quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

AMOR IDEAL OU AMOR REAL: SER TUDO DISTANTE OU SER NADA PRESENTE

Ver um corpo bonito na rua, na academia, em uma revista, na televisão ou na internet pode nos deixar excitados. Como seríamos felizes se pudéssemos nos aproximar, tocar, apertar, cheirar, fazer o uso que bem quiséssemos daquelas pernas, daquela boca, daquele narizinho ou narigão, daqueles dedos ou de qualquer outra parte da anatomia que cativar os nossos olhos. Que satisfação seria possuir o corpo da pessoa desejada!

A lembrança visual pode, depois, servir de estímulo para a criação de inúmeras fantasias, de enredos variados que conduzem inevitavelmente para a submissão da outra pessoa às nossas vontades. Podemos gozar dessas fabulações tanto sozinhos quanto quando estamos na companhia de alguém e precisamos de uma animação extra. Em ambos os casos, transamos com imagens que alimentam a esperança de um encontro com um corpo perfeito.

Mas o encanto com uma determinada fantasia não costuma durar muito. Logo a repetição daquelas cenas não provoca a mesma euforia do começo. Precisamos de uma nova seqüência, de novas histórias ou, quem sabe, de novos personagens.

Pode ser que mantenhamos a mesma pessoa como protagonista de nossos sonhos quando temos contato com ela com certa frequência, mas com a condição de que encontremos obstáculos permanentes para a realização do nosso desejo de possuí-la. A pessoa querida é compromissada, pode ser boa demais pra mim, quem sabe jogue em outro time ou simplesmente não goste de mim como eu dela.

E se, por um acaso qualquer, temos a oportunidade de nos relacionar com a pessoa desejada, em um primeiro momento ficamos entusiasmados, como que embriagados pela fantasia de um outro ideal. Mas depois, com o tempo, aquele par de pernas já não parece mais tão encantador; aquelas nádegas, embora tenham as mesmas proporções, parecem não possuir a perfeição de antes.

Por mais perfeitas que sejam as medidas, por mais jovial que seja a pele, por mais rígidos que sejam os músculos, por menor que seja a gordura abdominal, um corpo pode não passar de um pedaço de carne sem nenhum charme para aquele que acredita tê-lo conquistado.

Azar das mulheres ou dos homens, tão comuns hoje em dia, que colocam toda a sua esperança de ser feliz no amor em se ter um corpo dentro dos padrões de juventude e magreza cobrados pela sociedade. Depois de tantos sacrifícios, correm o risco de ficar a ver navios. A sedução não está naquilo que se pode dar ou oferecer, nos nossos dotes que completariam o outro. Ao contrário, o encantamento vem daquilo que não temos para dar, daquilo que em nós que se mostra impossível de ser conquistado ou possuído. Por isso, para se manter a nossa fantasia, o nosso ideal de perfeição, é necessário que estejamos permanentemente distantes da pessoa desejada. Os bons sedutores sabem disto: prometem, prometem, mas, na hora agá, dão sempre um jeito de pular fora. Deixam só o gostinho na boca.

Então, para se manter o encantamento, a paixão, o amor, estaríamos condenados a um eterno desencontro? Devemos ficar apenas na vontade, na promessa, na insatisfação, no sonho não realizado?

Se buscamos um encontro perfeito, se estamos à procura de um outro que nos complete, a resposta é sim. Para se manter um ideal impossível, é necessário nunca alcançá-lo. O que importa não é a realização, mas a manutenção da esperança, da crença na completude e em um sentido final para as nossas vidas.

A pessoa que devota a sua vida à expectativa de ser bem amada, acaba sempre no lugar de mal amada, de carente: a minha satisfação está naquilo que não tenho. Em um mundo em que as promessas de felicidade são tão fortes como o nosso, não é de se estranhar a epidemia de frustração, baixa estima e desânimo. O parceiro daqueles que buscam se satisfazer totalmente pode terminar sendo um nem sempre fiel antidepressivo.

Uma outra possibilidade seria se conseguíssemos olhar para alguém não como um Deus ou Deusa, mas como um simples mortal. Em vez de uma promessa duvidosa de um encontro com algo concreto que nos completaria, a certeza de estarmos diante de um ser fugaz, incerto, nebuloso, inapreensível. O difícil acontecimento de que vejamos o outro além das imagens e dos sentidos que o mundo nos oferta. Enxergamos não uma perna ideal ou um mero pedaço de carne, mas um mistério, um nada que no entanto existe e está presente.

Um amor que não esteja marcado pela falta, pela expectativa de alguém que nos complete, pela cobrança de que o outro me dê aquilo que eu quero, por uma relação de dívida.

Mas como fazer para se conseguir essa visão, para se ter esses olhos?

Talvez a resposta passe por não se querer isso. Que possa acontecer, se for o caso. Querer alguma coisa é da ordem da falta, de se buscar algo que nos faria mais felizes ou melhores. Se nos enxergamos assim, como faltantes, não encaramos a nossa impossibilidade de nos completarmos. E, se nos percebemos como carentes, do mesmo modo vemos os outros à nossa volta. Como pessoas carentes não são amadas, continuaremos amando apenas um ser perfeito e para sempre distante.

2 comentários:

Mauro disse...

Márlio,

Fico sempre impressionado com a clareza de suas idéias.

Seus "posts" se transformam numa verdadeira sessão de análise, mesmo que à distância.

Repetidamente comento aqui sobre o meu desejo de ver mais e mais textos seus. No entanto, percebo que esse intervalo não é por acaso, talvez seja um tempo necessário para "digerir" tudo o que você escreve. Pessoalmente, vou ruminando cada palavra como alimento para minha alma.

Obrigado.

Mauro.

Márlio Vilela Nunes disse...

Oi Mauro,
Seu incentivo é sempre bem-vindo. Vou procurar postar com mais urgência.
Abraço