quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A VIAGEM DA BELA JUNIE

Christophe Honoré talvez seja o diretor de cinema em atividade que mais questiona e investiga as particularidades dos relacionamentos amorosos na atualidade.

Em seu último trabalho, A Bela Junie, podemos acompanhar as desventuras de jovens estudantes e professores na busca de um amor. Ao terminar o filme, os espectadores mais românticos podem sair do cinema com uma certa melancolia. Os mais apaixonados personagens, aqueles que defendiam uma união sincera entre os amantes, aqueles que não abriam mão de encontrar alguém para quem devotar e receber um amor exclusivo e pleno, têm destinos trágicos e solitários. O ideal de amor não se realiza, a infelicidade permanece. Mas os práticos, aqueles que aceitam que seus parceiros sejam infiéis, que os relacionamentos sejam curtos e superficiais, nada muito além de sexo, também não parecem felizes em sua resignação.

Será mais desejável reconhecer que a felicidade amorosa não existe, que ela é uma ilusão boba, que não devemos perder tempo com sonhos irrealizáveis e apenas se contentar com as pequenas satisfações, em garantir uma trepada, um prato cheio de comida ou uma adrenalina qualquer? É difícil olhar para a bela Junie, sozinha em sua viagem no final do filme, e não ser solidário com a sua busca de amor. Por mais que a realidade pareça dizer o contrario, é como se, ao abrir mão disto, estivéssemos abrindo mão de nós mesmos, de que a vida tenha qualquer valor, razão ou encanto de ser vivida. Como se aqueles que desistiram da procura amorosa fossem mortos vivos, alguém que apenas cumpre tabela à espera de uma morte que não deve tardar. Sabemos que, no fundo de todo resignado, esconde-se uma Junie.

Um paradoxo humano estranho. Por mais que percebamos que encontrar um outro que nos traga felicidade é impossível, que os amores mais cedo ou mais tarde podem passar, que ninguém nos é 100% fiel, não conseguimos desistir do desejo de realizar este impossível.

O trabalho de Honoré trata justamente deste conflito. É interessante que o roteiro do filme tenha se baseado em um livro do século 17, La Princesse de Clèves, de Madame de La Fayette. Isto demonstra como o dilema amoroso sempre perseguiu homens e mulheres. Mas A Bela Junie consegue ser contemporâneo ao colocar questões e impasses que a quebra de valores e padrões rígidos de comportamento trazidos pela modernidade provocou nos relacionamentos afetivos.

Até pouco tempo atrás , e mesmo para muitos hoje em dia, os relacionamentos afetivos tinham um componente amoroso e outro de obrigação social. Na maior parte das vezes, dissociados um do outro. Namorava-se e se casava com alguém por um dever em relação à família e à sociedade, mas ficava-se com a impressão de que esta obrigação impedia a pessoa de encontrar o seu verdadeiro amor.

Os práticos daquela época diziam que com o tempo se aprendia a gostar e respeitar aqueles que o dever pôs em nosso caminho. As paixões eram consideradas loucuras de pessoas imaturas ou pertencentes apenas às obras de ficção. Os compromissos sociais impediam a realização afetiva plena. O amor era cerceado por inúmeras proibições. Aqueles que se entregavam às paixões, como alguns poetas, deveriam ter uma vida degradada e breve.

Mas, nas últimas décadas, as limitações foram caindo por terra. Aprovação do divórcio, independência econômica dos parceiros, separação total de bens, casais que apenas moram junto sem oficializar o relacionamento, métodos anticoncepcionais, sexo sem compromisso, aceitação de uniões do mesmo sexo. É como se a casca fosse caindo e hoje tivéssemos que nos defrontar com o osso das relações amorosas. O que fazer agora que nada me impede de ser feliz com o meu ou minha amada?

A questão principal de A Bela Junie não é sobre o relacionamento entre professor e aluno, um amor proibido. Ao contrário, o que se questiona, o que nos atormenta e provoca, é o que fazer quando temos a liberdade para amar. Pode ser professor com aluna, homem com homem, mulher com mulher, velha com novo, rico com pobre.

De repente as famílias de Romeu e Julieta fizeram as pazes e os apaixonados amantes não precisam mais se matar para realizar o seu amor. Terão agora de bancar e sustentar a sua afeição, já que nada exterior, nenhuma desculpa os afasta desta felicidade. Provavelmente, assim que Romeu chegar bêbado em casa e só prestar atenção no jogo de futebol, Julieta passe a sonhar com o passado de brigas familiares ou comece a desconfiar que se enganou, que talvez Romeu não seja o homem da sua vida.

