegado. É como se hoje vivêssemos em um momento que, apesar de ser posterior temporalmente, fosse pré-Woodstock, pré-Nelson Rodrigues ou pré-Freud.

O filme de Ang Lee não me pareceu ser uma boa recordação de um acontecimento que ficou no passado, mas sobre algo que permanece novo.

O estranhamento de que algo que já aconteceu possa ser mais moderno do que o presente em que vivemos vem do fato de que a aparência nos mostra o contrário. Percebemos nosso mundo atual bem mais avançado que os anos 60 e 70 do século anterior. Nossos carros, nossos edifícios, nossos recursos médicos, nossos aparelhos de telefone, nossos cinemas 3D, nossas novas formas de comunicação, enfim, todas as tecnologias avançadas de que dispomos parecem afirmar a modernidade do nosso tempo.

E não é só em termos tecnológicos que temos a impressão de viver em uma era mais madura, mas, também, ideologicamente. As crenças e ilusões de Woodstock teriam se mostrado velhas com o tempo. Hoje, a possibilidade de um mundo livre de guerras, sem governos autoritários e em que não haja divisões hierárquicas entre as pessoas, soaria como uma bobagem infantil. Os seres humanos seriam por essência ruins, precisaríamos ser vigiados e controlados para não nos destruirmos. Esta seria uma verdade definitiva, imutável.

Mas Ang Lee pode ter enxergado um Woodstock além das aparências tecnológicas ou ideológicas. Um evento que seguiria moderno. Uma modernidade que talvez esteja além das formas, além do tempo, impossível de sofrer desgaste pelo passar dos anos. Não um modelo ou uma receita de como deve ser o mundo, mas um exemplo de que se pode transformá-lo. Que é possível que algo de novo surja no horizonte de nossas vidas. Que o valor está nesta possibilidade de mudança e não no que nos transformaremos, no fim em si. Só existe um fim: a morte, a não existência. Para seguirmos vivos, existindo, é necessária a incompletude permanente. E ela demanda a possibilidade de nos transformarmos, de podermos sair de nossos confortos imaginários e seguir adiante enfrentando o desconhecido infinito do universo.


Deste modo, o novo é aquilo que não se inscreve no tempo e, portanto, pode estar no passado, no presente ou no futuro. O moderno não é usar uma roupa, um cabelo ou um estilo assim ou assado. As experiências artísticas de vanguarda do último século que romperam com todos os padrões e o próprio capitalismo que transforma todas as aparências em mercadorias (vide o que foi feito de Che Guevara) esgotaram todas as possibilidades de que o novo esteja na imagem de alguma coisa. As aparências envelhecem.

Como é impossível alcançarmos um mundo perfeito, a demanda de que uma transformação, ou uma revolução, só tem valor se nos conduzir ao paraíso é uma exigência que tem por objetivo apenas justificar o imobilismo, a crença no não tem jeito de mudar. Se esperamos o impossível, ficamos paralisados.

O trabalho de Ang Lee não desqualifica Woodstock por não ter sido um experiência perfeita. Não diz que o festival foi em vão, que foi uma bobagem que envelheceu ou caducou. Pelo contrário, faz da imperfeição uma delicada comédia e, assim, presta uma leve e elegante homenagem a Woodstock. Não teria o mesmo efeito se tivesse optado por um tom sério, saudosista ou de denúncia (imagino como seria o mesmo evento filmado por outro diretor, como, por exemplo, Oliver Stone).

O filme mostra o imaginário comum sobre o festival, mas vai além dele. Coloca o lado comercial, tira sarro tanto dos conservadores quanto dos libertários da época . Ambos, moralistas e doidões, provocam risos na plateia. E nenhum lados é apresentado como certo ou errado, não há uma disputa ou confronto ideológico. Todos parecem apenas humanamente desamparados.

Juntamente com o ar irônico, o diretor resolveu contar o festival focando na história pessoal de um de seus personagens: um rapaz que se sente aprisionado aos pais por uma dívida amorosa e que, no final, consegue se libertar e seguir o seu desejo. Quem sabe, aí, pudéssemos perceber melhor o que ficou de Woodstock, qual o seu legado além da sua apreensão imaginária vendida às massas.

Woodstock pode não ter transformado o mundo, mas pôde modificar uma pessoa. As revoluções, talvez, não sejam eventos de massas que precisam ser guiadas por um líder, mas acontecimentos individuais e solitários.

O foco do diretor não é colocado tampouco na parte musical do festival; nenhuma apresentação é mostrada. O personagem principal, nas três tentativas que faz, não consegue chegar perto do palco. Não há um fim, só uma trajetória. Mas, mesmo assim, a experiência de Woodstock foi fundamental para o rapaz ao lhe permitir uma transformação. Ao contrário do personagem do produtor do festival que considerou o evento bonito por ter sido um grande negócio comercial, o personagem principal viu a beleza no que Woodstock lhe trouxe de novo.

O filme de Ang Lee pode causar em quem o vê o mesmo acontecimento que Woodstock trouxe para o personagem principal e seu pai: a sensação de uma mudança individual, de uma revolução que nos enche de vida.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

SE QUISER, EMAGREÇA POR EMAGRECER

Conheço várias pessoas angustiadas com o próprio peso que estão sempre seguindo uma nova receita para emagrecer. Mostram-se entusiasmadas no começo, cheias de esperança que desta vez a coisa vai dar certo. Todas têm na ponta da língua as razões para provar que a nova dieta é cientificamente mais avançada que as outras que fracassaram por se basearem em conhecimentos que se descobriram ultrapassados ou errados.

