Desde a posse de Lula e do início da administração petista no governo federal, acompanha-se pela imprensa o aumento no número de concessões de vultosas indenizações financeiras para indivíduos que se consideram prejudicados pela ditadura militar.
Famosos e bem-sucedidos artistas, jornalistas e políticos, além de desconhecidos de várias categorias profissionais, sem o menor pudor, recorreram aos cofres públicos para receber milionárias compensações por possíveis danos às suas carreiras devido às suas lutas em defesa da liberdade política.
Se impressiona o fato destas indenizações terem valores muito superiores a outras reclamações que se tem notícia no país, como, por exemplo, nos casos que envolvem a indústria de cigarros, talvez seja de maior relevância as suas conseqüências éticas.
Pode-se argumentar que estas recompensas são injustas pois não se pode medir com precisão os efeitos das perseguições realizadas pelo regime militar no desenvolvimento profissional de uma pessoa. Pressupõe-se que todos seriam indivíduos extremamente competentes que teriam atingido o topo de suas carreiras caso não fossem alvo da investida dos militares. Além disto, muitos dos solicitantes alcançaram sucesso profissional justamente por terem seus nomes associados à luta contra a ditadura.
Aqueles que não combateram, ou mesmo apoiaram os militares (a maioria da população brasileira), não podem se queixar a ninguém por não terem sido bem-sucedidos em suas carreiras. Não interessa se a pessoa se considera lesada pelo fato de ter nascido pobre em uma cidade em que não havia oferta de ensino público de boa qualidade. Só os perseguidos pela ditadura são as verdadeiras vítimas. Portanto, embora se mostrem como uma busca por compensação econômica, estas indenizações, no fundo, representam um julgamento de valor, um julgamento ético.
Além de estabelecer que aqueles que foram alvo dos militares são indivíduos de maior competência na sociedade, as milionárias compensações trazem conseqüências mais importantes.
Se os solicitantes de indenizações queixam-se de ter sido prejudicados em suas vidas pela perseguição da ditadura, eles também estão dizendo que a sua luta por liberdade política e de opiniões foi danosa, que só vale a pena combater o autoritarismo se recebermos em troca uma boa recompensa econômica. Enfim, o que importa na vida não é a defesa da liberdade, não é a honra desta causa, mas a busca por conforto econômico.
Do Brasil à China, os sonhadores de esquerda viraram capitalistas pragmáticos, se renderam às supostas evidências de que o acúmulo de dinheiro é o grande valor humano. De românticos passaram a cínicos (uma metamorfose mais comum do que se pensa, pois é provável que sejam, como se diz popularmente, faces de uma mesma moeda ou farinha do mesmo saco).
Os outrora comunistas e socialistas dão razão aos militares que os acusavam de ser jovens tolos e cheios de sonhos idiotas. Não é só o comunismo que está errado, mas também a defesa do direito de querer mudanças, de pensar diferente, de buscar liberdade. Não são só as idéias, as teorias, que defendiam que se mostraram um engano, mas, da mesma maneira, as suas ações, as suas atitudes de questionamento. O que importa é defender a autoridade, a ordem e a segurança, principalmente a financeira. E todo conformismo com uma resposta, seja ela qual for, como valor humano maior, representa uma ditadura.
Os indenizados, boa parte senhores que já atingiram a casa dos setenta anos ou mais, tratam de garantir maior conforto para si e seus familiares. Boas viagens, bons hospitais em caso de necessidade, imóveis valiosos, uma grande reserva no banco, uma excelente herança.
Esta será a herança que deixarão para seus filhos e netos, este será o exemplo que passarão para as gerações mais novas. Suas batalhas, o fato de abrir mão de sua comodidade, correr riscos e até mesmo ter sido alvo de sofrimentos físicos em nome de acreditar que era possível mudar as coisas, em nome da liberdade, tudo isto foi anulado em troca de milhões de reais.
Se esquecem que talvez, assim, estejam apagando a própria razão de suas vidas. Colocam uma pá de cal em cima dos únicos momentos que valeram as suas passagens pelo mundo, os únicos instantes que deram significado às suas existências. Anulam a si próprios. Deixarão dinheiro, conformismo e mais nada.
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
VICKY CRISTINA BARCELONA E EU?
Quem assistiu ao filme de Woody Allen, Vicky Cristina Barcelona, em cartaz na cidade, pode ter saído do cinema com vários questionamentos.
As mulheres se perguntando se são realmente felizes em seus relacionamentos, se também não deveriam experimentar uma aventura amorosa como a vivida pelos personagens do filme. Os homens incomodados pela suspeita, até então inédita, de que suas namoradas e esposas possam não ser tão fiéis quanto eles gostariam de crer. Em ambos os casos, dúvidas muito bem vindas para aqueles que não querem que as suas relações amorosas se transformem em obrigações tediosas.
Muitos consideram que as grandes obras são aquelas que denunciam as misérias, opressões e violências sofridas por determinadas categorias humanas, como mulheres, judeus ou pobres. Diante de trabalhos com esta temática, as pessoas podem se sentir indignadas ou mesmo revoltadas contra os poderosos causadores de tais injustiças. Alguns realizadores, como Michael Moore, se imaginam inovadores e promotores de mudanças sociais ao fazer trabalhos que denunciam a corrupção e as mazelas provocadas pelos tiranos do mundo.
As obras que têm como objetivo fazer uma denúncia apontam, para as pessoas que as consomem, os culpados pela infelicidade de terceiros ou delas mesmas. Estas criações trazem a crença que, se eliminássemos os vilões e toda a sujeira mundial, seríamos felizes. Quem assiste a um documentário de Moore chega à conclusão de que bastaria dar um fim a Bush e seus comparsas para se encontrar a paz e a justiça no planeta.
O espectador de tais trabalhos sente-se confortável na sua condição de superioridade moral. O problema é sempre com os outros, a falha ética de terceiros que não resistem às tentações do dinheiro, do consumismo, das drogas, do sexo, da busca sem limites pelo prazer. Os culpados pela destruição ambiental são as gananciosas corporações capitalistas. O responsável pelo baixo nível dos programas de televisão é o público ignorante, mal-educado e que só gosta de coisas fáceis. Com o espectador está tudo bem, os outros é que deveriam mudar. Ele defende uma vida regrada e correta: para viver em sociedade e ser um exemplo para os outros, as pessoas devem castrar os seus instintos prazerosos e animalescos.
Sejam de direita ou de esquerda, antigas ou recentes, as obras que trazem revelações e explicações sobre os males do mundo sempre são queixosas e moralistas.
Mas pode ser que ficar com uma pulga atrás da orelha depois de ver um filme, ler um livro ou assistir a uma peça de teatro seja uma alternativa melhor do que ter indignação, do que eleger culpados.
Uma obra vale se nos tocar, se nos causar incômodos, se questionar as nossas crenças, se nos tirar um pouco o chão. Enfim, se nos trouxer a possibilidade experimentar algum tipo de mudança, que depois do contato com ela nosso mundo seja algo diferente. Em vez de nos colocar como meros espectadores, a obra deve nos incluir, cobrar de nós alguma coisa.
Mas, para se ter questionamentos diante de uma criação alheia, para que seja possível mudar, é preciso saber-se não acabado, não santo, não perfeito. E, principalmente, não interpretar esta falha como um defeito, uma inferioridade ou um pecado, mas como uma liberdade, um convite à nossa participação na invenção do mundo e de nós mesmos, um convite à ação, à criação, ao amor.
Não é uma questão de trocar a culpa de terceiros pela minha, de ser humilde, de ser um católico em confissão. Não há quem possa nos desculpar, nos perdoar. Temos de eliminar a própria noção de culpa. Se haver como o desamparo de não podermos, com precisão, eleger os responsáveis pelo nosso mal-estar. Talvez o receio de se tomar esta posição seja que, ao eliminarmos um outro que seja o causador de nossa infelicidade, eliminamos também a possibilidade de um outro que nos traga a felicidade.
O problema é que os queixosos, os moralistas e os denunciadores se consomem na expectativa nunca cumprida de um dia viver em um mundo correto e livre de todo o mal. Acreditam que não só a sua insatisfação, mas que também a sua satisfação depende somente dos outros. Ficam esperando eternamente e terminam infelizes. A felicidade é apenas uma promessa que não chega.
Os desamparados de alguém que seja responsável pela sua infelicidade ou felicidade podem pelo menos se perguntar: como é que, não sendo Vicky, nem Cristina e nem morando em Barcelona, eu posso ser feliz?
As mulheres se perguntando se são realmente felizes em seus relacionamentos, se também não deveriam experimentar uma aventura amorosa como a vivida pelos personagens do filme. Os homens incomodados pela suspeita, até então inédita, de que suas namoradas e esposas possam não ser tão fiéis quanto eles gostariam de crer. Em ambos os casos, dúvidas muito bem vindas para aqueles que não querem que as suas relações amorosas se transformem em obrigações tediosas.