A saída mais frequente a que temos assistido diante da ausência dos culpados pela nossa infelicidade amorosa é dizer que o próprio amor é uma ilusão. Esta seria a verdade prática dos nossos tempos. Em essência, ela não difere da praticidade anterior. Os práticos atuais são os resignados do amor. É a realidade que se tenta impor agora. Os moralistas de ontem viraram os cínicos e céticos de hoje. Não se diz mais que a paixão é uma deformação do diabo que perturba a boa ordem familiar, mas uma patologia ilusória que vai contra a natureza animal humana preocupada apenas em espalhar genes egoístas. Do mito religioso passamos ao mito biológico para justificar o nosso lugar de eternos mal-amados.

O amor continua sendo visto como uma coisa para os fracos, para os acometidos pelo sofrimento de se iludir.

Mas talvez possamos dar ao dom de iludir outro lugar que não seja o do pecado, o do erro ou da doença. Em vez de percebermos as fantasias como engano, podemos interpretá-las como condição, como necessidade humana básica. Religiões, ciência, amores, tudo isto são ilusões criadas pelo ser humano na tentativa sem fim de dar conta de um mundo alheio a qualquer sentido.

Nos relacionamentos amorosos, para que o conto de fadas continue depois que as bruxas forem derrotadas, é necessário continuar escrevendo a ficção.

Junie fugiu acreditando que seu querido professor jamais poderia amá-la como ela gostaria. Que ele, no fundo, era tão enganador quanto os outros rapazes. Mas ela poderia tomar um rumo diferente: abandonar seu barco e voltar para o seu professor. Deveria apostar que se pode fazer alguém ser o seu amor, que príncipe ou vilão são invenções ou expectativas criadas. Que mudando de expectativa se pode mudar aqueles que amamos. Que ninguém é pronto no mundo, que estamos todos permanentemente à procura do significado de nós mesmos. Podemos oferecer e insistir em significações ou interpretações novas para aqueles que amamos. Uma possibilidade de perceber quem se ama para além do eixo perfeição/imperfeição, que se veja o outro como um mistério permanente e encantador.

O nosso amor não é a nossa cara-metade perdida no mundo à espera de que uma sorte ou ventura qualquer a coloque em nosso caminho. Amor não é descoberta, mas é criação. Não é espera, nem dádiva, mas ação, persistência. Os que aguardam seu verdadeiro amor chegar estão sempre insatisfeitos com aqueles que encontram na vida. Carregam permanentemente a dúvida se determinada pessoa é a certa. Guardam a esperança de que exista alguém melhor, mais interessante, esperando ou procurando por elas. Para realizar um amor, é possível que tenhamos de descobrir que o que ficou de fora não existe, que podemos contar somente com aquilo que é inventado. Não há amores perdidos, mas se pode ganhá-los se apostarmos em sua criação.

Bons amantes devem ser bons ficcionistas.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O HOMEM BOM

Em um debate na campanha presidencial norte-americana de 2004, perguntaram aos candidatos George Bush e John Kerry o que eles pensavam sobre a legalidade do aborto. Bush, em tom decidido, disse que respeitava as leis que permitiam esta prática em seu país, mas concluiu afirmando sua opinião contrária ao aborto devido às suas crenças e valores religiosos. Já Kerry, um tanto titubeante, respondeu que defendia a legalidade porque ela era democrática ao permitir que tanto aqueles a favor como os contrários à interrupção da gravidez pudessem agir de acordo com as suas consciências. Entretanto, de maneira diversa do seu concorrente, o candidato democrata se esquivou de dar sua opinião pessoal sobre o aborto, se era favorável ou não. É provável que tenha se comportado assim para não perder votos no temido eleitorado conservador americano.

Independente de estar certo ou não em suas crenças, George Bush saiu do debate com uma imagem de firmeza e segurança, e Kerry como alguém fraco e sem confiança em si próprio. Por fim, os eleitores, em sua maioria, acabaram se decidindo por Bush. E o mundo sofreu mais quatro anos com seu desastroso governo.