Na fase inicial, os crentes da receita da moda são insensíveis a qualquer argumentação que lhes questione o porquê de acreditar que a dieta atual não terá em breve o mesmo destino que as anteriores. Os resultados positivos logo nos primeiros dias aumentam ainda mais o ânimo e a devoção ao novo esquema de perda de peso: dois quilos em uma semana, em pouco tempo chegarei ao meu peso ideal!

Mas na próxima semana a perda de peso é menor e mais reduzida ainda na semana seguinte. Então vem a frustração, o entusiasmo começa a vacilar, o seguidor da dieta passa pouco a pouco a ser menos rigoroso no acompanhamento das regras receitadas. O relaxamento vai aumentando com o tempo até o completo abandono. Normalmente, diante do desencanto, em um período curto a pessoa recupera o peso perdido ou mesmo ganha uns quilos a mais. Fica resignada com a sua obesidade até que novas crenças anunciadas com estardalhaço na mídia recuperem sua esperança e todo o ciclo recomece.

Outras, mais práticas e eficientes, cansadas da conversa fiada que só serve para vender livros e deixar ricos seus autores, partem para medidas de resultado mais garantido. Por conta própria, por recomendação de amigos ou muitas vezes com a ajuda médica, começam a fazer uso de variadas formulações químicas. À base de inibidores de apetite ou estimulantes do metabolismo, elas permitem que a pessoa faça o que ela não acredita que seja capaz de realizar sozinha: comer menos e gastar mais energia.

Elétricas e sem apetite sequer para uma folha de alface, em poucas semanas os usuários das “fórmulas” perdem o excesso de gordura indesejado ou até mais. Mas, para poder manter o resultado, é necessário seguir com o uso da medicação por um período indeterminado e isto tem seus os custos. A pessoa pode apresentar alterações de comportamento, ficar desanimada ou ansiosa, ter dificuldade de concentração, prejuízos nas relações sociais, familiares, na escola ou no trabalho. Com o tempo pode ser necessário o aumento da dose das substâncias químicas para se ter o mesmo efeito inicial, o que potencializa as chances de ocorrência de problemas colaterais.

Na prática, a pessoa em uso de formulações para emagrecer acaba por ter de deixá-las de lado com o tempo. No famoso efeito sanfona, logo se volta à convivência com os odiadas gordurinhas e com as velhas roupas de numeração maior prudentemente guardadas no armário.

Nos últimos anos, como última e radical solução diante das dificuldades e fracassos para a perda de peso, obesos de variados calibres cada vez mais têm optado por cirurgias que reduzem a capacidade estomacal e/ou intestinal. Normalmente, os que se submetem a tais procedimentos são forçados a diminuir drasticamente a ingestão de alimentos. De uma forma geral, os resultados tendem a ser satisfatórios em relação à perda de gordura. Alguns operados, entretanto, desenvolvem efeitos indesejáveis, como outras compulsões que não por comida, ansiedade, depressão (existem pesquisas que relatam aumento no número de suicídios entre estes pacientes), alterações de personalidade, etc. Uns, para desespero de incrédulos médicos, encontram maneiras de burlar as limitações alimentares impostas pela cirurgia e conseguem voltar a ganhar peso. A capacidade humana de se boicotar surpreende qualquer bom senso racional.

O que vemos em todos os casos descritos acima é a completa incapacidade de, por conta própria, sem estímulos exteriores e apenas pelo esforço pessoal, se conseguir perder peso e se manter magro.

A pessoa que quer perder peso parece trazer a crença de que ela é incapaz de emagrecer sozinha. Acha-se, no fundo, uma gorda irrecuperável, uma irresponsável que não consegue resistir à tentação das comidas calóricas e da preguiça. Fornece quilos de desculpas para tentar justificar a sua incapacidade de comer de outra forma e fazer atividades físicas: não tem dinheiro (dieta e academia custam muito), não tem tempo, tem personalidade fraca, o metabolismo é mais lento, a genética é desfavorável, os problemas da vida não deixam, etc.

Como a responsabilidade pelo peso acima do desejado não é da pessoa, o caminho para emagrecer também não depende da sua vontade pessoal, mas de fatores que lhe são externos: arrumar mais tempo e dinheiro, encontrar uma dieta que não exija muito, fazer terapia, tomar remédios ou, quem sabe, no futuro poder modificar a sua genética. E enquanto não se consegue estas coisas, é melhor se acostumar com a gordura, com as desvantagens de se ter este defeito.

E se emagrecer for uma cobrança imprescindível, faz-se a redução de estômago e fica-se magro à força. O operado, diante da sua nova silhueta, pode se sentir como alguém castrado: conseguiu chegar ao padrão exigido de peso, mas, para isto, lhe foi tirada a satisfação de comer muito. É como se um fumante inveterado fizesse uma cirurgia que lhe impedisse de colocar o cigarro na boca.

O que sonha todo aquele que se vê com o peso acima do desejado é poder ser como aqueles que foram abençoados pela magreza: não ter este fraqueza, esta doença, esta tentação pela comida e pela preguiça.

O gordo imagina a pessoa magra como uma santa, alguém sem as suas carências mundanas. Ele se acha inferiorizado, se sente moralmente ou biologicamente (que não deixa de ser um padrão moral atual) menor que os magros.

A pessoa obesa idealiza que só se sentirá realizada após se livrar dos quilos a mais . Quando for magra, será mais bonita, mais confiante, mais atraente e terá mais sucesso. Por fim, será mais amada e por isto mais feliz.

O gordo também tem a crença de que a comida mais gostosa é a mais calórica. Acredita, do mesmo modo, que uma vida sedentária é muito mais prazerosa do que ficar se movimentando por aí. Ele faz fé no dito popular de que o que é proibido é mais gostoso.

