segunda-feira, 14 de abril de 2008

POR UM CLIQUE

Todos os dias recebo mensagens pela internet que evidentemente são falsas. Trazem links que, se clicados, automaticamente contaminariam meu computador com um vírus ou outra moléstia eletrônica. De uma forma geral, estas mensagens são facilmente reconhecíveis. Somos constantemente alertados sobre os e-mails falsos, sobre nunca abrir e responder a uma mensagem não esperada ou de uma pessoa ou instituição desconhecida. Uma avaliação racional das possibilidades indica que, na dúvida, é melhor não clicar. No entanto, deve ser grande o número de pessoas que caem na armadilha, pois, as mensagens enganadoras são cada vez mais freqüentes. Para muitos, o impulso deve falar mais alto que a razão. Pode-se tentar entender melhor o que ocorre a partir de uma análise do que estas mensagens portam. É possível dividi-las em dois grupos principais em relação ao seu conteúdo.

O primeiro grupo, e talvez o mais freqüente, é o das mensagens românticas. São aquelas que têm um fundo afetivo e carregam uma promessa de encontro com alguém querido. Muitas são encabeçadas por nomes que certamente, para a maioria das pessoas, trazem uma possibilidade de recordação amorosa como Ana, Paulinha, Cris, Léo, Edu e Pedrinho. Nomes vagos que, pela sua imprecisão, abrem uma série de probabilidades. “Deve ser aquela menina que conheci na balada outro dia. Ela deve ter encontrado meu endereço na Net.” “Pode ser o Fabinho lá de Ubatuba. Aquele que era conhecido do Lucas e ficou me olhando.” Algumas mensagens são acompanhadas de um link para fotos. “Você recebeu uma foto de Carol.” É mais difícil resistir ao impulso de clicar quando se pode ver e saber de qual Carol se trata. Outras não trazem nem nomes, nem fotos. Apenas frases do tipo: “Alguém que gosta muito de você está te mandando um cartão eletrônico.” “Estou com saudades. Quer fazer parte do meu grupo de amigos?”

O segundo grupo é o das mensagens paranóicas. Normalmente vêm acompanhadas de uma ameaça de danos judiciais ou financeiros. Têm como signatárias instituições do governo ou econômicas. “Você está com pendências na Receita Federal. Seu CPF poderá ser cancelado caso não responda imediatamente a esta mensagem.” “Sua conta foi bloqueada por motivos de segurança. Clique no endereço abaixo para mais informações.”

Em ambos os grupos existe uma promessa. Ou uma promessa amorosa, como nas mensagens românticas, ou uma promessa de prejuízos, como nas paranóicas. Outros tipos de mensagens falsas têm em comum com os grupos anteriores o fato de também portarem promessas. Seja de gratificações, prêmios, descontos ou vantagens exclusivas. Se nos livrarmos de todas as ameaças e perigos, se encontrarmos o nosso amor ou se ganharmos uma “bolada”, seremos felizes.

Olhando de fora, pensaríamos que uma pessoa, na sua sã consciência, esclarecida das ameaças de contaminação via internet, poderia facilmente raciocinar :“Não sei que Ju é esta; uma pessoa que realmente conheço não iria me mandar uma mensagem vaga assim” ou “Caso estivesse realmente com um problema urgente no banco, eles não iriam me procurar assim, apenas por e-mail. Vou ligar pra minha agência e saber o que está acontecendo de verdade.” Mas o bom senso parece um ideal vago e distante. Uma pequena voz, lá no fundo, martela e acaba dominando: “Mas se...” E num impulso, “mais forte do que eu”, a pessoa faz o clique fatal. Depois, diante de todos os danos decorrentes deste ato - a dor de cabeça de um computador inoperante, de um banco de dados perdido ou de sua conta invadida - o arrependimento, a culpa: “Que inferno, como sou idiota. Estava na cara que era uma mensagem falsa.”