Lembrei desta história depois de assistir ao filme O Homem Bom, do diretor Vicente Amorim e que está atualmente em cartaz. No filme, um professor universitário, bom pai e bom filho, perde a oportunidade de ajudar um amigo judeu de escapar da perseguição nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Mesmo não concordando com os princípios políticos de Hitler e seus companheiros, ele aceita promoções oferecidas pelo partido nazista. Inicialmente não acredita (ou não quer saber) na possibilidade de que um mal maior possa vir do entusiasmado movimento que prometia colocar ordem, trazer segurança e recuperar o orgulho da Alemanha. No final, tentando encontrar o amigo feito prisioneiro, o bom professor termina por se deparar com a verdade dos campos de concentração. Surpreso e tocado conclui: é real!

O que une a lembrança do debate na eleição americana e o filme de Amorim é que nos dois casos algo deixou de ser dito ou feito em nome de se manter uma boa imagem. John Kerry não quis causar uma má impressão no eleitorado conservador, enquanto o professor não quis queimar o seu filme junto aos seus benfeitores nazistas. Um achava que, assim, poderia ganhar as eleições, e o outro pensava em receber promoções.

O homem bom talvez tenha outro compromisso que não seja o de manter uma boa imagem em seu meio social, em ser um cidadão exemplar. Seu compromisso maior é com algo íntimo, algo que percebe como verdadeiro, mesmo que seja contra a verdade corrente na sociedade em que vive, mesmo que se descubra solitário em seus questionamentos, mesmo que isto possa lhe trazer riscos, que possa lhe causar prejuízos econômicos e profissionais ou levar à separação familiar. Ele, por mais que a princípio tente não saber da verdade que lhe persegue, acaba por reconhecê-la e paga o preço de defendê-la. É um homem que não engana a si próprio. Mais do que salvar sua pele, o homem bom vive por sua honra pessoal. Sem isto, percebe que a vida humana não tem valor, que se é apenas um boneco que segue as massas, um maria vai com as outras. Quem assistiu ao belo filme alemão A Vida dos Outros pode entender melhor o que é ser um homem honrado, um homem bom.

Facilmente identificamos o que deveria ter sido feito, qual causa boa defender diante dos regimes autoritários do passado. Sabemos que os homens bons foram aqueles que combateram os nazistas, os soviéticos ou as ditaduras militares da América Latina.

Mas e hoje, onde podemos perceber a necessidade de pessoas honradas?

Talvez pudéssemos começar pela política. Homens e mulheres que contrariem verdades estabelecidas, que enfrentem o medo do suposto conservadorismo do eleitorado. Quantos políticos brasileiros, por exemplo, têm a coragem de vir a público defender o aborto, a descriminalização do uso de drogas ou dizer que não acredita em Deus? Poucos, a maioria está preocupada em manter a sua pretensa boa imagem.

Não sei se o eleitorado julga um político por aquilo que ele diz ou defende. É provável que valha mais a atitude. Ninguém gosta de quem fica em cima do muro. Os conservadores parecem mais sinceros na defesa de seus princípios, se mostram mais confiantes e não têm vergonha de dizer publicamente o que pensam.

Os liberais, os que praticam uma vida diferente dos valores morais tradicionais, parecem indecisos e envergonhados de suas atitudes. Quando tentam apoiar uma causa contrária ao conservadorismo, usam de argumentos indiretos, como as vantagens econômicas de se legalizar o aborto, e nunca uma afirmação direta do seu valor ético. Por escamoteá-las, passam a impressão de que suas práticas e crenças são erradas e pecaminosas.

E se os políticos acreditam e esperam um eleitor retrógrado e conservador, é desta maneira que as pessoas vão se comportar, até pela falta da opção de uma outra expectativa.

Deste modo, vamos assistindo ao crescimento de bancadas religiosas e outros grupos moralistas. Governantes de esquerda que, no seu íntimo, não acreditam em Deus, fazem concessões conservadoras para ficar bem com o eleitorado. Dia após dia, leis restritivas à liberdade individual são criadas em nome da saúde e da segurança coletiva, tudo na maior normalidade. Até que um dia, novamente, a dura realidade caia sobre as nossas cabeças. Espero que neste momento tenhamos, pelo menos, a dignidade de não se permitir o pior e o mais inútil dos pensamentos: poderia ter feito e não fiz.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A DITADURA VENCEU

Desde a posse de Lula e do início da administração petista no governo federal, acompanha-se pela imprensa o aumento no número de concessões de vultosas indenizações financeiras para indivíduos que se consideram prejudicados pela ditadura militar.