Muitos consideram que as grandes obras são aquelas que denunciam as misérias, opressões e violências sofridas por determinadas categorias humanas, como mulheres, judeus ou pobres. Diante de trabalhos com esta temática, as pessoas podem se sentir indignadas ou mesmo revoltadas contra os poderosos causadores de tais injustiças. Alguns realizadores, como Michael Moore, se imaginam inovadores e promotores de mudanças sociais ao fazer trabalhos que denunciam a corrupção e as mazelas provocadas pelos tiranos do mundo.
As obras que têm como objetivo fazer uma denúncia apontam, para as pessoas que as consomem, os culpados pela infelicidade de terceiros ou delas mesmas. Estas criações trazem a crença que, se eliminássemos os vilões e toda a sujeira mundial, seríamos felizes. Quem assiste a um documentário de Moore chega à conclusão de que bastaria dar um fim a Bush e seus comparsas para se encontrar a paz e a justiça no planeta.
O espectador de tais trabalhos sente-se confortável na sua condição de superioridade moral. O problema é sempre com os outros, a falha ética de terceiros que não resistem às tentações do dinheiro, do consumismo, das drogas, do sexo, da busca sem limites pelo prazer. Os culpados pela destruição ambiental são as gananciosas corporações capitalistas. O responsável pelo baixo nível dos programas de televisão é o público ignorante, mal-educado e que só gosta de coisas fáceis. Com o espectador está tudo bem, os outros é que deveriam mudar. Ele defende uma vida regrada e correta: para viver em sociedade e ser um exemplo para os outros, as pessoas devem castrar os seus instintos prazerosos e animalescos.
Sejam de direita ou de esquerda, antigas ou recentes, as obras que trazem revelações e explicações sobre os males do mundo sempre são queixosas e moralistas.
Mas pode ser que ficar com uma pulga atrás da orelha depois de ver um filme, ler um livro ou assistir a uma peça de teatro seja uma alternativa melhor do que ter indignação, do que eleger culpados.
Uma obra vale se nos tocar, se nos causar incômodos, se questionar as nossas crenças, se nos tirar um pouco o chão. Enfim, se nos trouxer a possibilidade experimentar algum tipo de mudança, que depois do contato com ela nosso mundo seja algo diferente. Em vez de nos colocar como meros espectadores, a obra deve nos incluir, cobrar de nós alguma coisa.
Mas, para se ter questionamentos diante de uma criação alheia, para que seja possível mudar, é preciso saber-se não acabado, não santo, não perfeito. E, principalmente, não interpretar esta falha como um defeito, uma inferioridade ou um pecado, mas como uma liberdade, um convite à nossa participação na invenção do mundo e de nós mesmos, um convite à ação, à criação, ao amor.
Não é uma questão de trocar a culpa de terceiros pela minha, de ser humilde, de ser um católico em confissão. Não há quem possa nos desculpar, nos perdoar. Temos de eliminar a própria noção de culpa. Se haver como o desamparo de não podermos, com precisão, eleger os responsáveis pelo nosso mal-estar. Talvez o receio de se tomar esta posição seja que, ao eliminarmos um outro que seja o causador de nossa infelicidade, eliminamos também a possibilidade de um outro que nos traga a felicidade.
O problema é que os queixosos, os moralistas e os denunciadores se consomem na expectativa nunca cumprida de um dia viver em um mundo correto e livre de todo o mal. Acreditam que não só a sua insatisfação, mas que também a sua satisfação depende somente dos outros. Ficam esperando eternamente e terminam infelizes. A felicidade é apenas uma promessa que não chega.
Os desamparados de alguém que seja responsável pela sua infelicidade ou felicidade podem pelo menos se perguntar: como é que, não sendo Vicky, nem Cristina e nem morando em Barcelona, eu posso ser feliz?
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
cais
Milton Nascimento/Ronaldo Bastos
Para quem quer se soltar invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor de encontrar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar
Para quem quer se soltar invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor de encontrar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
AMAR E A IMPOSSIBILDADE DE SER AMADO
O poeta Carlos Drummond de Andrade, em seu poema Amar, pergunta: Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?
No entanto, parece que a maioria das pessoas vive com outra expectativa: entre as criaturas, ser amada por elas.
Os indivíduos têm como maior objetivo na vida receber o reconhecimento dos outros. Entendem que ser amado é igual a ser reconhecido. Todos os esforços, privações e sofrimentos têm como alvo final receber a recompensa de ser admirado, seja por uma pessoa específica ou pela sociedade.
Por exemplo, mesmo nos grupos terapêuticos que se auto denominam como Mulheres que Amam Demais, com uma observação e uma escuta mais aprofundadas destas mulheres, percebe-se que talvez o nome mais adequado seja Mulheres que Esperam Ser Amadas Demais (se só amassem já estariam tratadas).
No passado, uma pessoa era reconhecida pela sua posição na sociedade, pelos cargos que ocupava na hierarquia social. Hoje as pessoas esperam ser amadas por aquilo que acumularam: a quantidade de dinheiro, os prêmios recebidos, as fotos em revistas de famosos, os amigos no Orkut, quantos convites vips, etc.
Antigamente a possibilidade de ser reconhecido socialmente era para poucos. Só uma pequeníssima minoria tinha acesso às posições admiradas em seu meio. E muitos as recebiam por herança, sem qualquer esforço. A grande maioria se contentava apenas em tentar ser amada por Deus e receber o reconhecimento após a morte, seja no paraíso ou no inferno.
No mundo atual as possibilidades de reconhecimento se democratizaram. A fama pode estar à disposição de todos aqueles que se esforçarem para alcançá-la. Todas as ações visam o olhar dos outros, em bancar uma imagem que possa ser admirada.
Se a satisfação está em ser amado, fica-se sempre fazendo cena para o outro. Deste modo, a pessoa acaba prisioneira de um imaginário, se pergunta qual cena, qual imagem deve apresentar para que o outro a ame. Quais as palavras certas a dizer, quais os comportamentos corretos a adotar. Passa a buscar receitas de como se mostrar, de como aumentar o seu ibope (se pudessem todos contratariam um marqueteiro pessoal). O resultado é que toda a experiência de vida torna-se artificial, fake, empostada. É uma sensação que hoje facilmente se constata, por exemplo, em qualquer entrevista de celebridades na televisão, sejam elas do meio artístico, político ou mesmo intelectual. Não há o compromisso de trazer questões, de tentar dizer algo que se perceba como mais verdadeiro, mais sincero, mas somente de falar aquilo que se supõe que o público deseja ouvir, aquilo que não comprometa a boa imagem. A ousadia e a inovação desapareceram dos meios de comunicação. Mas não é só na TV. Parece que, em qualquer lugar, todos têm uma câmera diante de si, que estão todos no Big Brother. O tempo inteiro as pessoas estão fazendo cena, fazendo pose.
É possível que aqueles que dedicam sua vida ao reconhecimento não consigam experimentar a vida como defende Drummond. Buscam desesperadamente ser amados mas, em troca, renunciam a possibilidade de amar. Ser amado ao preço de não poder amar.
Para amar é preciso estar fora da cena, da armadura de se tentar encontrar uma imagem que possa ser amada e reconhecida. Amar é sinal de que existe uma falha em si e no outro, que não se é perfeito, que se tem buracos, que não se pode vender nem comprar uma imagem ideal para ser venerada. Só ama aquele que percebe o outro e si próprio como incompletos. Amar envolve levar fora, sentir dor, ser ridículo, perder coisas, ficar ciente da solidão.
Amar nunca é uma imagem plena de felicidade. Não se vêem pessoas que amam nas revistas de celebridades. Vêem-se apenas imagens que buscam ser reconhecidas. Amar é ação, é algo que existe enquanto se pratica, uma vivência puramente pessoal que não pode ser fotografada como uma cena idealizada.
Quem já foi a uma festa de lançamento de novela, cheia de famosos, ou passou um final de semana na Ilha de Caras sabe que não existe nada mais artificial e sem graça do que estas experiências. Ao contrário do que possa parecer, do que mostram as revistas, talvez as celebridades tenham vidas muito mais aborrecidas do que a da jovem que mora no morro e sofre com o namorado bêbado e desempregado.
Amar é uma ação sem fim, não visa a um objeto acabado. É uma eterna invenção. Por isto, embora as pessoas possam amar, elas não podem ser amadas, reconhecidas enquanto uma imagem final, pronta e perfeita. Existe uma distância entre a idealização que se faz de alguém e o que esta pessoa é. Ama-se fantasiando, fazendo uma invenção e não encontrando o verdadeiro amor. Esta deve ser a razão de os amantes estarem sempre se surpreendendo com os amados.
Como é comum ouvir que em determinado momento se descobriu que a pessoa antes amada é muito diferente da idealização que se tinha dela. O problema é que, nestas horas, se troca uma fantasia por outra. De príncipe ou princesa, passa-se a perceber o outro como sapo. Mas, no fundo, ninguém é Deus ou diabo. Somos um mistério constante para os outros, uma imagem inacabada.