Para sustentar estas crenças, o obeso tem uma relação de culpa com aquilo que acredita ser a sua satisfação. Normalmente come rápido, de forma impulsiva, não saboreia o alimento. Depois sente remorso, arrependimento. A comida só é maravilhosa a distância, no pensamento, na lembrança proibida. No momento em que a tem à sua disposição, passa-se por ela com pressa, com ansiedade, sem poder curti-la. Ficar parado também só é uma felicidade enquanto tem alguém no seu pé lhe cobrando mais ação.

A pessoa gorda idealiza quem é magro e idealiza a comida e a pouca atividade física. Se por acaso encontrar a magreza ou a comida e a inércia, não consegue os usufruir.

Para se manter uma idealização, é necessário mantê-la distante, inalcançável, proibida. Não é permitido ao gordo o prazer pela comida ou ter um corpo magro. Ele está condenado à insatisfação. Vai ser sempre alguém inferior, vai estar sempre fora da festa. Nunca será amado como os outros. Permanecerá infeliz para sustentar um ideal de felicidade. Para acreditar na possibilidade de uma satisfação completa, faz da mudança uma impossibilidade: sou gordo e não tem jeito de mudar.

Talvez, para quem quer fazer da mudança uma possibilidade seja preciso saber que, ao contrário da fé obesa, a impossibilidade está na satisfação plena. Podemos ser magros como Gisele Bündchen , comer toda a comida do mundo ou ficar o dia todo deitados na sombra que não seremos completamente felizes.

Não é necessário esperar pela magreza para poder ser feliz. Não é preciso alcançar uma cintura fina para poder estar satisfeito consigo mesmo, para poder se sentir mais confiante, mais atraente. A pessoa pode gostar de si na condição de incompleta, usar o que tem e não ficar valorizando uma ilusão do que lhe falta. Assim, alguém pode até emagrecer, mas não para ser feliz: emagrece porque já é feliz. Uma felicidade sem um ideal, sem um fim. Uma satisfação de fazer uso do seu desejo incompleto, de estar sempre em movimento. Saber que mais importante do que ficar esperando ser amado é amar.

Sem um ideal para atingir, emagrecer deixa de ser uma obrigação, um dever social para alguém ser bem aceito. Comer alimentos menos calóricos e fazer atividades físicas deixam de ser um sacrifício e podem se tornar uma escolha prazerosa. Um prazer não está no fim, em ser querido, mas em se cuidar, em amar.

Quem está acima do peso costuma associar a sua imagem pessoal à sua condição física: eu sou o gordo. Não espera que ninguém o trate fora deste lugar. Não acredita, por exemplo, que um outro possa ser apaixonar por ele. Se por acaso alguém mostra interesse, ele reage: não está enxergando, eu sou gordo, feio, uma baleia, faça o favor de me ver assim. Talvez, a melhor descoberta para uma pessoa gorda é saber nenhuma característica física (ou mesmo social) que possuímos dá conta de responder sobre quem somos. Que nenhum atributo que temos nos traz a garantia de sermos amados. Que podemos contar apenas com o nosso desejo, com o nosso amor.

domingo, 27 de setembro de 2009

ANTICRISTO E O SALVADOR

O novo filme de Lars Von Trier, Anticristo, tem despertado comentários diversos entre as pessoas que conheço. Alguns não gostaram nem um pouco, acharam o trabalho do diretor pretensioso, cafona, pouco original ou mesmo infantil em sua tentativa de chocar e chamar a atenção. Outros dizem que gostaram, embora não consigam definir bem o porquê: talvez a bela e onírica sequência inicial, quem sabe a atuação dos atores, a fotografia...

Um amigo foi além e me disse que não sabe falar se gostou ou não, mas que, de alguma forma, foi tocado pelo filme, que algum desconforto foi provocado apesar de não poder nomeá-lo ou explicá-lo. Concordo com este amigo, saí do cinema sem poder comentar nada a não ser pela negação: não é um filme de terror, não é uma obra que tenta renovar a linguagem cinematográfica, não se parece muito com os trabalhos anteriores do diretor. Sobre o que era então, sobre meu entendimento a respeito do que tinha assistido, não conseguia dizer palavra.

E a incerteza em relação ao filme não me abandonou com o passar dos dias. Ao contrário, o enigma me perseguiu e foi aumentando diante das opiniões variadas dos amigos. E enigmas demandam algum tipo de resposta, algum tipo de invenção, mesmo que precária.

Então, relembrando Anticristo, pensei em como achei chatos os diálogos nos quais o terapeuta tenta curar a própria mulher traumatizada pela morte acidental do filho pequeno. Em nome do seu amor pela esposa, ele se dispõe a salvá-la da dor por meio de modorrentas técnicas psicológicas após o fracasso do tratamento farmacológico.

O curioso é que embora pareçam estereotipados, os recursos terapêuticos empregados pelo zeloso marido correspondem aos que hoje são prevalentes nos congressos, na literatura científica e nos consultórios dos profissionais da área de saúde mental.

As técnicas de psicoterapia mais recomendadas e utilizadas são aquelas que acreditam que o paciente pode superar seu trauma e se livrar de pensamentos irracionais por meio de uma “desensibilização” pelo confronto direto com aquilo que lhe desperta o medo imaginário.

Deste modo, o marido pede que sua mulher cite as coisas que lhe provocam medo. Depois, que coloque cada coisa em uma ordem de intensidade, para no fim eleger um jardim conhecido da família como aquilo que mais lhe causa pavor. O casal parte, então, para o tal jardim (significativamente chamado de Éden) que se mostra na realidade uma área de montanhas isoladas e cobertas por uma floresta fechada, um lugar de natureza bruta.

