segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O CALÍGULA DE CAMUS

Por ocasião da montagem da peça Calígula, do escritor franco-argelino Albert Camus, feita pelo diretor Gabriel Villela (ainda em cartaz em São Paulo), tive a oportunidade de ler a tradução do texto original feita pelo jornalista e dramaturgo Dib Carneiro. O texto me surpreendeu pela força e por trazer questões muito necessárias para os dias em que vivemos, uma atualidade que talvez o próprio Camus não pudesse prever ao escrever a peça no final da década de 30 do século passado. Segue, abaixo, um comentário sobre esta provocadora obra.

A leitura de Calígula, de Albert Camus, é uma experiência perturbadora. Ao final do texto, em um primeiro impulso diante do incômodo, fica-se com a vontade de ignorá-lo, de deixá-lo de lado. Mas o impacto persiste e cobra, é necessário se haver com ele. Se a obra perturba é porque questiona certezas que parecem organizadoras. Seria mais fácil se fosse possível enquadrar o personagem Calígula dentro de crenças estabelecidas. Se, de alguma forma, se conseguisse classificá-lo como louco, devasso, tirano, transtornado pela perda do amor, psicopata ou psicótico. Explicá-lo e defini-lo como doente e anormal. Assim, do mesmo modo que se retira um tumor, bastaria eliminar Calígula para que tudo ficasse bem. Aí se poderia ser solidário com os revoltosos que o matam no final da peça. Mas não. Assim como o personagem de Cipião, não se pode deixar de reconhecer que Calígula é sedutor e portador de alguma verdade íntima. O Calígula de Camus não é imoral, mas talvez amoral. É alguém que tenta ser livre, se colocar fora das regras, da moral, além do que é certo ou errado, do bem e do mal. Ele quer igualar as coisas, acabar com as diferenças ilusórias, mostrar o vazio essencial que nivela tudo. Uma força anárquica que zomba, questiona toda lei e ordem sobre as quais se tenta estruturar o mundo. Ele desnuda hipocrisias. Faz da moral uma máscara e não um rosto, uma realidade concreta. Os enganadores (ou quem sabe cegos) são os seus justiceiros que querem o retorno da razão, da ordem, de seus lugares imaginários de poder. Como Calígula aponta em um trecho do texto, o teatro tem este mesmo lugar de desconserto. Se um ator pode interpretar vários personagens, vestir várias máscaras sem se identificar com nenhuma delas, se todos podem ser deuses no palco, então não existe uma imagem definitiva, acabada. Mas a liberdade perseguida por Calígula, a quebra de certezas e de limites, assusta. A atualidade da obra de Camus talvez seja esta. A humanidade vive um época de liberdade sem igual na sua história. As crenças e as autoridades, tudo que organizava a sociedade perdeu ou está perdendo a consistência.Vive-se uma época de incertezas. Até a economia, o capital, que parecia o centro do mundo (como debocha Calígula), tem os seus dogmas abalados. As morais tradicionais faliram. As pessoas estão livres mas com medo. Calígula está mais vivo do que nunca, como é profetizado no final da peça. E não é mais possível ignorá-lo ou eliminá-lo com punhaladas. O que fazer: todos se tornarão loucos ou assassinos sem limites? É melhor viver na hipocrisia ou em um cinismo moralista e não querer saber do desejo do impossível que está dentro de cada um? O texto de Camus pode indicar uma alternativa. Há um personagem e uma condição que estão o tempo todo presentes, mesmo que através da ausência: a lua e a impossibilidade de tê-la. E talvez esta impossibilidade seja hoje a única verdade e chance de organização quando não dá mais para esconder Calígula debaixo de uma moral qualquer. A peça apresenta dois homens que lidam de maneiras diferentes com o impossível e com o desejo de reinventar o mundo. Os dois são senhores das coisas. Um é imperador, senhor dos corpos. O outro, Cipião, poeta, senhor das palavras. O escritor, o poeta, na sua ficção, guia o destino de seus personagens, pode fazê-los morrer se for este o seu capricho. Mas o imperador, por mais tirano que seja, se depara com a impossibilidade real de conquistar o mundo. Os corpos são sempre rebeldes a qualquer tentativa de dominá-los. Este corpo celeste, a lua, prova isto. E é com esta insatisfação que Calígula se depara no final. Mas é possível que o poeta tenha uma sorte melhor. Na ficção, na fantasia, se pode ter a lua, se pode dormir com ela. A única maneira de se ter a lua é poeticamente e não enquanto realidade concreta. Uma forma de ter o impossível e ao mesmo tempo manter o impossível.

3 comentários:

PensarFalar disse...

Gostei muito do post e do teu ponto de vista e argumentação! Me faz uma visitinha?

lucasnapoli disse...

Márlio, muito bomo seu comentário de Calígula. Durante sua descrição do personagem foi-me vindo à mente a imagem de um adolescente atual e seu muxoxo perante os ideais que sustentavam nossa cultura até pouco tempo atrás. Diante de um "Estuda pra você no futuro ser doutor", o adolescente de hoje responde com um desprezo que revela o seu não-entendimento daquele ideal. A chave da questão é a reinvenção de uma nova maneira de gozar, que faça ode ao desejo e não ao dever. Uma ética nova...

Márlio Vilela Nunes disse...

Obrigado PensarFalar e Lucas Napoli pelas visitas (já devidamente retribuídas). Quanto ao seu comentário Lucas, acho que uma nova ética não precisa (e não pode) abrir mão do ideal. Mas ideal entendido como ilusão, fantasia, invenção, ficção. Não se trata de encontrar o ideal, mas de praticá-lo, de idealizarmos, fantasiarmos e sabermos que este ato de invenção é um fim em si, portanto, deve ser permanente. Encarado por esta perspectiva, o ideal pode ser uma oferta e não uma cobrança ou obrigação. Assim, ser doutor pode ser bem bacana. Abraço