Famosos e bem-sucedidos artistas, jornalistas e políticos, além de desconhecidos de várias categorias profissionais, sem o menor pudor, recorreram aos cofres públicos para receber milionárias compensações por possíveis danos às suas carreiras devido às suas lutas em defesa da liberdade política.

Se impressiona o fato destas indenizações terem valores muito superiores a outras reclamações que se tem notícia no país, como, por exemplo, nos casos que envolvem a indústria de cigarros, talvez seja de maior relevância as suas conseqüências éticas.

Pode-se argumentar que estas recompensas são injustas pois não se pode medir com precisão os efeitos das perseguições realizadas pelo regime militar no desenvolvimento profissional de uma pessoa. Pressupõe-se que todos seriam indivíduos extremamente competentes que teriam atingido o topo de suas carreiras caso não fossem alvo da investida dos militares. Além disto, muitos dos solicitantes alcançaram sucesso profissional justamente por terem seus nomes associados à luta contra a ditadura.

Aqueles que não combateram, ou mesmo apoiaram os militares (a maioria da população brasileira), não podem se queixar a ninguém por não terem sido bem-sucedidos em suas carreiras. Não interessa se a pessoa se considera lesada pelo fato de ter nascido pobre em uma cidade em que não havia oferta de ensino público de boa qualidade. Só os perseguidos pela ditadura são as verdadeiras vítimas. Portanto, embora se mostrem como uma busca por compensação econômica, estas indenizações, no fundo, representam um julgamento de valor, um julgamento ético.

Além de estabelecer que aqueles que foram alvo dos militares são indivíduos de maior competência na sociedade, as milionárias compensações trazem conseqüências mais importantes.

Se os solicitantes de indenizações queixam-se de ter sido prejudicados em suas vidas pela perseguição da ditadura, eles também estão dizendo que a sua luta por liberdade política e de opiniões foi danosa, que só vale a pena combater o autoritarismo se recebermos em troca uma boa recompensa econômica. Enfim, o que importa na vida não é a defesa da liberdade, não é a honra desta causa, mas a busca por conforto econômico.

Do Brasil à China, os sonhadores de esquerda viraram capitalistas pragmáticos, se renderam às supostas evidências de que o acúmulo de dinheiro é o grande valor humano. De românticos passaram a cínicos (uma metamorfose mais comum do que se pensa, pois é provável que sejam, como se diz popularmente, faces de uma mesma moeda ou farinha do mesmo saco).

Os outrora comunistas e socialistas dão razão aos militares que os acusavam de ser jovens tolos e cheios de sonhos idiotas. Não é só o comunismo que está errado, mas também a defesa do direito de querer mudanças, de pensar diferente, de buscar liberdade. Não são só as idéias, as teorias, que defendiam que se mostraram um engano, mas, da mesma maneira, as suas ações, as suas atitudes de questionamento. O que importa é defender a autoridade, a ordem e a segurança, principalmente a financeira. E todo conformismo com uma resposta, seja ela qual for, como valor humano maior, representa uma ditadura.

Os indenizados, boa parte senhores que já atingiram a casa dos setenta anos ou mais, tratam de garantir maior conforto para si e seus familiares. Boas viagens, bons hospitais em caso de necessidade, imóveis valiosos, uma grande reserva no banco, uma excelente herança.

Esta será a herança que deixarão para seus filhos e netos, este será o exemplo que passarão para as gerações mais novas. Suas batalhas, o fato de abrir mão de sua comodidade, correr riscos e até mesmo ter sido alvo de sofrimentos físicos em nome de acreditar que era possível mudar as coisas, em nome da liberdade, tudo isto foi anulado em troca de milhões de reais.

Se esquecem que talvez, assim, estejam apagando a própria razão de suas vidas. Colocam uma pá de cal em cima dos únicos momentos que valeram as suas passagens pelo mundo, os únicos instantes que deram significado às suas existências. Anulam a si próprios. Deixarão dinheiro, conformismo e mais nada.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

VICKY CRISTINA BARCELONA E EU?

Quem assistiu ao filme de Woody Allen, Vicky Cristina Barcelona, em cartaz na cidade, pode ter saído do cinema com vários questionamentos.

As mulheres se perguntando se são realmente felizes em seus relacionamentos, se também não deveriam experimentar uma aventura amorosa como a vivida pelos personagens do filme. Os homens incomodados pela suspeita, até então inédita, de que suas namoradas e esposas possam não ser tão fiéis quanto eles gostariam de crer. Em ambos os casos, dúvidas muito bem vindas para aqueles que não querem que as suas relações amorosas se transformem em obrigações tediosas.