Após ter contato com o ambiente que lhe despertava o medo, para a surpresa do próprio marido-terapeuta, a paciente tem uma melhora súbita e completa dos traumas. O sucesso fácil e inesperado do tratamento é o início de um mundo caótico que se revela diante do racional psicólogo. A natureza selvagem se volta contra ele e toma conta do corpo de sua mulher que, para o horror de feministas e politicamente corretos, se mostra totalmente descontrolada, incapaz de respeitar qualquer regra psicológica ou biológica, qualquer bom senso lógico ou civilizado, qualquer limite moral ou sentimento amoroso. Diante da devastação da mulher, de seu indomável impulso destruidor, a única saída é assassiná-la. De salvador, o terapeuta passa a assassino.

Talvez seja este um dos pontos de incômodo que o filme escancara: como a vida daqueles que buscam salvar terceiros pode ser ingrata. Como é triste a sina de pais e mães, maridos e esposas, padres, pastores, médicos, psicólogos e psicoterapeutas de diversas correntes, confrontados com filhos e companheiros que insistem em não seguir os bons conselhos, com fiéis que permanecem com a sua vida pecaminosa e desgarrada de Deus, com pacientes que, por mais bem orientados, continuam a ter comportamentos que sabidamente lhes fazem mal.

Que maldade é esta que escapa a qualquer tentativa de correção por mais bem intencionada que seja, que faz até pessoas bem criadas e que receberam as melhores oportunidades na vida terem atitudes destrutivas? Que mal é este que persiste na humanidade que mesmo após séculos de uso da razão, com todo o desenvolvimento filosófico, científico e tecnológico, ainda é palco dos piores e indignos crimes?

Em Anticristo se diz que a natureza (e talvez a mulher) é a igreja de Satanás. Poderíamos pensar que a Civilização (e os homens), então, é a casa de Deus. Durante séculos os homens tentaram civilizar, dominar, controlar ou domar o mundo natural e feminino em nome de Deus e em nome da razão. Quanto mais tradicional e autoritária é uma sociedade, mais distante esta deve estar da natureza selvagem, mais escondidas e apagadas devem estar as suas representantes do sexo feminino.

Mas por maior que fosse a camuflagem, por maior que fosse a tentativa de controle, a natureza indomável deu um jeito de se fazer presente. No Ocidente, diante do rigor religioso cristão: bruxas, diante da rigidez moral endossada por uma neurologia recém criada: histéricas, diante do dever da felicidade química ao alcance de qualquer um que possa comprá-la: dependentes de drogas, depressivos crônicos e refratários aos tratamentos e os famosos borderlines.

No passado, como solução, queimava-se as bruxas, trancafiava-se e isolava-se as histéricas. E hoje, quando o mal, assim como a demanda por felicidade, se espalhou por toda a humanidade, não respeitando sequer a boa divisão entre homens e mulheres? Para nos livrarmos do mal, se seguirmos a receita antiga, deveríamos matar todos os seres humanos. Um assassinato inútil: como no final de Anticristo, a natureza seguirá o seu rumo indiferente ao nosso desespero.

Em vez de tentar eliminar ou camuflar, talvez possamos encarar e fazer um novo uso do mal que insiste em estar presente na humanidade. O primeiro passo é desistirmos do papel de salvadores.

Quando ficamos diante de alguém que quer nos salvar, nos corrigir, ficamos cobrados a seguir e alcançar um ideal. A pessoa que quer salvar parece portar o conhecimento necessário para livrar a outra de todos os seus sofrimentos, de toda a sua angústia, de todo o seu desajuste. O salvador promete ter o caminho para a felicidade.

Entretanto, um ideal de felicidade só pode se manter se nunca for alcançado. Quando se chega à terra prometida, logo se descobre nela os defeitos, a distância entre a imagem que se tinha e a coisa real. Neste momento, se o que vendeu a receita não souber renovar a promessa, o devoto se sente enganado e da adoração passa ao ódio por aquele lhe fez cair no conto do vigário. Diante de um mestre, o discípulo se sente sempre aquém, rebaixado, roubado de sua possibilidade de ser feliz. O mestre promete, mas não dá. O salvador é percebido, com o passar do tempo, como um tirano, um dominador, alguém que nos escravizou e nos explorou fazendo–nos acreditar em uma ilusão. Deve, portanto, ser destruído.

Além da seu extermínio físico, deve-se acabar com as crenças que ele portava e difundia. Nesta disputa, o mestre é morto ou mata o discípulo rebelde. Se o revoltoso vencer a batalha, passar ele a ser o novo senhor da verdade, até uma nova rebelião.

Quem sabe não seja melhor abandonarmos os lugares de mestre ou discípulos invejosos do mestre, olharmos para a incerteza permanente do mundo e assumirmos apenas o lugar de inventores. Orientarmos-nos não por uma promessa segura e final de completude, mas por uma natureza que jamais poderá ser capturada. Irmos além da separação entre bem e mal, entre civilização e caos e das divisões ilusórias entre homens e mulheres.

A natureza e a mulher não são o lugar do mal, no sentido daquilo que se opõe ao bem. Elas são o indício daquilo que é real: a verdade está na natureza, na mulher. Quando não queremos saber disto, vendamos nossos olhos querendo acreditar que as nossas construções de mundo são o próprio mundo em si, que nossa representação do universo é o próprio universo, que a nossa imagem de uma mulher é a mulher.

A civilização é o lugar da mentira, do engano, da ficção. Se tentamos fazer a ferro e fogo nossas criações serem o mundo, nos dedicamos a um esforço inútil. Se ficamos parados e iludidos com nossas mentiras, a verdade uma hora ou outra cai sobre as nossas cabeças. Aí nos sentimos frustrados, deprimidos, despontados, achando que o universo é uma droga, que os seres humanos são vilões incorrigíveis e que nossa existência é uma porcaria.