Mas se não se pode ser amado, se pode provocar amor em alguém. Para isto, somos permanentemente convidados a nos reinventar, a mudar. Se paramos, se nos convencemos de uma imagem, se nos sentimos amados e reconhecidos, deixamos de provocar amor, de demandar invenção. É preciso amar a si próprio e se enxergar também como uma criação sem fim.
Provocar amor não é igual a cobrar e esperar que o outro me ame. Depende de nós e não do outro. Um encontro entre duas pessoas, uma relação amorosa, pode ocorrer quando cada uma consegue provocar amor na outra. Para isto é necessário abandonar a expectativa de ser amado. Trata-se de um paradoxo interessante: Para encontrar o amor de outra pessoa é preciso se convencer da solidão.
Entender que amar é inventar permite fazer uma diferenciação entre celebridades e artistas. A celebridade está sempre atrás do reconhecimento. Já o artista tem como principal objetivo fazer uma obra. O reconhecimento é conseqüência, não a meta primeira. Uma obra é uma demanda de invenção, algo que exige vir ao mundo. Ela usa o artista para ser criada, mas depois torna-se independente dele. Seu uso e apropriação posteriores escapam de qualquer controle de quem as criou. O artista acaba se sentindo usado: a obra é que é reconhecida, não ele.
Para quem se preocupa em ser reconhecido não é bom negócio ser artista. O artista pode até obter reconhecimento, mas sempre posterior a sua criação, muitas vezes após a sua morte. O artista que cria algo que é admirado de imediato pode se encantar e, neste momento, deixa de ser artista. Acredita que encontrou a fórmula certa, pára de criar e passa apenas a se repetir. Nada de novo acrescenta.
Mas qual a vantagem de se dedicar a vida a uma obra, a uma invenção? Quem sabe a possibilidade de amar. De experimentar esta condição que talvez seja a única real, autêntica, que pode tocar o nosso corpo.
Ser amado, reconhecido, é algo que se fica tentando a vida inteira sem se alcançar. É viver para uma ilusão, é viver sem viver. Diante da promessa nunca cumprida de ser bem-amadas, as pessoas acabam se percebendo como mal-amadas. Mesmo as celebridades, com o tempo, são descartadas e esquecidas, perdem a veneração de seus fãs. O público quer sempre imagens novas para alimentar a sua ilusão.
Sentir-se mal-amado, esta é a grande queixa de homens e mulheres. Seria melhor se haver com o fato de que ser amado é uma impossibilidade. Uma criatura só pode amar, só pode criar. E amar é uma ação sem retorno. Versos de Drummond: doação ilimitada a uma completa ingratidão.
Amor sem conta, não há outra saída para os seres humanos. Amar é a característica humana essencial, a nossa maior diferença em relação às outras existências do universo. Ao amar, inventamos um outro amado, inventamos nós mesmos, as coisas, a realidade. Amar é a solução humana para a impossibilidade de ser amado, de tudo conhecer, de conquistar o universo, de vencer a morte. Mas, para amar, temos de saber deste impossível, temos de encará-lo e até mesmo amá-lo. O poeta finaliza: Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
No entanto, parece que a maioria das pessoas vive com outra expectativa: entre as criaturas, ser amada por elas.
Os indivíduos têm como maior objetivo na vida receber o reconhecimento dos outros. Entendem que ser amado é igual a ser reconhecido. Todos os esforços, privações e sofrimentos têm como alvo final receber a recompensa de ser admirado, seja por uma pessoa específica ou pela sociedade.
Por exemplo, mesmo nos grupos terapêuticos que se auto denominam como Mulheres que Amam Demais, com uma observação e uma escuta mais aprofundadas destas mulheres, percebe-se que talvez o nome mais adequado seja Mulheres que Esperam Ser Amadas Demais (se só amassem já estariam tratadas).
No passado, uma pessoa era reconhecida pela sua posição na sociedade, pelos cargos que ocupava na hierarquia social. Hoje as pessoas esperam ser amadas por aquilo que acumularam: a quantidade de dinheiro, os prêmios recebidos, as fotos em revistas de famosos, os amigos no Orkut, quantos convites vips, etc.
Antigamente a possibilidade de ser reconhecido socialmente era para poucos. Só uma pequeníssima minoria tinha acesso às posições admiradas em seu meio. E muitos as recebiam por herança, sem qualquer esforço. A grande maioria se contentava apenas em tentar ser amada por Deus e receber o reconhecimento após a morte, seja no paraíso ou no inferno.
No mundo atual as possibilidades de reconhecimento se democratizaram. A fama pode estar à disposição de todos aqueles que se esforçarem para alcançá-la. Todas as ações visam o olhar dos outros, em bancar uma imagem que possa ser admirada.
Se a satisfação está em ser amado, fica-se sempre fazendo cena para o outro. Deste modo, a pessoa acaba prisioneira de um imaginário, se pergunta qual cena, qual imagem deve apresentar para que o outro a ame. Quais as palavras certas a dizer, quais os comportamentos corretos a adotar. Passa a buscar receitas de como se mostrar, de como aumentar o seu ibope (se pudessem todos contratariam um marqueteiro pessoal). O resultado é que toda a experiência de vida torna-se artificial, fake, empostada. É uma sensação que hoje facilmente se constata, por exemplo, em qualquer entrevista de celebridades na televisão, sejam elas do meio artístico, político ou mesmo intelectual. Não há o compromisso de trazer questões, de tentar dizer algo que se perceba como mais verdadeiro, mais sincero, mas somente de falar aquilo que se supõe que o público deseja ouvir, aquilo que não comprometa a boa imagem. A ousadia e a inovação desapareceram dos meios de comunicação. Mas não é só na TV. Parece que, em qualquer lugar, todos têm uma câmera diante de si, que estão todos no Big Brother. O tempo inteiro as pessoas estão fazendo cena, fazendo pose.
É possível que aqueles que dedicam sua vida ao reconhecimento não consigam experimentar a vida como defende Drummond. Buscam desesperadamente ser amados mas, em troca, renunciam a possibilidade de amar. Ser amado ao preço de não poder amar.
Para amar é preciso estar fora da cena, da armadura de se tentar encontrar uma imagem que possa ser amada e reconhecida. Amar é sinal de que existe uma falha em si e no outro, que não se é perfeito, que se tem buracos, que não se pode vender nem comprar uma imagem ideal para ser venerada. Só ama aquele que percebe o outro e si próprio como incompletos. Amar envolve levar fora, sentir dor, ser ridículo, perder coisas, ficar ciente da solidão.
Amar nunca é uma imagem plena de felicidade. Não se vêem pessoas que amam nas revistas de celebridades. Vêem-se apenas imagens que buscam ser reconhecidas. Amar é ação, é algo que existe enquanto se pratica, uma vivência puramente pessoal que não pode ser fotografada como uma cena idealizada.
Quem já foi a uma festa de lançamento de novela, cheia de famosos, ou passou um final de semana na Ilha de Caras sabe que não existe nada mais artificial e sem graça do que estas experiências. Ao contrário do que possa parecer, do que mostram as revistas, talvez as celebridades tenham vidas muito mais aborrecidas do que a da jovem que mora no morro e sofre com o namorado bêbado e desempregado.
Amar é uma ação sem fim, não visa a um objeto acabado. É uma eterna invenção. Por isto, embora as pessoas possam amar, elas não podem ser amadas, reconhecidas enquanto uma imagem final, pronta e perfeita. Existe uma distância entre a idealização que se faz de alguém e o que esta pessoa é. Ama-se fantasiando, fazendo uma invenção e não encontrando o verdadeiro amor. Esta deve ser a razão de os amantes estarem sempre se surpreendendo com os amados.
Como é comum ouvir que em determinado momento se descobriu que a pessoa antes amada é muito diferente da idealização que se tinha dela. O problema é que, nestas horas, se troca uma fantasia por outra. De príncipe ou princesa, passa-se a perceber o outro como sapo. Mas, no fundo, ninguém é Deus ou diabo. Somos um mistério constante para os outros, uma imagem inacabada.
Mas se não se pode ser amado, se pode provocar amor em alguém. Para isto, somos permanentemente convidados a nos reinventar, a mudar. Se paramos, se nos convencemos de uma imagem, se nos sentimos amados e reconhecidos, deixamos de provocar amor, de demandar invenção. É preciso amar a si próprio e se enxergar também como uma criação sem fim.
Provocar amor não é igual a cobrar e esperar que o outro me ame. Depende de nós e não do outro. Um encontro entre duas pessoas, uma relação amorosa, pode ocorrer quando cada uma consegue provocar amor na outra. Para isto é necessário abandonar a expectativa de ser amado. Trata-se de um paradoxo interessante: Para encontrar o amor de outra pessoa é preciso se convencer da solidão.