Que força irresistível é esta do “mas se...”, qual é este canto de sereia? É que, se existe uma possibilidade, a menor que seja, eu não posso deixá-la escapar. Qual possibilidade? A de encontrar o grande amor perdido, a de evitar um prejuízo incontornável contra mim ou minha família, de receber o grande prêmio que mereço. Se não clicar posso perder tudo isto. É o mesmo impulso que leva pessoas a responderem aos telefonemas sobre falsos seqüestros de familiares, tão comuns hoje em dia, mesmo contra todas as evidências. O medo de uma perda irreparável. No fundo sabemos que a razão, que todos os bons argumentos, não são suficientes para garantir a segurança de uma decisão. Está sempre presente o “mas se...” e então, na dúvida permanente, é melhor agir para evitar a possibilidade de que aquilo escape. Mas, depois do clique, o que inevitavelmente se encontra? A punição pela ato irracional, o arrependimento, a frustração. A eliminação das ameaças, o grande amor, o grande prêmio,, era tudo uma enganação, uma mentira. Os prejuízos, estes sim, são reais. Não vale a pena ter ilusões, como a amorosa, na vida. A pessoa, depois, se fecha e passa a recobrir-se de cuidados para não cair novamente na armadilha. Quer encontrar uma forma de manter a mente sempre esclarecida. Procura por um modelo, uma receita que lhe garanta uma maneira certa de agir, de tomar uma decisão. Até que aquela pequena dúvida, aquela pequena possibilidade, sem querer, meio que pelos cantos, vai ganhando força e pronto. Vamos em busca de algo que nos renove a promessa. Uma nova crença religiosa que prometa o céu na terra, um livro de auto-ajuda com a receita para se ter o sucesso, um novo antidepressivo para nos dar uma vida cheia de alegria e sem efeitos colaterais, o namorado que jura que vai deixar de ser sacana. E, mais cedo ou mais tarde, novamente nos percebemos enganados, traídos em nossa boa fé. Somos feitos de trouxas por aqueles que se usam de nossa inocência para nos roubar. “Como alguém pode ser tão malvado, se utilizar da carência dos outros para lhes prejudicar?” “Por que você fez isto comigo, eu que acreditei tanto em você, eu que lhe dei o meu melhor?”

Normalmente os criminosos ou psicopatas são descritos pelos livros de psiquiatria como aqueles que não têm juízo moral ou aqueles que não têm arrependimento e empatia pelos outros. Mas eles poderiam, também, ser descritos como aqueles que sabem que a voz do “mas se...” é mais poderosa que as grades de segurança com as quais as pessoas se protegem. São aqueles, profundos conhecedores do querer humano, que ouvem e atendem a este chamado, a esta procura. Procura pelo encontro com o amor, com a felicidade? Não parece, pois o que os psicopatas, estes enganadores, trazem, na realidade, é apenas a frustração, a desilusão. Mas mantêm a dúvida, a possibilidade, nem que seja ao redimirmos ou eliminarmos todos os malfeitores, todos aqueles que nos atrapalham o caminho, de encontrarmos a felicidade. Os psicopatas mantêm, assim, a felicidade como uma promessa permanente, um porvir que nunca chega, nunca se realiza. Mas o que seria de nós em um mundo sem vilões, em um mundo onde não teríamos ninguém para colocar a culpa pela nossa infelicidade?

Enquanto quisermos acreditar que podemos nos afastar de todas as dificuldades e que, assim, encontraremos o nosso grande amor, nosso prêmio, voltaremos a cair no golpe da promessa falsa, seja pela internet ou por qualquer outro meio. Continuaremos apenas sonhando com a felicidade. A outra escolha seria saber que o engano não é uma dúvida, um “mas se...”, mas uma certeza. A felicidade, o amor, não vêm em um clique, prontos, de fora, dos outros, como um prêmio. Eles dependem do desejo de cada um, do duro mas libertador esforço de cada um em construí-los, em inventá-los.

Um comentário:

Marcia disse...

Cliquei...e por um instante achei que fosse uma "pegadinha". A agonia do texto que parece que vai "nos pegar"a cada palavra... a vontade de desistir de ler até o final. Mas o arrependimento pode se transformar em oportunidade. E de fato, depois de chegar ao final, acrescentaria um outro grupo nas mensagens inesperadas: o dos que têm medo de clicar e nunca clicam. Além da possibilidade do arrependimento, a possibilidade da dúvida, acrescentaria a possibilidade do risco...hoje vivemos o risco e aprender a viver com ele é parte do processo.
Márcia