Para a sorte dos seres humanos, a natureza feminina não deixou que permanecêssemos acomodados e tranquilos em nossas respostas. Ela se fez presente em homens e mulheres que não recuaram diante da verdade que lhes aparecia. Pessoas que souberam seguir em frente mesmo que para isto tivessem de abrir mão do reconhecimento ou de serem amados. Para alguns, o compromisso com a verdade falou mais alto do que salvar a própria imagem. Estes seres apaixonados tiveram a coragem de não acreditar nas “verdades” de seus tempos e propor novas soluções e novos arranjos.

Talvez a verdade que a natureza incontrolável nos revela seja esta: é impossível dominar o universo, é impossível entender e explicar o mundo, não existe sentido final, resposta última. A mulher não é o complemento do homem, nenhuma pessoa pode completar a outra. Uma verdade que escapa às nossas tentativas de dizê-la e que por isto está constantemente nos animando, nos convidando à vida e à invenção da realidade, dos outros e de nós mesmos. A civilização só se mantém por ser um projeto inacabado, o caos não a destrói, mas a orienta.

Se tirarmos as nossas vendas imaginárias, poderemos saber que já estamos no Jardim do Éden, mas sozinhos. Não há anticristo de quem reclamar, não há salvador por quem esperar. Adão e Eva terão de se virar em um paraíso sem Deus, sem serpente e no qual o fruto proibido é na verdade uma maçã qualquer.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

LEI ANTIFUMO E OSWALDO CRUZ

Pessoas que defendem a lei de restrição ao uso de cigarro em vigor no Estado de São Paulo usam o exemplo de Oswaldo Cruz para argumentar contra os que consideram a nova lei um ato de autoritarismo. Lembram que o admirável médico sanitarista também enfrentou a mesma acusação ao lutar pela obrigatoriedade da vacinação contra a varíola no Rio de Janeiro do início do século passado. Apesar da revolta de parte da população e da imprensa, Oswaldo Cruz conseguiu, com a sua cruzada, eliminar a doença que devastava a cidade.

Pena que este resultado tenha se limitado apenas ao controle da varíola e da febre amarela de então. A população do Rio (e de todo o país), principalmente a parte mais pobre, continuou enfrentando uma gama de moléstias ao viver sob péssimas condições sanitárias e receber humilhantes serviços públicos de saúde e de educação. Décadas depois, talvez para espanto do famoso sanitarista, o mesmo Rio de Janeiro segue infestado de mosquitos que, em vez de febre amarela, transmitem dengue hemorrágica.

A obrigatoriedade de vacinação no passado e a atual lei antifumo são exemplos de como os governos e também boa parcela da população enxergam o povo brasileiro: é dever do Estado Brasileiro civilizar os selvagens habitantes deste país.

Se tem-se a expectativa de que o brasileiro é por natureza irresponsável, cabe a um governo corajoso e que não se deixa contaminar pela baixa índole da população controlar esta tendência incivilizada por meio de leis, fiscalização e punição rigorosas. Somos alvo, então, de iniciativas de governantes que querem passar uma imagem de firmes e atualizados das práticas do primeiro mundo. São lançadas medidas modernizantes isoladas que têm pouco efeito geral sobre a vida das pessoas, mas que servem como um bom marketing para o político em questão.

Assim como um pai que tem a expectativa de que seu filho deve ser bem vigiado para não ser irresponsável acaba por ter um filho realmente irresponsável, um governo que tenha a expectativa de uma população com comportamentos incivilizados termina por formar cidadãos com comportamentos antissociais. Governados, assim como filhos, gostam de seguir a expectativa dos seus mestres, sejam eles pais ou governantes.

E por que o governo do país não muda de expectativa, por que aos poucos não começa a tirar as catracas do metrô, por que não insiste em colocar latas de lixo nas ruas mesmo que inicialmente elas sejam depredadas e por que não oferece serviços públicos de qualidade em vez das precariedades de hoje? Por que não apostar que os cidadãos podem ser responsáveis pela liberdade que têm, por que não passar a confiar na capacidade de convivência das pessoas, de que livres elas podem encontrar um jeito de manter o convívio social?

Queremos ser como a China, um país em que o Estado não dá liberdade para seus cidadãos e que impõe todas as medidas que julga necessárias para a boa convivência? Ter um governo que trata os habitantes como se fossem indivíduos atrasados que precisam ser modernizados (copiando modelos ocidentais) à força? Será que devemos também acreditar que as pessoas do nosso país se tiverem acesso livre à internet e contato com outras ideias que não as do partido oficial podem ser influenciadas e manipuladas por dominadores estrangeiros? Será que o governo chinês acredita que seus cidadãos são todos ingênuos sem capacidade de crítica e de ter decisões próprias? Que pais é este que quer se tornar uma potência mundial, que quer liderar outros países, mas que tem a sua própria população em tão baixa conta?

O Brasil poderia seguir outro rumo. Mostrar que não se muda a vida de um povo reforçando preconceitos em relação a este mesmo povo por meio de práticas de proibição, fiscalização e punição. Há séculos os brasileiros são governados com a expectativa de ser um população incivilizada sem que isto nos trouxesse uma mudança importante em nossa realidade.

Os países nórdicos, como a Dinamarca, foram exemplos de nações que resolveram apostar na responsabilidade de seus cidadãos. Por muito tempo as restrições e vigilâncias foram mínimas. Mas aos poucos, após a chegada de imigrantes, de povos diferentes, têm adotado leis de restrição à liberdade individual. Confiavam em seus habitantes enquanto eles eram homogêneos.