Entender que amar é inventar permite fazer uma diferenciação entre celebridades e artistas. A celebridade está sempre atrás do reconhecimento. Já o artista tem como principal objetivo fazer uma obra. O reconhecimento é conseqüência, não a meta primeira. Uma obra é uma demanda de invenção, algo que exige vir ao mundo. Ela usa o artista para ser criada, mas depois torna-se independente dele. Seu uso e apropriação posteriores escapam de qualquer controle de quem as criou. O artista acaba se sentindo usado: a obra é que é reconhecida, não ele.
Para quem se preocupa em ser reconhecido não é bom negócio ser artista. O artista pode até obter reconhecimento, mas sempre posterior a sua criação, muitas vezes após a sua morte. O artista que cria algo que é admirado de imediato pode se encantar e, neste momento, deixa de ser artista. Acredita que encontrou a fórmula certa, pára de criar e passa apenas a se repetir. Nada de novo acrescenta.
Mas qual a vantagem de se dedicar a vida a uma obra, a uma invenção? Quem sabe a possibilidade de amar. De experimentar esta condição que talvez seja a única real, autêntica, que pode tocar o nosso corpo.
Ser amado, reconhecido, é algo que se fica tentando a vida inteira sem se alcançar. É viver para uma ilusão, é viver sem viver. Diante da promessa nunca cumprida de ser bem-amadas, as pessoas acabam se percebendo como mal-amadas. Mesmo as celebridades, com o tempo, são descartadas e esquecidas, perdem a veneração de seus fãs. O público quer sempre imagens novas para alimentar a sua ilusão.
Sentir-se mal-amado, esta é a grande queixa de homens e mulheres. Seria melhor se haver com o fato de que ser amado é uma impossibilidade. Uma criatura só pode amar, só pode criar. E amar é uma ação sem retorno. Versos de Drummond: doação ilimitada a uma completa ingratidão.
Amor sem conta, não há outra saída para os seres humanos. Amar é a característica humana essencial, a nossa maior diferença em relação às outras existências do universo. Ao amar, inventamos um outro amado, inventamos nós mesmos, as coisas, a realidade. Amar é a solução humana para a impossibilidade de ser amado, de tudo conhecer, de conquistar o universo, de vencer a morte. Mas, para amar, temos de saber deste impossível, temos de encará-lo e até mesmo amá-lo. O poeta finaliza: Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
sábado, 15 de novembro de 2008
BARACK HUSSEIN OBAMA E A GLOBALIZAÇÃO
O presidente eleito dos Estados Unidos é filho de um queniano, nasceu fora do continente americano (no Havaí), morou um tempo na Indonésia e tem um nome que remete tanto à África e a países islâmicos quanto aos dois principais malfeitores do governo que vai suceder: Saddam Hussein e Osama Bin Laden.
Mais do que permitir que o primeiro negro (ou mulato) chegasse à presidência, a maior importância desta eleição talvez esteja na associação de Obama com países pobres e alguns classificados pelo seu antecessor como integrantes do eixo do mal. Sua vitória foi comemorada entusiasticamente não só nos EUA, mas em toda periferia do mundo.
Não sei se ele dará crédito aos dados biográficos que o ligam à parte marginalizada do planeta. Poder ser que tente ignorá-los e governe apenas com o objetivo de atender aos interesses norte-americanos. Se agir assim, Obama estará cometendo um erro grave. O engano está no fato de que a saída para a atual crise mundial pode depender da eliminação das diferenças econômicas e morais entre os diversos países.
A eleição de Obama mostrou que, em uma nação anteriormente tida como racista, a cor do candidato não importa mais. A escolha de um negro para o cargo mais importante do planeta nos diz que a maioria das pessoas não acredita no fator raça como algo que realmente represente uma divisão significativa entre os seres humanos. Significativa no sentido de poder-se dizer que determinada raça seja superior ou inferior a outra. Que se possa classificar alguém como melhor ou pior tendo em vista a sua origem racial.
Mas a vitória do filho de um queniano deveria também indicar que outra divisão já não convence mais no sentido de se poder estabelecer separações hierárquicas entre os indivíduos que habitam o planeta: a nacionalidade de cada um.
Do mesmo modo que não existem mais argumentos com um mínimo de validade para atestar que brancos, negros ou amarelos sejam melhores uns que os outros, não se pode mais defender que iranianos sejam superiores ou inferiores a noruegueses.
Assim como as diferenças entre raças são apenas superficiais e aparentes, as diversas nacionalidades também não diferem em sua essência e nas suas condições de desenvolvimento. Independente de onde se tenha nascido e da cultura herdada, a globalização mostrou que as potencialidades humanas são as mesmas. E, se cai por terra a crença na hierarquia de nacionalidades, tem-se como conseqüência lógica a queda também dos indicadores que apontam que uma nação é melhor ou pior que outra: a divisão entre países ricos e pobres, a divisão entre países do bem ou do mal.
A globalização, ao contrário do que muitos pensam, talvez seja mais a eliminação das separações hierárquicas entre as nações do que a imposição do capitalismo sobre todos os povos. Uma imposição que tenderia só a aprofundar a distância entre ricos e pobres. O que se globalizou foi a percepção de que todos podem ter o direito de mudar de vida sem levar em conta as condições fixas do nascimento. Aquilo que se afirmou entre os norte-americanos acabou por se difundir como um desejo mundial: o indivíduo pode ser responsável por inventar a sua história. Que nenhum fator geral como raça, etnia, nacionalidade, crença religiosa ou aspecto físico significa uma limitação real à mudança e ao desenvolvimento de uma pessoa.
Não se resolverá a crise atual mantendo as restrições e os protecionismos que impedem que os diferente países possam permitir aos seus cidadãos melhorar de vida. Não dá mais para conter o movimento legítimo que demanda o fim da divisão da riqueza mundial . Não é mais possível a defesa apenas dos interesses nacionais. Pensar antes em seu país representa hoje uma obscenidade. A globalização fez os EUA serem toda a terra. E Barack Obama deveria aceitar o que a imprensa mostrou: que ele não foi eleito só pelos EUA mas por todo o planeta.
É possível que tenha acabado a era de países imperialistas, hegemônicos, das potências mundiais.
A própria questão ecológica mostra que os efeitos das economias locais são globais. Para se pensar regionalmente deve-se levar em conta o que está sendo feito em todo o planeta. E se não temos recursos naturais ou capacidade ambiental para que todos os terráqueos tenham as mesmas condições de consumo que americanos ou japoneses, temos de repensar a idéia de que a satisfação está no acúmulo de bens e passar a apostar que ela possa estar mais no uso do que temos. Um mundo cuja felicidade está na aquisição sem fim de produtos é uma mundo ainda destinado a manter a hierarquia entre privilegiados e deserdados.
No futuro, com as quedas de fronteiras e a livre circulação dos indivíduos, talvez as pessoas possam viver sob bandeiras diversas, competir nas Olimpíadas sob variados nomes ou classificações. Mas estas divisões representarão o mesmo que uma divisão entre flamenguistas, corintianos ou colorados. Não se pode fazer qualquer afirmação sobre algo preciso que os diferencie, de características comuns que os definam enquanto grupo. Que a única diferença seja a escolha individual por determinado clube, o fato de se estar em determinado momento sob a mesma bandeira.
Mais do que permitir que o primeiro negro (ou mulato) chegasse à presidência, a maior importância desta eleição talvez esteja na associação de Obama com países pobres e alguns classificados pelo seu antecessor como integrantes do eixo do mal. Sua vitória foi comemorada entusiasticamente não só nos EUA, mas em toda periferia do mundo.
Não sei se ele dará crédito aos dados biográficos que o ligam à parte marginalizada do planeta. Poder ser que tente ignorá-los e governe apenas com o objetivo de atender aos interesses norte-americanos. Se agir assim, Obama estará cometendo um erro grave. O engano está no fato de que a saída para a atual crise mundial pode depender da eliminação das diferenças econômicas e morais entre os diversos países.
A eleição de Obama mostrou que, em uma nação anteriormente tida como racista, a cor do candidato não importa mais. A escolha de um negro para o cargo mais importante do planeta nos diz que a maioria das pessoas não acredita no fator raça como algo que realmente represente uma divisão significativa entre os seres humanos. Significativa no sentido de poder-se dizer que determinada raça seja superior ou inferior a outra. Que se possa classificar alguém como melhor ou pior tendo em vista a sua origem racial.
Mas a vitória do filho de um queniano deveria também indicar que outra divisão já não convence mais no sentido de se poder estabelecer separações hierárquicas entre os indivíduos que habitam o planeta: a nacionalidade de cada um.
Do mesmo modo que não existem mais argumentos com um mínimo de validade para atestar que brancos, negros ou amarelos sejam melhores uns que os outros, não se pode mais defender que iranianos sejam superiores ou inferiores a noruegueses.