Muitos consideram que as grandes obras são aquelas que denunciam as misérias, opressões e violências sofridas por determinadas categorias humanas, como mulheres, judeus ou pobres. Diante de trabalhos com esta temática, as pessoas podem se sentir indignadas ou mesmo revoltadas contra os poderosos causadores de tais injustiças. Alguns realizadores, como Michael Moore, se imaginam inovadores e promotores de mudanças sociais ao fazer trabalhos que denunciam a corrupção e as mazelas provocadas pelos tiranos do mundo.

As obras que têm como objetivo fazer uma denúncia apontam, para as pessoas que as consomem, os culpados pela infelicidade de terceiros ou delas mesmas. Estas criações trazem a crença que, se eliminássemos os vilões e toda a sujeira mundial, seríamos felizes. Quem assiste a um documentário de Moore chega à conclusão de que bastaria dar um fim a Bush e seus comparsas para se encontrar a paz e a justiça no planeta.

O espectador de tais trabalhos sente-se confortável na sua condição de superioridade moral. O problema é sempre com os outros, a falha ética de terceiros que não resistem às tentações do dinheiro, do consumismo, das drogas, do sexo, da busca sem limites pelo prazer. Os culpados pela destruição ambiental são as gananciosas corporações capitalistas. O responsável pelo baixo nível dos programas de televisão é o público ignorante, mal-educado e que só gosta de coisas fáceis. Com o espectador está tudo bem, os outros é que deveriam mudar. Ele defende uma vida regrada e correta: para viver em sociedade e ser um exemplo para os outros, as pessoas devem castrar os seus instintos prazerosos e animalescos.

Sejam de direita ou de esquerda, antigas ou recentes, as obras que trazem revelações e explicações sobre os males do mundo sempre são queixosas e moralistas.

Mas pode ser que ficar com uma pulga atrás da orelha depois de ver um filme, ler um livro ou assistir a uma peça de teatro seja uma alternativa melhor do que ter indignação, do que eleger culpados.

Uma obra vale se nos tocar, se nos causar incômodos, se questionar as nossas crenças, se nos tirar um pouco o chão. Enfim, se nos trouxer a possibilidade experimentar algum tipo de mudança, que depois do contato com ela nosso mundo seja algo diferente. Em vez de nos colocar como meros espectadores, a obra deve nos incluir, cobrar de nós alguma coisa.

Mas, para se ter questionamentos diante de uma criação alheia, para que seja possível mudar, é preciso saber-se não acabado, não santo, não perfeito. E, principalmente, não interpretar esta falha como um defeito, uma inferioridade ou um pecado, mas como uma liberdade, um convite à nossa participação na invenção do mundo e de nós mesmos, um convite à ação, à criação, ao amor.

Não é uma questão de trocar a culpa de terceiros pela minha, de ser humilde, de ser um católico em confissão. Não há quem possa nos desculpar, nos perdoar. Temos de eliminar a própria noção de culpa. Se haver como o desamparo de não podermos, com precisão, eleger os responsáveis pelo nosso mal-estar. Talvez o receio de se tomar esta posição seja que, ao eliminarmos um outro que seja o causador de nossa infelicidade, eliminamos também a possibilidade de um outro que nos traga a felicidade.

O problema é que os queixosos, os moralistas e os denunciadores se consomem na expectativa nunca cumprida de um dia viver em um mundo correto e livre de todo o mal. Acreditam que não só a sua insatisfação, mas que também a sua satisfação depende somente dos outros. Ficam esperando eternamente e terminam infelizes. A felicidade é apenas uma promessa que não chega.

Os desamparados de alguém que seja responsável pela sua infelicidade ou felicidade podem pelo menos se perguntar: como é que, não sendo Vicky, nem Cristina e nem morando em Barcelona, eu posso ser feliz?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

cais

Milton Nascimento/Ronaldo Bastos

Para quem quer se soltar invento o cais

Invento mais que a solidão me dá

Invento lua nova a clarear

Invento o amor e sei a dor de encontrar

Eu queria ser feliz

Invento o mar

Invento em mim o sonhador

Para quem quer me seguir eu quero mais

Tenho o caminho do que sempre quis

E um saveiro pronto pra partir

Invento o cais

E sei a vez de me lançar

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

AMAR E A IMPOSSIBILDADE DE SER AMADO

O poeta Carlos Drummond de Andrade, em seu poema Amar, pergunta: Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?