O Brasil poderia tomar a dianteira. Em vez de ficar com a prática provinciana de seguir fórmulas de fora que já sabemos fracassadas, ser o primeiro país a mostrar que se pode confiar em seus cidadãos mesmo eles sendo diferentes, heterogêneos. Seria o melhor e fundamental exemplo de liberdade que este país poderia dar ao mundo em tempos de controle e paranóia.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

DÚVIDA

Já tinha ouvido falar da força do texto da peça Dúvida, de John Patrick Shanley, e do impacto que a sua montagem causou nos EUA. Recentemente tive a oportunidade de assistir, em DVD, à adaptação feita pelo próprio autor para o cinema.

Para quem não teve a chance de ver a peça ou o filme, segue um resumo: na década de 60 do século passado, em uma época de liberalização dos costumes, a Igreja Católica passa por um processo de modernização de suas práticas. Em um tradicional colégio católico americano, um freira defensora dos velhos valores é obrigada a conviver com um novo padre liberal. Pouco a pouco a resoluta freira é tomada pela desconfiança de que as novas ideias do sacerdote, na verdade, servem para esconder e, quem sabe, justificar um comportamento perverso. O padre estaria usando sua posição para seduzir um jovem aluno negro discriminado pelos colegas brancos. Buscando provas, a religiosa começa a investigar a vida do padre e a vigiá-lo com a ajuda de outras freiras. Qualquer indício, como um simples carinho do sacerdote no menino, é considerado uma evidência de pedofilia. Mesmo sem uma prova definitiva, a irmã consegue o afastamento do padre de sua escola. O interessante é que quando o filme termina não sabemos quem estava certo. Não há um julgamento sobre quem estava com a razão, quem na realidade era vilão ou bonzinho. Saímos desamparados de uma lição de moral. Assim como a freira, ficamos perdidos na angústia da dúvida se o padre cometeu ou não o crime.

Se pensarmos que a liberdade de costumes não se deu apenas dentro da Igreja Católica, mas que atingiu todas as esferas sociais, podemos generalizar a incerteza que o filme levanta. Um mundo mais livre seria também um mundo mais perigoso. As pessoas de bem podem, em um meio libertário, estar à mercê de enganadores e aproveitadores que têm como objetivo exclusivo prejudicar os outros.

Assim como a religiosa do filme, a sociedade tenta encontrar mecanismos de vigilância para que possamos pegar os incapazes de conviver em liberdade com a boca na botija. A medicina, apoiada em suposições biológicas, tenta definir quais seriam as pessoas propensas a um comportamento antissocial. Se pudermos prevenir e detectá-las antes que cometam suas vilanias, melhor ainda. Não é de se estranhar que nas listas de livros mais vendidos encontremos guias que serviriam para ajudar as pessoas a reconhecer um psicopata à sua volta.

Uma sociedade livre deve ser também uma sociedade de controle. Câmaras em todos os prédios, casas e ruas. Fiscalização em todas as atividade humanas, qualquer brecha cria a oportunidade para o bandido. Ameaças de multas e cadeia para segurar os impulsos criminosos que, afinal de contas, podem estar em qualquer um que tiver uma liberdade sem vigilância.

Pais devem monitorar seus filhos para que não sejam vítimas de pervertidos que abusam da inocência infantil. Esposas devem acompanhar cada passo de seus maridos para que não sejam trocadas por uma biscate qualquer. Namorados e namoradas devem investigar a vida pregressa de seus companheiros, acompanhar diariamente seus Orkuts e seguidores no Twitter. O inimigo pode morar ao lado.

Pior, o inimigo pode estar dentro de nós. Contra a nossa vontade, podemos ser acometidos por alterações em nossa química cerebral que nos fariam ter atos indesejáveis. Por esta visão, o ser humano é por natureza perigoso. Se não formos bem controlados em nossos impulsos vamos acabar nos matando ou matando os outros. Então, chamamos o Estado para nos vigiar e nos punir, somos todos potencialmente irresponsáveis, potencialmente criminosos. Invertemos o valor de que todos são inocentes até que se prove o contrário: agora, a princípio, todos são culpados. E que venham leis secas, restrições quase totais ao uso de cigarro e outras limitações da liberdade individual baseadas em dados estatísticos e científicos que supostamente seriam a revelação da verdade das coisas (só nos esquecemos de que os cientistas e estatísticos, assim como os representantes do governo encarregados de nos controlar e nos bem proteger, são tão humanos quanto qualquer um e também estão sujeitos aos mesmos vícios e descontroles).

Se as pessoas gastam seus esforços, economias e votos para apoiar a vigilância geral é porque devem encontrar alguma satisfação aí. Os intelectuais, escritores e outros artistas que no passado previram o mundo Big Brother talvez ficassem surpreendidos ao constatar que esta realidade não precisou ser imposta autoritariamente, mas que contou com a escolha e a participação dos vigiados.

É que, se por um lado, a paranóia é sufocante e aprisionadora, por outro ela sustenta a crença de que se somos protegidos de nossos inimigos somos também mais amados. Nosso protetor cuida de nós, ele nos ama. E, se conseguirmos eliminar tudo aquilo que nos atrapalha, seremos plenos e encontraremos a felicidade. A paranóia é uma forma de manter um ideal de felicidade e por isto é tão aceita em nossa sociedade.

Mas a promessa de proteção total é uma falsa promessa de amor e de felicidade, é um engodo. É impossível controlar o universo, é impossível termos segurança e certeza em nossas ações, é impossível alguém que nos proteja totalmente, que nos complete, que feche todos os nossos buracos e brechas, que nos traga a felicidade plena.

E se desejamos saber se alguém está nos enganando basta ver se esta pessoa promete dar o que é impossível.