Assim como as diferenças entre raças são apenas superficiais e aparentes, as diversas nacionalidades também não diferem em sua essência e nas suas condições de desenvolvimento. Independente de onde se tenha nascido e da cultura herdada, a globalização mostrou que as potencialidades humanas são as mesmas. E, se cai por terra a crença na hierarquia de nacionalidades, tem-se como conseqüência lógica a queda também dos indicadores que apontam que uma nação é melhor ou pior que outra: a divisão entre países ricos e pobres, a divisão entre países do bem ou do mal.
A globalização, ao contrário do que muitos pensam, talvez seja mais a eliminação das separações hierárquicas entre as nações do que a imposição do capitalismo sobre todos os povos. Uma imposição que tenderia só a aprofundar a distância entre ricos e pobres. O que se globalizou foi a percepção de que todos podem ter o direito de mudar de vida sem levar em conta as condições fixas do nascimento. Aquilo que se afirmou entre os norte-americanos acabou por se difundir como um desejo mundial: o indivíduo pode ser responsável por inventar a sua história. Que nenhum fator geral como raça, etnia, nacionalidade, crença religiosa ou aspecto físico significa uma limitação real à mudança e ao desenvolvimento de uma pessoa.
Não se resolverá a crise atual mantendo as restrições e os protecionismos que impedem que os diferente países possam permitir aos seus cidadãos melhorar de vida. Não dá mais para conter o movimento legítimo que demanda o fim da divisão da riqueza mundial . Não é mais possível a defesa apenas dos interesses nacionais. Pensar antes em seu país representa hoje uma obscenidade. A globalização fez os EUA serem toda a terra. E Barack Obama deveria aceitar o que a imprensa mostrou: que ele não foi eleito só pelos EUA mas por todo o planeta.
É possível que tenha acabado a era de países imperialistas, hegemônicos, das potências mundiais.
A própria questão ecológica mostra que os efeitos das economias locais são globais. Para se pensar regionalmente deve-se levar em conta o que está sendo feito em todo o planeta. E se não temos recursos naturais ou capacidade ambiental para que todos os terráqueos tenham as mesmas condições de consumo que americanos ou japoneses, temos de repensar a idéia de que a satisfação está no acúmulo de bens e passar a apostar que ela possa estar mais no uso do que temos. Um mundo cuja felicidade está na aquisição sem fim de produtos é uma mundo ainda destinado a manter a hierarquia entre privilegiados e deserdados.
No futuro, com as quedas de fronteiras e a livre circulação dos indivíduos, talvez as pessoas possam viver sob bandeiras diversas, competir nas Olimpíadas sob variados nomes ou classificações. Mas estas divisões representarão o mesmo que uma divisão entre flamenguistas, corintianos ou colorados. Não se pode fazer qualquer afirmação sobre algo preciso que os diferencie, de características comuns que os definam enquanto grupo. Que a única diferença seja a escolha individual por determinado clube, o fato de se estar em determinado momento sob a mesma bandeira.
Marcadores:
crise econômica,
eixo do mal,
globalização,
obama,
países pobres
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
ENSINAR E ESTUDAR: OBRIGAÇÃO X PRAZER
Li que o atual governo da Itália está promovendo o retorno de métodos de avaliação mais rigorosos no sistema de educação do país. Os estudantes voltarão a ser avaliados por pontos, de 0 a 10, ao contrário do atual método que, de modo genérico, apenas classifica o desempenho de cada aluno como insuficiente ou suficiente. No novo modelo, uma parte dos pontos será dada de acordo com o comportamento do estudante em sala de aula. Os bagunceiros e arteiros deverão ser punidos em nome da boa disciplina. E, se os resultados ainda se mostrarem aquém do esperado, talvez o sr. Berlusconi opte por um rigor ainda maior, ressuscitando palmatórias e, quem sabe, o ordeiro método de deixar alunos rebeldes ajoelhados sobre grãos de milho (não sei se na Itália existem varas de marmelo).
A reforma italiana não é uma iniciativa isolada do governo, mas atende a uma demanda dos assustados professores do país, que não sabem mais o que fazer contra a truculência e a violência dos jovens estudantes sem limites. Esta queixa não é só dos educadores italianos, mas parece comum em todos os lugares em que foram adotados modelos de ensino mais liberalizantes com menor rigor na avaliação. Em várias cidades do Brasil, por exemplo, é freqüente o relatos de professores estressados com a indisciplina ou mesmo com as ameaças de agressões físicas por parte do alunos.
É um esquema que temos visto de uma forma geral no mundo de hoje: queda de modelos autoritários, maior liberdade, medo da liberdade, tentativas de retorno dos sistemas autoritários. Dá-se um passo para frente e depois outro para trás. Assim, corre-se o risco de jamais sair do lugar. E o que fica parado, em nosso ambiente em constante mudança, tende a perecer. A capacidade de adaptação e sobrevivência está na habilidade de mudar.
Talvez o problema dos modelos liberalizantes implementados esteja muito mais no que eles ainda carregam dos sistemas tradicionais do que em seu objetivo de criar condições de relacionamentos humanos que não passem pela arbitragem de uma autoridade, em sua essência de liberdade e de responsabilidade individual.
Na educação, por exemplo, por mais que tenha diminuído o poder dos professores nas salas de aula e por mais democráticas que sejam as novas pedagogias, elas ainda se sustentam sobre o mesmo sentimento de dever e de obrigação dos modelos rigorosos do passado.
No sistema tradicional, os estudantes têm a obrigação de estudar para tirar boas notas e passar de ano para alcançar o objetivo final de ser uma pessoa honrada na sociedade. Eles têm o dever de atender o que os pais esperam deles. O ato de estudar é sempre movido por uma ameaça, pelo medo de ser punido caso não se tenha um bom desempenho. O professor, assim como um pai, é uma autoridade investida de poder, deve ser respeitado e temido. O conhecimento e o saber são vistos como uma imposição, como algo ruim e difícil que se deve engolir para se atingir um objetivo maior que é tornar-se um individuo socialmente reconhecido.
Estudar, neste modelo, é um esforço doloroso e árduo, mas que poderá trazer aos que se submeterem a ele recompensas futuras. O aluno deve apenas memorizar o conteúdo pronto que lhe é dado, não interessando os questionamento sobre os ensinamentos apresentados. O saber está do lado apenas dos professores, sendo o aprendiz como uma caixa vazia a ser preenchida pelo conhecimento acabado dos seus mestres. Se algo não vai bem, a culpa é exclusiva do aluno que não se dedicou como deveria. A forma de se corrigir isto é com uma boa punição, um castigo severo. O professor é colocado em um lugar divino e os estudantes no de potenciais pecadores.
Passamos deste modelo autoritário para outro que preconiza maior respeito aos estudantes. Cada aluno tem o direito de ser ouvido em seus questionamentos e as relações devem ser mais igualitárias, sendo o poder dos professores sujeito a limites. São proibidos castigos físicos e mesmo aqueles verbais que representem um ofensa moral ao aluno. Se o desempenho não é o desejado, deve-se avaliar a responsabilidade por isto em algo externo ao próprio estudante. Pode ser um problema social como a pobreza, familiar como abusos violentos cometidos pelos pais, alguma doença ou condição física não diagnosticada como dislexia ou, quem sabe, professores mal preparados. Pelo visto, este último parece ser o alvo cada vez mais freqüente nos diagnósticos das falhas educacionais de hoje.
A culpa deixou de ser dos alunos, que sempre são encarados como vítimas, e passou para o lado dos educadores. Os professores devem dar aulas de acordo com métodos padronizados, seguir as receitas pedagógicas estabelecidas e, do mesmo modo que seus aprendizes, ser avaliados por medidas quantitativas. Não há espaço para a habilidade individual, para a criatividade de cada um.
Os modelos liberalizantes ainda mantêm, mesmo que invertida, a mesma divisão entre culpados e inocentes do modelo tradicional. Ser professor passou a ser sinônimo de uma vida profissional sofrida e estressante. Os alunos se transformaram em pequenos tiranos.
Outro fator comum tanto no método tradicional quanto no democrático é que eles colocam o saber, o aprendizado, apenas como um meio de se atingir algo mais importante na vida. O valor e a satisfação não estão no conhecimento, mas nas recompensas que ele pode trazer. Estuda-se e sacrifica-se pensando que, desta maneira, será possível ter uma profissão importante, ganhar dinheiro, adquirir bens de consumo e ser reconhecido socialmente.
O professor não é mais uma autoridade temida, mas um empregado contratado que, assim como as matérias estudadas, é somente uma ferramenta para se alcançar o sucesso esperado. Diante deste cenário não se pode estranhar a pouca valorização atual dos professores em relação a outros profissionais.