No entanto, parece que a maioria das pessoas vive com outra expectativa: entre as criaturas, ser amada por elas.

Os indivíduos têm como maior objetivo na vida receber o reconhecimento dos outros. Entendem que ser amado é igual a ser reconhecido. Todos os esforços, privações e sofrimentos têm como alvo final receber a recompensa de ser admirado, seja por uma pessoa específica ou pela sociedade.

Por exemplo, mesmo nos grupos terapêuticos que se auto denominam como Mulheres que Amam Demais, com uma observação e uma escuta mais aprofundadas destas mulheres, percebe-se que talvez o nome mais adequado seja Mulheres que Esperam Ser Amadas Demais (se só amassem já estariam tratadas).

No passado, uma pessoa era reconhecida pela sua posição na sociedade, pelos cargos que ocupava na hierarquia social. Hoje as pessoas esperam ser amadas por aquilo que acumularam: a quantidade de dinheiro, os prêmios recebidos, as fotos em revistas de famosos, os amigos no Orkut, quantos convites vips, etc.

Antigamente a possibilidade de ser reconhecido socialmente era para poucos. Só uma pequeníssima minoria tinha acesso às posições admiradas em seu meio. E muitos as recebiam por herança, sem qualquer esforço. A grande maioria se contentava apenas em tentar ser amada por Deus e receber o reconhecimento após a morte, seja no paraíso ou no inferno.

No mundo atual as possibilidades de reconhecimento se democratizaram. A fama pode estar à disposição de todos aqueles que se esforçarem para alcançá-la. Todas as ações visam o olhar dos outros, em bancar uma imagem que possa ser admirada.

Se a satisfação está em ser amado, fica-se sempre fazendo cena para o outro. Deste modo, a pessoa acaba prisioneira de um imaginário, se pergunta qual cena, qual imagem deve apresentar para que o outro a ame. Quais as palavras certas a dizer, quais os comportamentos corretos a adotar. Passa a buscar receitas de como se mostrar, de como aumentar o seu ibope (se pudessem todos contratariam um marqueteiro pessoal). O resultado é que toda a experiência de vida torna-se artificial, fake, empostada. É uma sensação que hoje facilmente se constata, por exemplo, em qualquer entrevista de celebridades na televisão, sejam elas do meio artístico, político ou mesmo intelectual. Não há o compromisso de trazer questões, de tentar dizer algo que se perceba como mais verdadeiro, mais sincero, mas somente de falar aquilo que se supõe que o público deseja ouvir, aquilo que não comprometa a boa imagem. A ousadia e a inovação desapareceram dos meios de comunicação. Mas não é só na TV. Parece que, em qualquer lugar, todos têm uma câmera diante de si, que estão todos no Big Brother. O tempo inteiro as pessoas estão fazendo cena, fazendo pose.

É possível que aqueles que dedicam sua vida ao reconhecimento não consigam experimentar a vida como defende Drummond. Buscam desesperadamente ser amados mas, em troca, renunciam a possibilidade de amar. Ser amado ao preço de não poder amar.

Para amar é preciso estar fora da cena, da armadura de se tentar encontrar uma imagem que possa ser amada e reconhecida. Amar é sinal de que existe uma falha em si e no outro, que não se é perfeito, que se tem buracos, que não se pode vender nem comprar uma imagem ideal para ser venerada. Só ama aquele que percebe o outro e si próprio como incompletos. Amar envolve levar fora, sentir dor, ser ridículo, perder coisas, ficar ciente da solidão.

Amar nunca é uma imagem plena de felicidade. Não se vêem pessoas que amam nas revistas de celebridades. Vêem-se apenas imagens que buscam ser reconhecidas. Amar é ação, é algo que existe enquanto se pratica, uma vivência puramente pessoal que não pode ser fotografada como uma cena idealizada.

Quem já foi a uma festa de lançamento de novela, cheia de famosos, ou passou um final de semana na Ilha de Caras sabe que não existe nada mais artificial e sem graça do que estas experiências. Ao contrário do que possa parecer, do que mostram as revistas, talvez as celebridades tenham vidas muito mais aborrecidas do que a da jovem que mora no morro e sofre com o namorado bêbado e desempregado.