Enganador e aproveitador é quem promete um mundo seguro e sem vilões. Charlatão é aquele que diz que sabe os meios para se encontrar paz, tranquilidade e segurança plena, a cura de todos os nossos males, de nosso mal-estar permanente. É curioso que livros que ensinam como detectar os psicopatas sejam eles próprios, em suas falsas receitas e expectativas, um exemplo de psicopatia.

A nossa expectativa de completude, de segurança total, de amor perfeito é que cria os vilões à nossa volta. Dizemos que abusaram de nossa boa fé, da liberdade que demos a eles para depois sermos trapaceados. Mas nós criamos os inimigos esperando deles algo que não podem dar: nós quisemos ser enganados, ficar no me engana que eu gosto. Assim, quando a felicidade não vem, podemos culpar os outros ou mesmo as nossas próprias vilanias e fraquezas por não termos encontrados a satisfação esperada. Daqui a pouco estaremos culpando os governos, os cientistas, os gurus espirituais e os escritores de auto-ajuda pelas promessas não cumpridas. Serão os vilões do futuro, como os economistas e financistas são os malfeitores do momento, após venderem a felicidade na riqueza ao alcance de todos.

Elegemos um culpado para não sabermos do impossível da satisfação total. Assim, sustentamos a crença de que basta eliminarmos a causa de nosso infortúnio para sermos felizes. Só que este processo não tem fim, acabamos em uma dúvida permanente.

Diante da dúvida ficamos ansiosos por encontrar uma resposta definitiva e, como ela é impossível, ficamos apenas sofrendo de ansiedade. Uma dúvida nunca pode ser resolvida, uma dúvida gera outra em um processo sem fim. Se dizemos que a psicopatia está no cérebro de um pessoa e que este cérebro é determinado por uma genética, teríamos também de encontrar o que determina a genética de alguém e o que determina o que determina a genética e assim por diante. Por isto este caminho sempre acaba em Deus, a causa última. Uma ciência que visa encontrar as causas das coisas acaba por ser uma boa companheira para as religiões. Não é de se estranhar que muitas seitas modernas se utilizem de conceitos científicos para justificar as suas crenças.

Nunca poderemos determinar a causa final de nenhum comportamento humano. Uma atitude questionadora diante do mundo não vem de quem está na dúvida: quem tem dúvida sempre tem a esperança de uma resposta, acredita em uma imagem definitiva e em algum momento dá um jeito de acreditar que a encontrou. Da dúvida chega ao dogma.

A única maneira de resolvermos a dúvida é eliminarmos aquilo que nos traz a dúvida. Por isto muitas pessoas, para não ter de lidar com a dúvida de ser amado, preferem não viver o amor. Assim como em um relacionamento a busca por querer entender o outro acaba em briga e no fim da relação, nossa busca por querer entender e controlar o mundo pode nos levar ao aniquilamento. Se interpretarmos a liberdade que vivemos hoje como um risco de sermos alvo de vilões, se formos tomados pela angústia desta dúvida, pode ser que acabemos por destruir a nós mesmos. Se a humanidade quiser ficar livre de todos os seus males, é possível que a saída seja a sua própria eliminação. Ao contrário, para estar vivo, para existir, é preciso fazer bom uso do mal-estar. Espero que seja esta a escolha que prevaleça.

Quem opta por ser em vez de não ser deve saber que a condição desta escolha é ter a certeza do impossível da completude: só se pode ser enquanto invenção permanente e sem fim. Deve-se passar da dúvida para a certeza do impossível.

Deste modo, podemos apostar que a liberdade faz um homem criativo e não criminoso e que, em vez da ilusão de um Estado protetor, de um outro enganador que promete a completude e a segurança, se pode acreditar em alguém mais próximo que ensina com o seu amor que, mesmo sendo imperfeita, uma pessoa pode gostar de si. Em vez de vilões que impedem a felicidade plena, alguém que ajuda o outro a ser feliz usando aquilo que tem. Em vez de causas, soluções e em vez de dúvida, invenção.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

ENCONTROS E DESENCONTROS : SER AMANTE NÃO É A MESMA COISA QUE SER AMADO

Toda vez que nos deparamos com alguém que nos atrai, alguém que nos desperta interesse, somos geralmente tomados pela dúvida: será que esta pessoa também gosta de mim?

Diante deste questionamento ficamos inseguros e, nesta condição, é muito difícil que o encontro com a pessoa querida ocorra. É comum no relato de quem conseguiu formar um casal que o encontro entre os dois se deu de maneira inesperada, por acaso, quando não havia expectativas ou cobranças, quando se estava desarmado.

Quando estamos armados da dúvida sobre a correspondência ou não do amor de quem supomos querer, ficamos no lugar de carentes. A pessoa carente tem a crença de que o seu amado tem as características necessárias para lhe trazer a satisfação, a felicidade plena. Enfim, o carente idealiza o outro como aquele que lhe trará a completude. A sua expectativa na relação é ser completado pelo outro.

Para conseguir ser amada, a pessoa carente vende a esperança de que só ela também pode completar o amado, que só ela realmente o ama, que foram feitos um para o outro. Cobra que o outro reconheça isto, como se o amor fosse uma troca na mesma medida. O relacionamento, então, quando ocorre, se dá pelo medo de perder o outro, por uma busca de segurança, como uma obrigação ou um dever.

Uma relação que se sustente no temor e na cobrança pode até trazer uma promessa de conforto e segurança para o casal, mas na prática é vivida de forma bastante conflituosa. Normalmente em um casal assim, um ocupa o lugar de carente e o outro o de amado. As posições podem se inverter com o tempo, mas sem uma coincidência temporal dos lugares. Como em uma disputa de gato e rato, quando se é amado não se ama e quando se ama não se é amado.