Mas a tentativa de ressuscitar a autoridade de professores por meio de avaliações mais rigorosas e da ameaça de punição pode se mostrar totalmente ineficaz. Deve-se levar em conta que os educadores, assim como todas as demais autoridades, perderam seu poder e status porque a história nos mostrou que seu saber não era pleno, mas cheio de falhas. Percebeu-se que as avaliações são sempre subjetivas, mesmo que tenham uma aparência matemática e objetiva, e que elas respondem a caprichos sobre os quais a própria pessoa que as aplica não tem pleno conhecimento e controle. Não se pode recuperar a crença na infalibilidade dos mestres apenas pelo medo de receber punição. Seria pedir aos estudantes para que eles fossem idiotas. Além disto, uma aposta nos números, em uma tentativa de objetivar as avaliações, só fará com que o conhecimento continue sendo encarado como uma obrigação, um mal necessário e, desta forma, continuaremos tendo professores e ensino desvalorizados.
Talvez a melhor forma de seguir em frente e não ficar retrocedendo a toda hora seja apostar em uma maneira de tornar prazerosa a experiência do conhecimento. Para isto, é necessário que o saber tenha um valor em si, que ele traga satisfação, que ele seja a própria recompensa. Para tanto, as falhas e os buracos no conhecimento trazido pelos professores deveriam ser interpretados não como um erro, um problema, mas como um convite para a contribuição de cada estudante. O conhecimento, desta forma, é visto como um projeto inacabado, mas nem por isto ruim. Ao contrario, é nesta falta de completude que se encontra o seu encanto.
Ao se colocar o valor não no acúmulo de saber mas no seu uso, na possibilidade da sua invenção, o aluno se sente incluído e responsável. De um aprendiz oco, passa a ocupar o lugar de um pesquisador iniciante. Em vez de uma obrigação, aprender, assim, pode se tornar um prazer, uma brincadeira séria.
Tanto professores quanto alunos deixam de ficar se culpando um ao outro por seus fracassos e podem passar a se perceber como parceiros.
O problema de se tentar um ensino por prazer e não por obrigação é que se precisa de professores que sustentem esta possibilidade. De educadores que não temam a liberdade dos seus alunos, que não queiram ser respeitados e temidos, mas admirados pelo seu encanto em relação ao saber, que não fiquem presos às ameaças ao seu lugar imaginário de poder. Professores que saibam que seu valor não está tanto no conhecimento que portam, mas nos seus exemplos de entusiasmo, que apostem que ensinar está muito mais próximo de contagiar do que de cobrar.
Professores que ditam conhecimento e que esperam que seus alunos aprendam por obrigação formam indivíduos sempre dependentes de um outro que lhes diga o que é o melhor a ser feito. Pessoas que serão eternos estudantes imaturos.
Professores que escolham fazer do saber uma invenção e compartilham prazer ao ensinar formam indivíduos criativos, que não se frustram nem desanimam diante das incertezas com as quais se deparam na vida. Pessoas que tomam para si a responsabilidade pelo conhecimento.
A reforma italiana não é uma iniciativa isolada do governo, mas atende a uma demanda dos assustados professores do país, que não sabem mais o que fazer contra a truculência e a violência dos jovens estudantes sem limites. Esta queixa não é só dos educadores italianos, mas parece comum em todos os lugares em que foram adotados modelos de ensino mais liberalizantes com menor rigor na avaliação. Em várias cidades do Brasil, por exemplo, é freqüente o relatos de professores estressados com a indisciplina ou mesmo com as ameaças de agressões físicas por parte do alunos.
É um esquema que temos visto de uma forma geral no mundo de hoje: queda de modelos autoritários, maior liberdade, medo da liberdade, tentativas de retorno dos sistemas autoritários. Dá-se um passo para frente e depois outro para trás. Assim, corre-se o risco de jamais sair do lugar. E o que fica parado, em nosso ambiente em constante mudança, tende a perecer. A capacidade de adaptação e sobrevivência está na habilidade de mudar.
Talvez o problema dos modelos liberalizantes implementados esteja muito mais no que eles ainda carregam dos sistemas tradicionais do que em seu objetivo de criar condições de relacionamentos humanos que não passem pela arbitragem de uma autoridade, em sua essência de liberdade e de responsabilidade individual.
Na educação, por exemplo, por mais que tenha diminuído o poder dos professores nas salas de aula e por mais democráticas que sejam as novas pedagogias, elas ainda se sustentam sobre o mesmo sentimento de dever e de obrigação dos modelos rigorosos do passado.
No sistema tradicional, os estudantes têm a obrigação de estudar para tirar boas notas e passar de ano para alcançar o objetivo final de ser uma pessoa honrada na sociedade. Eles têm o dever de atender o que os pais esperam deles. O ato de estudar é sempre movido por uma ameaça, pelo medo de ser punido caso não se tenha um bom desempenho. O professor, assim como um pai, é uma autoridade investida de poder, deve ser respeitado e temido. O conhecimento e o saber são vistos como uma imposição, como algo ruim e difícil que se deve engolir para se atingir um objetivo maior que é tornar-se um individuo socialmente reconhecido.
Estudar, neste modelo, é um esforço doloroso e árduo, mas que poderá trazer aos que se submeterem a ele recompensas futuras. O aluno deve apenas memorizar o conteúdo pronto que lhe é dado, não interessando os questionamento sobre os ensinamentos apresentados. O saber está do lado apenas dos professores, sendo o aprendiz como uma caixa vazia a ser preenchida pelo conhecimento acabado dos seus mestres. Se algo não vai bem, a culpa é exclusiva do aluno que não se dedicou como deveria. A forma de se corrigir isto é com uma boa punição, um castigo severo. O professor é colocado em um lugar divino e os estudantes no de potenciais pecadores.
Passamos deste modelo autoritário para outro que preconiza maior respeito aos estudantes. Cada aluno tem o direito de ser ouvido em seus questionamentos e as relações devem ser mais igualitárias, sendo o poder dos professores sujeito a limites. São proibidos castigos físicos e mesmo aqueles verbais que representem um ofensa moral ao aluno. Se o desempenho não é o desejado, deve-se avaliar a responsabilidade por isto em algo externo ao próprio estudante. Pode ser um problema social como a pobreza, familiar como abusos violentos cometidos pelos pais, alguma doença ou condição física não diagnosticada como dislexia ou, quem sabe, professores mal preparados. Pelo visto, este último parece ser o alvo cada vez mais freqüente nos diagnósticos das falhas educacionais de hoje.
A culpa deixou de ser dos alunos, que sempre são encarados como vítimas, e passou para o lado dos educadores. Os professores devem dar aulas de acordo com métodos padronizados, seguir as receitas pedagógicas estabelecidas e, do mesmo modo que seus aprendizes, ser avaliados por medidas quantitativas. Não há espaço para a habilidade individual, para a criatividade de cada um.
Os modelos liberalizantes ainda mantêm, mesmo que invertida, a mesma divisão entre culpados e inocentes do modelo tradicional. Ser professor passou a ser sinônimo de uma vida profissional sofrida e estressante. Os alunos se transformaram em pequenos tiranos.
Outro fator comum tanto no método tradicional quanto no democrático é que eles colocam o saber, o aprendizado, apenas como um meio de se atingir algo mais importante na vida. O valor e a satisfação não estão no conhecimento, mas nas recompensas que ele pode trazer. Estuda-se e sacrifica-se pensando que, desta maneira, será possível ter uma profissão importante, ganhar dinheiro, adquirir bens de consumo e ser reconhecido socialmente.
O professor não é mais uma autoridade temida, mas um empregado contratado que, assim como as matérias estudadas, é somente uma ferramenta para se alcançar o sucesso esperado. Diante deste cenário não se pode estranhar a pouca valorização atual dos professores em relação a outros profissionais.
Mas a tentativa de ressuscitar a autoridade de professores por meio de avaliações mais rigorosas e da ameaça de punição pode se mostrar totalmente ineficaz. Deve-se levar em conta que os educadores, assim como todas as demais autoridades, perderam seu poder e status porque a história nos mostrou que seu saber não era pleno, mas cheio de falhas. Percebeu-se que as avaliações são sempre subjetivas, mesmo que tenham uma aparência matemática e objetiva, e que elas respondem a caprichos sobre os quais a própria pessoa que as aplica não tem pleno conhecimento e controle. Não se pode recuperar a crença na infalibilidade dos mestres apenas pelo medo de receber punição. Seria pedir aos estudantes para que eles fossem idiotas. Além disto, uma aposta nos números, em uma tentativa de objetivar as avaliações, só fará com que o conhecimento continue sendo encarado como uma obrigação, um mal necessário e, desta forma, continuaremos tendo professores e ensino desvalorizados.
Talvez a melhor forma de seguir em frente e não ficar retrocedendo a toda hora seja apostar em uma maneira de tornar prazerosa a experiência do conhecimento. Para isto, é necessário que o saber tenha um valor em si, que ele traga satisfação, que ele seja a própria recompensa. Para tanto, as falhas e os buracos no conhecimento trazido pelos professores deveriam ser interpretados não como um erro, um problema, mas como um convite para a contribuição de cada estudante. O conhecimento, desta forma, é visto como um projeto inacabado, mas nem por isto ruim. Ao contrario, é nesta falta de completude que se encontra o seu encanto.