Amar é uma ação sem fim, não visa a um objeto acabado. É uma eterna invenção. Por isto, embora as pessoas possam amar, elas não podem ser amadas, reconhecidas enquanto uma imagem final, pronta e perfeita. Existe uma distância entre a idealização que se faz de alguém e o que esta pessoa é. Ama-se fantasiando, fazendo uma invenção e não encontrando o verdadeiro amor. Esta deve ser a razão de os amantes estarem sempre se surpreendendo com os amados.

Como é comum ouvir que em determinado momento se descobriu que a pessoa antes amada é muito diferente da idealização que se tinha dela. O problema é que, nestas horas, se troca uma fantasia por outra. De príncipe ou princesa, passa-se a perceber o outro como sapo. Mas, no fundo, ninguém é Deus ou diabo. Somos um mistério constante para os outros, uma imagem inacabada.

Mas se não se pode ser amado, se pode provocar amor em alguém. Para isto, somos permanentemente convidados a nos reinventar, a mudar. Se paramos, se nos convencemos de uma imagem, se nos sentimos amados e reconhecidos, deixamos de provocar amor, de demandar invenção. É preciso amar a si próprio e se enxergar também como uma criação sem fim.

Provocar amor não é igual a cobrar e esperar que o outro me ame. Depende de nós e não do outro. Um encontro entre duas pessoas, uma relação amorosa, pode ocorrer quando cada uma consegue provocar amor na outra. Para isto é necessário abandonar a expectativa de ser amado. Trata-se de um paradoxo interessante: Para encontrar o amor de outra pessoa é preciso se convencer da solidão.

Entender que amar é inventar permite fazer uma diferenciação entre celebridades e artistas. A celebridade está sempre atrás do reconhecimento. Já o artista tem como principal objetivo fazer uma obra. O reconhecimento é conseqüência, não a meta primeira. Uma obra é uma demanda de invenção, algo que exige vir ao mundo. Ela usa o artista para ser criada, mas depois torna-se independente dele. Seu uso e apropriação posteriores escapam de qualquer controle de quem as criou. O artista acaba se sentindo usado: a obra é que é reconhecida, não ele.

Para quem se preocupa em ser reconhecido não é bom negócio ser artista. O artista pode até obter reconhecimento, mas sempre posterior a sua criação, muitas vezes após a sua morte. O artista que cria algo que é admirado de imediato pode se encantar e, neste momento, deixa de ser artista. Acredita que encontrou a fórmula certa, pára de criar e passa apenas a se repetir. Nada de novo acrescenta.

Mas qual a vantagem de se dedicar a vida a uma obra, a uma invenção? Quem sabe a possibilidade de amar. De experimentar esta condição que talvez seja a única real, autêntica, que pode tocar o nosso corpo.

Ser amado, reconhecido, é algo que se fica tentando a vida inteira sem se alcançar. É viver para uma ilusão, é viver sem viver. Diante da promessa nunca cumprida de ser bem-amadas, as pessoas acabam se percebendo como mal-amadas. Mesmo as celebridades, com o tempo, são descartadas e esquecidas, perdem a veneração de seus fãs. O público quer sempre imagens novas para alimentar a sua ilusão.

Sentir-se mal-amado, esta é a grande queixa de homens e mulheres. Seria melhor se haver com o fato de que ser amado é uma impossibilidade. Uma criatura só pode amar, só pode criar. E amar é uma ação sem retorno. Versos de Drummond: doação ilimitada a uma completa ingratidão.

Amor sem conta, não há outra saída para os seres humanos. Amar é a característica humana essencial, a nossa maior diferença em relação às outras existências do universo. Ao amar, inventamos um outro amado, inventamos nós mesmos, as coisas, a realidade. Amar é a solução humana para a impossibilidade de ser amado, de tudo conhecer, de conquistar o universo, de vencer a morte. Mas, para amar, temos de saber deste impossível, temos de encará-lo e até mesmo amá-lo. O poeta finaliza: Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

sábado, 15 de novembro de 2008

BARACK HUSSEIN OBAMA E A GLOBALIZAÇÃO

O presidente eleito dos Estados Unidos é filho de um queniano, nasceu fora do continente americano (no Havaí), morou um tempo na Indonésia e tem um nome que remete tanto à África e a países islâmicos quanto aos dois principais malfeitores do governo que vai suceder: Saddam Hussein e Osama Bin Laden.