Para manter este jogo, é necessário que a pessoa amada permaneça no seu lugar idealizado, sempre superior e distante. O carente só sustenta seu amor enquanto é desprezado pelo outro. Diante de qualquer ideal, como o da pessoa amada que nos completaria, ficamos no lugar de defeituosos, de menos, de insuficientes, de errados, de pecadores. A pessoa carente se coloca em uma lugar de inferioridade e justamente neste lugar que é reconhecida e tratada: como uma porcaria, como alguém sem sensualidade ou capacidade de sedução, alguém que não merece ser amado ou que se está junto apenas por obrigação ou dó.

Se por alguma razão o carente percebe que o amado também o ama, que o outro lhe disse sim finalmente, passa pouco a pouco a pensar que se enganou, que agora não quer mais, que gosta de outra pessoa. E os que sempre ocuparam o lugar de amados, se por algum motivo perdem os seus adoradores, quando por exemplo estes morrem, descobrem que na verdade amavam o outro que desprezavam, mas agora é tarde para voltar atrás. Enfim, o amor sustentado na idealização é um eterno desencontro.

É possível que os relacionamentos baseados no ideal de completude só se sustentem em uma sociedade organizada por obrigações e compromissos sociais, como o casamento e o dever de formar uma família.

Em um mundo como o nosso, em que cada vez mais não há padrões gerais que definam as relações entre as pessoas e em que, a princípio, se poderia escolher qualquer um para amar e estar, a expectativa de ser amado talvez não permita a união entre as pessoas. É curioso observar que em uma sociedade em que os casais podem se unir por amor e nenhuma outra obrigação, o encontro entre duas pessoas pareça cada vez mais ser superficial e fugaz.

Quando estamos livres, quando não temos mais proibições ou deveres para poder amar, nos deparamos com a frustração de que o outro não pode nos completar. Diante desta constatação, podemos ficar desanimados, queixosos ou nos resignarmos de que o amor não existe, que é uma ilusão boba, que só queremos sexo ou uma companhia para ir ao cinema, nada muito duradouro.

Talvez devêssemos mudar de expectativa amorosa para possibilitarmos novos encontros. Temos práticas novas mas ainda estamos permeados por crenças antigas.

Se conseguíssemos abandonar a fé na completude e se, em vez de uma obrigação ou uma prisão, pudéssemos perceber uma relação a dois como uma escolha, é provável que encontrássemos a oportunidade de um novo amor.

Quando idealizamos alguém e queremos que este nos complete, chamamos de amor a expectativa de ser amado. Neste caso, amar e esperar ser amado se confundem. De forma diferente, quando alguém por acaso nos despertar paixão, podemos considerar que esta pessoa na verdade está nos convidando a nos percebermos como desejantes e não como carentes. Desejar é amar na posição de quem se sabe imperfeito sem possibilidade de cura, de alguém que ama mas não pode ser amado ou completado e que por isto tem de estar sempre amando, animado, inventando e criando repostas na vida.

Podemos, assim, tentar apostar que quando alguém nos fala “eu te amo” está dizendo “você provoca amor em mim”, “você desperta o meu amor” “você me faz amante” e não “você é amado por mim” ou “eu te completo e você me completa”. O amor do outro não faz ninguém completo, mas desejante.

Ser amado é um ideal ou um fim e, por isto, nunca deve ser alcançado. Deve ficar só na promessa. Apenas amar, sem a cobrança de ser amado, permite uma oportunidade real de encontro. Amar sem idealizar é perceber encanto no enigma que é o outro para mim. É ver beleza na incompletude, no que a outra pessoa nos traz de real, quando estamos próximos, no presente e não apenas enquanto ideal, no como deveria ser, quando estamos distantes, na impossibilidade, no não tem jeito, no desencontro. No amor idealizado quando um ama o outro não pode amar, um é amado e o outro quer ser amado. No amor desejante os dois provocam amor um no outro, os dois são amantes ao mesmo tempo.

Para que haja o encontro entre dois amantes é necessário que pelo menos um dos dois consiga sair da dúvida, da insegurança de ser amado e acreditar e insistir em amar apenas. Que um não exija provas de amor do outro e nem se sinta na obrigação de oferecê-las. Que ensine, com o seu exemplo, que é possível amar sem a expectativa de ser amado. Deste modo, não deve cobrar que o outro faça o mesmo que ele e que queira ser amante também, não dever fazer ameaças e nem colocar temores, mas permitir a escolha. Se por acaso a outra pessoa topar poderá haver o encontro.

Quem vive de idealizar o amor exige do outro uma coisa que ele não pode dar. Como é impossível completar alguém (talvez só na morte se encontre o sossego, a segurança e a paz da completude) o final de toda idealização são acusações contra o amado que lhe prometeu uma coisa e entregou outra. Dormimos com o príncipe ou a princesa e acordamos com o vilão ou a bruxa.

Os aspirantes a amados estão sempre inseguros, sempre na expectativa de perder o lugar imaginário que buscam, sempre ansiosos, na paranóia, no medo de ser menos queridos e por fim rejeitados.

Diante da angústia de se perceber incompleto, do nosso mal-estar incurável, podemos apelar para a ilusão do outro, para a crença de que se pode encontrar alguém que nos complete, que nos ame totalmente. Outra alternativa seria lançar mão da criatividade, ter o amor não como um fim, mas como ferramenta para viver. Quem escolhe desconhecer a incompletude vive na esperança de um outro que nunca vem, se entretendo em expectativas frustradas e paralisado em sua capacidade criativa. Quem sabe do impossível e inclui a impossibilidade de perfeição em sua vida, se vê como criador, como agente. Um fica no lugar de mal-amado, o outro no de amante.

Afinal, o impossível de ser compreendido é que permite comunicar, o impossível de ser escutado é que permite falar e o impossível de ser amado é que permite amar.