Ao se colocar o valor não no acúmulo de saber mas no seu uso, na possibilidade da sua invenção, o aluno se sente incluído e responsável. De um aprendiz oco, passa a ocupar o lugar de um pesquisador iniciante. Em vez de uma obrigação, aprender, assim, pode se tornar um prazer, uma brincadeira séria.
Tanto professores quanto alunos deixam de ficar se culpando um ao outro por seus fracassos e podem passar a se perceber como parceiros.
O problema de se tentar um ensino por prazer e não por obrigação é que se precisa de professores que sustentem esta possibilidade. De educadores que não temam a liberdade dos seus alunos, que não queiram ser respeitados e temidos, mas admirados pelo seu encanto em relação ao saber, que não fiquem presos às ameaças ao seu lugar imaginário de poder. Professores que saibam que seu valor não está tanto no conhecimento que portam, mas nos seus exemplos de entusiasmo, que apostem que ensinar está muito mais próximo de contagiar do que de cobrar.
Professores que ditam conhecimento e que esperam que seus alunos aprendam por obrigação formam indivíduos sempre dependentes de um outro que lhes diga o que é o melhor a ser feito. Pessoas que serão eternos estudantes imaturos.
Professores que escolham fazer do saber uma invenção e compartilham prazer ao ensinar formam indivíduos criativos, que não se frustram nem desanimam diante das incertezas com as quais se deparam na vida. Pessoas que tomam para si a responsabilidade pelo conhecimento.
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
TRANSTORNO ECONÔMICO BIPOLAR E SEUS TRATAMENTOS
Estamos todos perdidos em relação à atual crise financeira mundial. As bolsas despencam, planos de emergência são feitos pelos governos, as bolsas voltam a subir para no outro dia afundar de novo. E ninguém consegue explicar de maneira convincente as razões das quedas ou das altas. Parece que assistimos a uma gangorra que tem vida própria e caprichos de humor que desconhecemos completamente. Não temos a menor idéia do que esperar, de quais serão as conseqüências da turbulência pela qual passamos.
Os sábios economistas, aqueles que conheciam de cor a fórmula segura para o contínuo desenvolvimento econômico, estão tão atordoados e inseguros sobre o que fazer quanto qualquer pessoa que não entende nada do mercado de capitais.
Mesmo os vários planos e ações lançados por governos de diferentes de países para solucionar a crise soam como tentativas assustadas sem qualquer garantia de sucesso.
Diante das incertezas, da falta de explicações convincentes, são apontados os culpados de sempre: a crise é conseqüência do individualismo e da ganância desenfreada humana, a mesma ganância que está destruindo a natureza e mantendo guerras injustas contra povos indefesos. Para segurar este descontrole, também o remédio é o mesmo do passado: maior presença do Estado na economia, mais fiscalização, mais rigor, mais punição.
Tanto mais verdadeira é a crença no pecado do querer demais como o culpado pelo transtorno econômico atual se levarmos em consideração que a crise teve origem no país visto como o mais ganancioso, arrogante e de menor controle do Estado na vida das pessoas: O Estados Unidos da América. O mesmo país que reluta em seguir as limitações para emissão de poluentes estabelecidas pelo Protocolo de Kyoto e que invadiu, sem nenhuma razão convincente, o Iraque. E agora a especulação desregulada de seu sistema financeiro poderá causar a recessão da economia mundial. A liberdade dos americanos estaria prejudicando todo o planeta.
Na última grande crise econômica mundial, após a Primeira Guerra Mundial, diante das incertezas e da queda de modelos de segurança anteriores, muitos países fizeram a opção de ser guiados por governos e líderes fortes que prometiam a volta da ordem. Este processo resultou na Segunda Guerra, nos crimes nazistas, na morte de milhões de pessoas e na destruição de vários países. No fim, o grande vitorioso, o país que melhor soube sair da turbulência e orientar uma nova organização mundial, foi justamente aquele que não recorreu às receitas autoritárias do passado. O país que apostou em soluções novas para os conflitos de seu tempo, na liberdade e na capacidade individual de seus cidadãos. Os mesmos EUA que agora são apontados como responsáveis pela decadência mundial.
Após a queda da inimiga União Soviética, os EUA, como única nação hegemônica, parecem ter ficado assustados e perdidos no papel de guia mundial. Tomaram para si a função de botar ordem no planeta, de resolver todos os conflitos. Os americanos acreditavam na capacidade individual de seus compatriotas de se virar mas não demonstraram a mesma crença em relação aos habitantes de outros países. E o lugar de pai mundial, com o tempo, começou a cobrar o seu preço.
Nos últimos anos os americanos têm vestido a roupa de um império decadente. Passaram a se comparar e a reconhecer em si vícios iguais aos que levaram Roma a perder o seu império. Ficaram com vergonha das características que marcaram sua particularidade no mundo. O liberalismo econômico, a confiança na capacidade empreendedora de cada indivíduo na conquista de uma vida melhor , a pouca regulação e presença estatal, o acolhimento de diferentes formas de pensamento, as garantias à liberdade individual. Parece que os americanos se sentem arrependidos disto tudo. A jovem e confiante nação de repente se vê velha e frágil.
Onze de setembro, George Bush e seus auxiliares moralistas e incompetentes, fracassos no Iraque, no Afeganistão e em Israel, aquecimento global, crescimento da direita cristã, os dogmas matemáticos, o convencimento cego de que bastam uma pesquisa quantitativa e uma análise estatística para se encontrar a verdade das coisas, a idiotice do politicamente correto e da literatura de auto-ajuda, Michael Moore, China e outros países anteriormente pobres e atrasados crescendo a taxas vertiginosas. Tudo isto culminando com a perda da liderança no número de medalhas nas últimas olimpíadas. Os americanos chegaram a conclusão que as suas fórmulas não funcionam mais. Não sabem mais apontar os caminhos para o mundo, começam a copiar modelos que preconizam a maior intervenção do Estado contra tudo o que acreditaram no passado. Diante da crise dão um passo para trás. Talvez fosse melhor inventar um forma de seguir caminhando para frente.
O fato de encontrarmos obstáculos pelo caminho, de novos problemas surgirem a cada passo, mostra apenas que nenhuma fórmula é perfeita e definitiva que, por exemplo, o liberalismo econômico não é o fim da história como alguns defenderam. A todo momento é necessário abandonarmos crenças e inventarmos soluções. Por que não descobrir uma maneira de manter a economia andando sem destruir a natureza? Precisamos neste momento de invenções, de criatividade e não de medo, pânico, retrações e recessões. O pior que pode ser feito é ficarmos parados ou recuarmos diante dos nossos desafios.
Clamar por uma maior presença e controle estatal na economia é um retrocesso que só impedirá que ela volte a crescer, prejudicando principalmente os países mais pobres que pareciam estar encontrando um rumo para pôr fim à pobreza como o estilo de vida da maioria de seus habitantes. Na história de humanidade, estados fortes e reguladores só serviram para sustentar a crença na divisão entre privilegiados e deserdados. Temos de abandonar a ilusão de que os governos existem para defender a maioria ou os menos favorecidos. Os governos, principalmente aqueles mais autoritários, só conseguem proteger e enriquecer os pequenos grupos que detêm o poder como nos exemplos da extinta URSS ou de Cuba. O Estado forte sempre foi sinônimo de paralisia econômica e de idéias. E uma acaba por repercutir na outra, como descobrimos nós brasileiros com o crescimento sem divisão do bolo e inconsistente durante o regime militar e como, mais cedo ou mais tarde, descobrirão também os chineses.
Vivemos um época de liberdade sem igual na história da humanidade. Mas estamos correndo o risco de interpretá-la como algo prejudicial, como se a liberdade fosse perigosa para a vida do ser humano no planeta. O problema é que esta liberdade é fruto da falência do mesmo remédio que agora estamos tentando usar para controlá-la: a impossibilidade de uma autoridade, de um outro que saiba e nos garanta a receita do bem-viver.
Temos de parar de interpretar o individualismo ou o fato de queremos sempre uma vida melhor ou diferente como pecado, como egoísmo e ganância. Se não temos um outro poderoso para nos controlar e nos guiar, temos nós mesmos, em nossa solidão, de nos virar. E só assim aprenderemos a ser responsáveis. Talvez, quando desistirmos de vez da crença em uma autoridade infalível, o nosso desamparo nos traga não egoísmo e violência mas solidariedade, fraternidade e amizade.
É possível que crise econômica atual só se resolva se, de alguma forma, os americanos voltarem a acreditar neles mesmos, em sua capacidade de inventar novas maneiras de defender a liberdade individual contra o vencido remédio do Estado forte. Caso isto não ocorra, a saída pode depender de que outras nações consigam cortar a corda com que os americanos carregam todos para baixo. De que outros países apostem na possibilidade de que o seu crescimento independe da recessão americana. Ao se soltar, estes países poderão impulsionar o resto da economia mundial. Se os americanos puxam para baixo é preciso que apareça alguém que puxe para cima.