Mais do que permitir que o primeiro negro (ou mulato) chegasse à presidência, a maior importância desta eleição talvez esteja na associação de Obama com países pobres e alguns classificados pelo seu antecessor como integrantes do eixo do mal. Sua vitória foi comemorada entusiasticamente não só nos EUA, mas em toda periferia do mundo.

Não sei se ele dará crédito aos dados biográficos que o ligam à parte marginalizada do planeta. Poder ser que tente ignorá-los e governe apenas com o objetivo de atender aos interesses norte-americanos. Se agir assim, Obama estará cometendo um erro grave. O engano está no fato de que a saída para a atual crise mundial pode depender da eliminação das diferenças econômicas e morais entre os diversos países.

A eleição de Obama mostrou que, em uma nação anteriormente tida como racista, a cor do candidato não importa mais. A escolha de um negro para o cargo mais importante do planeta nos diz que a maioria das pessoas não acredita no fator raça como algo que realmente represente uma divisão significativa entre os seres humanos. Significativa no sentido de poder-se dizer que determinada raça seja superior ou inferior a outra. Que se possa classificar alguém como melhor ou pior tendo em vista a sua origem racial.

Mas a vitória do filho de um queniano deveria também indicar que outra divisão já não convence mais no sentido de se poder estabelecer separações hierárquicas entre os indivíduos que habitam o planeta: a nacionalidade de cada um.

Do mesmo modo que não existem mais argumentos com um mínimo de validade para atestar que brancos, negros ou amarelos sejam melhores uns que os outros, não se pode mais defender que iranianos sejam superiores ou inferiores a noruegueses.

Assim como as diferenças entre raças são apenas superficiais e aparentes, as diversas nacionalidades também não diferem em sua essência e nas suas condições de desenvolvimento. Independente de onde se tenha nascido e da cultura herdada, a globalização mostrou que as potencialidades humanas são as mesmas. E, se cai por terra a crença na hierarquia de nacionalidades, tem-se como conseqüência lógica a queda também dos indicadores que apontam que uma nação é melhor ou pior que outra: a divisão entre países ricos e pobres, a divisão entre países do bem ou do mal.

A globalização, ao contrário do que muitos pensam, talvez seja mais a eliminação das separações hierárquicas entre as nações do que a imposição do capitalismo sobre todos os povos. Uma imposição que tenderia só a aprofundar a distância entre ricos e pobres. O que se globalizou foi a percepção de que todos podem ter o direito de mudar de vida sem levar em conta as condições fixas do nascimento. Aquilo que se afirmou entre os norte-americanos acabou por se difundir como um desejo mundial: o indivíduo pode ser responsável por inventar a sua história. Que nenhum fator geral como raça, etnia, nacionalidade, crença religiosa ou aspecto físico significa uma limitação real à mudança e ao desenvolvimento de uma pessoa.

Não se resolverá a crise atual mantendo as restrições e os protecionismos que impedem que os diferente países possam permitir aos seus cidadãos melhorar de vida. Não dá mais para conter o movimento legítimo que demanda o fim da divisão da riqueza mundial . Não é mais possível a defesa apenas dos interesses nacionais. Pensar antes em seu país representa hoje uma obscenidade. A globalização fez os EUA serem toda a terra. E Barack Obama deveria aceitar o que a imprensa mostrou: que ele não foi eleito só pelos EUA mas por todo o planeta.

É possível que tenha acabado a era de países imperialistas, hegemônicos, das potências mundiais.

A própria questão ecológica mostra que os efeitos das economias locais são globais. Para se pensar regionalmente deve-se levar em conta o que está sendo feito em todo o planeta. E se não temos recursos naturais ou capacidade ambiental para que todos os terráqueos tenham as mesmas condições de consumo que americanos ou japoneses, temos de repensar a idéia de que a satisfação está no acúmulo de bens e passar a apostar que ela possa estar mais no uso do que temos. Um mundo cuja felicidade está na aquisição sem fim de produtos é uma mundo ainda destinado a manter a hierarquia entre privilegiados e deserdados.

No futuro, com as quedas de fronteiras e a livre circulação dos indivíduos, talvez as pessoas possam viver sob bandeiras diversas, competir nas Olimpíadas sob variados nomes ou classificações. Mas estas divisões representarão o mesmo que uma divisão entre flamenguistas, corintianos ou colorados. Não se pode fazer qualquer afirmação sobre algo preciso que os diferencie, de características comuns que os definam enquanto grupo. Que a única diferença seja a escolha individual por determinado clube, o fato de se estar em determinado momento sob a mesma bandeira.