E quem teria condições para isto? A resposta talvez seja um país marcado pelo entusiasmo e pela confiança. Um país que não se construa a partir da cópia de modelos do passado mas que aprenda com eles e ouse criar soluções novas para o mundo, que saiba desvencilhar o crescimento econômico da poluição ambiental, da necessidade de que outras nações permaneçam na pobreza, do imperialismo bélico ou da massificação de seus habitantes. Um país que renove a possibilidade de que continuemos seguindo com mudanças, inventando e crescendo mesmo sem saber para onde. Uma nação que permita o avanço tecnológico sem associá-lo à destruição, que não faça do desejo de desenvolvimento econômico um pecado.
Que país estaria em condições de atender a este chamado? Qual nação será a nova América, o novo mundo, um lugar que ofereça como primeira experiência para aqueles que chegam a visualização de uma imagem colossal da liberdade? China, Índia, Rússia? Brasil?
Os sábios economistas, aqueles que conheciam de cor a fórmula segura para o contínuo desenvolvimento econômico, estão tão atordoados e inseguros sobre o que fazer quanto qualquer pessoa que não entende nada do mercado de capitais.
Mesmo os vários planos e ações lançados por governos de diferentes de países para solucionar a crise soam como tentativas assustadas sem qualquer garantia de sucesso.
Diante das incertezas, da falta de explicações convincentes, são apontados os culpados de sempre: a crise é conseqüência do individualismo e da ganância desenfreada humana, a mesma ganância que está destruindo a natureza e mantendo guerras injustas contra povos indefesos. Para segurar este descontrole, também o remédio é o mesmo do passado: maior presença do Estado na economia, mais fiscalização, mais rigor, mais punição.
Tanto mais verdadeira é a crença no pecado do querer demais como o culpado pelo transtorno econômico atual se levarmos em consideração que a crise teve origem no país visto como o mais ganancioso, arrogante e de menor controle do Estado na vida das pessoas: O Estados Unidos da América. O mesmo país que reluta em seguir as limitações para emissão de poluentes estabelecidas pelo Protocolo de Kyoto e que invadiu, sem nenhuma razão convincente, o Iraque. E agora a especulação desregulada de seu sistema financeiro poderá causar a recessão da economia mundial. A liberdade dos americanos estaria prejudicando todo o planeta.
Na última grande crise econômica mundial, após a Primeira Guerra Mundial, diante das incertezas e da queda de modelos de segurança anteriores, muitos países fizeram a opção de ser guiados por governos e líderes fortes que prometiam a volta da ordem. Este processo resultou na Segunda Guerra, nos crimes nazistas, na morte de milhões de pessoas e na destruição de vários países. No fim, o grande vitorioso, o país que melhor soube sair da turbulência e orientar uma nova organização mundial, foi justamente aquele que não recorreu às receitas autoritárias do passado. O país que apostou em soluções novas para os conflitos de seu tempo, na liberdade e na capacidade individual de seus cidadãos. Os mesmos EUA que agora são apontados como responsáveis pela decadência mundial.
Após a queda da inimiga União Soviética, os EUA, como única nação hegemônica, parecem ter ficado assustados e perdidos no papel de guia mundial. Tomaram para si a função de botar ordem no planeta, de resolver todos os conflitos. Os americanos acreditavam na capacidade individual de seus compatriotas de se virar mas não demonstraram a mesma crença em relação aos habitantes de outros países. E o lugar de pai mundial, com o tempo, começou a cobrar o seu preço.
Nos últimos anos os americanos têm vestido a roupa de um império decadente. Passaram a se comparar e a reconhecer em si vícios iguais aos que levaram Roma a perder o seu império. Ficaram com vergonha das características que marcaram sua particularidade no mundo. O liberalismo econômico, a confiança na capacidade empreendedora de cada indivíduo na conquista de uma vida melhor , a pouca regulação e presença estatal, o acolhimento de diferentes formas de pensamento, as garantias à liberdade individual. Parece que os americanos se sentem arrependidos disto tudo. A jovem e confiante nação de repente se vê velha e frágil.
Onze de setembro, George Bush e seus auxiliares moralistas e incompetentes, fracassos no Iraque, no Afeganistão e em Israel, aquecimento global, crescimento da direita cristã, os dogmas matemáticos, o convencimento cego de que bastam uma pesquisa quantitativa e uma análise estatística para se encontrar a verdade das coisas, a idiotice do politicamente correto e da literatura de auto-ajuda, Michael Moore, China e outros países anteriormente pobres e atrasados crescendo a taxas vertiginosas. Tudo isto culminando com a perda da liderança no número de medalhas nas últimas olimpíadas. Os americanos chegaram a conclusão que as suas fórmulas não funcionam mais. Não sabem mais apontar os caminhos para o mundo, começam a copiar modelos que preconizam a maior intervenção do Estado contra tudo o que acreditaram no passado. Diante da crise dão um passo para trás. Talvez fosse melhor inventar um forma de seguir caminhando para frente.
O fato de encontrarmos obstáculos pelo caminho, de novos problemas surgirem a cada passo, mostra apenas que nenhuma fórmula é perfeita e definitiva que, por exemplo, o liberalismo econômico não é o fim da história como alguns defenderam. A todo momento é necessário abandonarmos crenças e inventarmos soluções. Por que não descobrir uma maneira de manter a economia andando sem destruir a natureza? Precisamos neste momento de invenções, de criatividade e não de medo, pânico, retrações e recessões. O pior que pode ser feito é ficarmos parados ou recuarmos diante dos nossos desafios.
Clamar por uma maior presença e controle estatal na economia é um retrocesso que só impedirá que ela volte a crescer, prejudicando principalmente os países mais pobres que pareciam estar encontrando um rumo para pôr fim à pobreza como o estilo de vida da maioria de seus habitantes. Na história de humanidade, estados fortes e reguladores só serviram para sustentar a crença na divisão entre privilegiados e deserdados. Temos de abandonar a ilusão de que os governos existem para defender a maioria ou os menos favorecidos. Os governos, principalmente aqueles mais autoritários, só conseguem proteger e enriquecer os pequenos grupos que detêm o poder como nos exemplos da extinta URSS ou de Cuba. O Estado forte sempre foi sinônimo de paralisia econômica e de idéias. E uma acaba por repercutir na outra, como descobrimos nós brasileiros com o crescimento sem divisão do bolo e inconsistente durante o regime militar e como, mais cedo ou mais tarde, descobrirão também os chineses.
Vivemos um época de liberdade sem igual na história da humanidade. Mas estamos correndo o risco de interpretá-la como algo prejudicial, como se a liberdade fosse perigosa para a vida do ser humano no planeta. O problema é que esta liberdade é fruto da falência do mesmo remédio que agora estamos tentando usar para controlá-la: a impossibilidade de uma autoridade, de um outro que saiba e nos garanta a receita do bem-viver.
Temos de parar de interpretar o individualismo ou o fato de queremos sempre uma vida melhor ou diferente como pecado, como egoísmo e ganância. Se não temos um outro poderoso para nos controlar e nos guiar, temos nós mesmos, em nossa solidão, de nos virar. E só assim aprenderemos a ser responsáveis. Talvez, quando desistirmos de vez da crença em uma autoridade infalível, o nosso desamparo nos traga não egoísmo e violência mas solidariedade, fraternidade e amizade.
É possível que crise econômica atual só se resolva se, de alguma forma, os americanos voltarem a acreditar neles mesmos, em sua capacidade de inventar novas maneiras de defender a liberdade individual contra o vencido remédio do Estado forte. Caso isto não ocorra, a saída pode depender de que outras nações consigam cortar a corda com que os americanos carregam todos para baixo. De que outros países apostem na possibilidade de que o seu crescimento independe da recessão americana. Ao se soltar, estes países poderão impulsionar o resto da economia mundial. Se os americanos puxam para baixo é preciso que apareça alguém que puxe para cima.
E quem teria condições para isto? A resposta talvez seja um país marcado pelo entusiasmo e pela confiança. Um país que não se construa a partir da cópia de modelos do passado mas que aprenda com eles e ouse criar soluções novas para o mundo, que saiba desvencilhar o crescimento econômico da poluição ambiental, da necessidade de que outras nações permaneçam na pobreza, do imperialismo bélico ou da massificação de seus habitantes. Um país que renove a possibilidade de que continuemos seguindo com mudanças, inventando e crescendo mesmo sem saber para onde. Uma nação que permita o avanço tecnológico sem associá-lo à destruição, que não faça do desejo de desenvolvimento econômico um pecado.
Que país estaria em condições de atender a este chamado? Qual nação será a nova América, o novo mundo, um lugar que ofereça como primeira experiência para aqueles que chegam a visualização de uma imagem colossal da liberdade? China, Índia, Rússia? Brasil?
Assinar:
Postagens (Atom)